Tico Menezes

Quem Você Anda Traindo?

É muito mais fácil trair a si mesmo do que aos outros. O que é tão problemático quanto, aliás.


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Traição é traição, romance é romance, amor é amor e um lance é um lance.

Um grupo de funk brasileiro chamado “Os Hawaianos” canta a citação acima em uma de suas letras mais famosas. A música é tida como fútil e sem conteúdo relevante e, por alguns, até agressiva, mas, por pior que possa parecer, ilustra perfeitamente a reflexão aqui proposta. Vamos falar sobre relacionamentos, mais especificamente sobre o que é e o que significa a traição. E não, não haverá sequência do pente neste texto.

Situação: Você e outra pessoa sentem que se gostam muito, gostam da companhia um do outro, dos beijos trocados entre si, do sexo, das conversas, de se ouvir, de poder ensinar e aprender, das danças, dos dias juntos, e, assim, decidem que querem se unir num namoro, uma relação somente dos dois que implica continuar a praticar tudo o que ambos gostam de fazer juntos. Há perspectivas de crescimento pessoal com a relação, de evolução para um acordo de companheirismo ainda mais forte chamado Casamento, de viagens e novas experiências em dupla, há planos e apenas uma certeza: A vontade de continuar juntos. Eis que, num de seus momentos longe de sua companheira ou companheiro, você se depara com alguém que desperta outras vontades, desperta a curiosidade, desperta até mesmo novos interesses e acaba por não sair mais de seus pensamentos ao longo dos seus dias. Há quem se sinta culpado, há quem se sinta instigado, há quem se sinta insatisfeito, há até quem se sinta decidido a ceder aos pensamentos sem muito questionar, e todos são, sem dor ou acusação alguma, seres humanos. É algo que pode acontecer, talvez até já tenha acontecido, uma mera hipótese dado o fato de que vivemos em sociedade e os relacionamentos são parte natural da vida.

Nesse exemplo, a pergunta óbvia é “Trair ou não trair?”, mas a que eu proponho é: O que é traição?

Ao meu ver, a pessoa que cede às vontades incitadas por outra está sendo fiel a si mesmo e traindo seu companheiro. Porém, e a que continua sentindo vontades, deixa de aproveitar os momentos com o companheiro e não consegue parar de pensar em como seriam as situações da vida com outras pessoas? Esta está traindo a si mesma ao se privar de suas quase incontroláveis vontades e sua curiosidade. E isso não é um problema, contanto que tudo fique esclarecido com seu companheiro, seja num acordo de relacionamento aberto ou no término da relação. O grande problema da questão é a variável “segredo”. Qual a razão de mentir para encobrir algo que passa a ser uma mentira no momento em que a traição foi a escolha feita?

Assim caímos na conclusão da reflexão; desejos e vontades são irracionais, a ação que vêm delas é uma escolha. Trair é uma escolha, assim como se comprometer ao amor sentido. Deve-se diminuir a autocondenação por sentir vontades, mas prestar atenção nestas, pois se elas são maiores do que a história que uma pessoa vive com outra, é sinal de que o dilema “Trair a si mesmo, ao outro ou ser verdadeiro” está próximo.

O ser humano não é monogâmico, isso não é nem saudável. Precisamos de experiências, tentativas, frustrações, desilusões, persistência e quedas para nos tornarmos amantes maduros, termos nossas metas de relacionamento claras, adquirirmos maturidade para lidar com situações comuns de relacionamento, enxergar a discordância como algo positivo e engrandecedor, para aprendermos que temos a escolha de dividir nossa vida com alguém ou desbravá-la de forma mais desgarrada, se entregando às vontades sem culpa ou dilemas. São escolhas corajosas, aliás, viver e amar verdadeiramente é para os corajosos. E quem irá dizer se é amor, romance ou um lance é aquele que tiver coragem de, na plenitude de seu livre-arbítrio, escolher seguir em frente.


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