Tico Menezes

Que o Céu é o Limite e você, truta, é Imbatível

Sobre seus próprios significados para palavras que, de tão boas, se tornam perigosas.


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Nessa semana me surgiu uma dúvida após duas situações consequentes que enfrentei e precisei do dicionário para me certificar de algo que tomava como certo para mim.

Paz: estado de calmaria, de harmonia, de concórdia e de tranquilidade. Sossego; em que há silêncio e descanso. Falta de problemas ou violência; relação tranquila entre pessoas.”

A dúvida foi embora e me veio uma triste certeza; estamos nos esquecendo, dia após dia, do que é paz. E não só nos lugares onde se concentra a tensão, onde cada palavra pode causar uma guerra ou corações amargurados cospem discurso de ódio propositalmente para mover massas carentes de razão, não. Estamos nos esquecendo do que é paz em nossas vidas simples, em nossas rotinas pacatas, em nossas noites antes de dormir. Lentamente nos dando conta do doloroso fato de que estamos desacostumados com a felicidade. E pensamos menos de nossos objetivos, diminuímos o valor de nossas conquistas e cedemos ao medo com muito mais frequência do que nossa força permitiria se estivéssemos em paz. Posso estar errado ao criar um “Nós” quando estou expondo minha visão, mas ainda procuro por quem não esconde uma insegurança por traumas que voltam aos gritos involuntariamente.

O que me doeu quando percebi – primeiro nos outros, depois em mim, como bom orgulhoso – foi aceitar que virou normal erguer um escudo ao abrir o portão de casa, usar sorrisos falsos durante o dia, rir do que não te faz rir, entrar em conversas que não nos interessam e ter respostas prontas engatilhadas para qualquer ofensa que cruze nosso caminho. Estamos acostumados com a dor e procuramos força comparando nossa situação com a de outros, como se uma dor deixasse de ser real porque a outra é considerada – por quem? – pior. Deixamos de lado a ideia de que, se estivermos dispostos a mirar na felicidade, talvez consigamos alcançá-la, não de uma forma idealizada ou padronizada, mas abraçando o que desconhecemos e nos permitindo o benefício da dúvida, de um sorriso diferente.

Não é estranho quando as coisas começam a dar certo em sequência? E quando recebemos elogios ou nos percebemos admirando muitas coisas em nós mesmos, sentindo orgulho de um ou outro fato em nossa história, lendo sobre virtudes e conquistas de nosso país – as que não envolvem futebol ou concursos de beleza – e nos percebendo feliz por nossas raízes? E por qual razão não fazemos mais isso? Que vício em auto-sabotagem é esse que não nos deixa dar passos diferentes dos que nos levaram à lugares sombrios?

Me revolta perceber que temos muito mais fé em Deus do que em nós mesmos. Oramos para uma força que consideramos superior e nos desvalorizamos, deixando de lado nossa capacidade de sucesso e nosso potencial de grandeza. Injustiças acontecem, sim, somos vítimas diversas vezes durante a vida, assim como podemos infligir sofrimento a alguém sem percebermos, basta nos darmos tempo de questionarmos nossas ações, procurar saber para onde elas estão nos levando, nos permitirmos estarmos errados. Feito isso, qual a razão de contar com o destino, entregar nas mãos de Deus, dizer que o acaso vai te proteger enquanto você andar distraído, abraçar frases de efeito para justificar que nada está em seu poder?

Será que todos acreditamos na mesma mentira desmotivadora?

Pois então proponho uma nova busca no dicionário. Aqui, encontrei.

Fé: confiança absoluta; crédito. Asseveração, afirmação, comprovação de algum fato. Credibilidade dada a algo no qual se funda, resultando disso a própria veracidade.

Por novos caminhos e certezas mais felizes. Por novos significados. Por um dia sem defesas ou ataques, apenas presença. Pela paz interior que urge se expandir. Por menos constatações infelizes. Por nós.


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