Tico Menezes

Sim, Eu Não Sei

Não queira ser ninguém além de você.


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Com quantas besteiras e frivolidades nos irritamos, não? E melhor – ou pior, deixo isso a seu estado de espírito atual –, quão pedantes podemos ser sem percebermos, não?

Deste que vos escreve, uma das opiniões que mais declaro em discussões por aí – de bares a salas da casa de amigos numa tarde de domingo – é a de que todo generalismo é burro. E assumo a arrogância de tal declaração. Sem peso algum. Mas o faço por ter lido, vivido, estudado, contradito e encontrado apoio científico no que digo. Ou seja, estou em paz sabendo que não sou ninguém além de mim, ao menos não nessa frase. Mas em quantas outras posso estar apenas dizendo com outras palavras algo que ouvi e concordei ou, até pior, posso estar querendo soar como algo além de minhas competências e conhecimento apenas para me sentir melhor nas discussões em que me envolvo?

Acredito que vale a reflexão, não? Pensemos juntos, então.

Há uma citação em “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, que ilustra muito bem a facilidade com que nós, humanos, podemos cometer a bobagem de querer ser mais do que somos sem percorrermos o caminho da evolução do eu atual para o eu futuro, que, às vezes, pode até ser tudo o que um dia quisermos ser.

Ela, em geral, dava ótimos conselhos a si própria (embora raramente os seguisse). Às vezes, ralhava de modo tão duro consigo mesma, que chegava a ficar com lágrimas nos olhos. Ela se lembrava de ter, certa vez, tentado puxar as próprias orelhas por ter trapaceado num jogo de toque-emboque, que jogava contra si mesma. Essa curiosa menina gostava de fingir que era duas pessoas.

Mas agora de nada adianta fingir ser duas pessoas”, pensou a pobre Alice, “pois pouco sobrou de mim sequer para inteirar uma pessoa que se respeite.”

Como pensou Lewis Carrol ao escrever essa passagem – em minha intepretação, é claro –, penso eu que, como humanos que nunca param de aprender, vez ou outra queremos nos sentir mais maduros, mais sabidos, mais fortes, menos vulneráveis, superiores. É natural e não é pecado nenhum, mas cabe uma auto avaliação. Não é previsível que alguém inseguro comece a falar sobre o que não sabe ou que alguém apressado diga que conhece algo apenas para terminar logo uma conversa ou uma situação? Digo, você já não se percebeu se auto medicando, dizendo que tal pessoa deveria fazer algo de tal forma só porque parecia certo para você, agindo como médico, professor, advogado, técnico ou qualquer outra profissão sem o menor conhecimento daquilo apenas porque queria aparentar ser um pouco mais do que você realmente é?

Novamente, não precisa se condenar caso a resposta for positiva, apenas pense e então – olha o segredo aqui – você já será mais do que era antes. E o que consideramos besteira e frivolidade é o ato de outros meterem o bedelho naquilo em que não são chamados, lê-se cuidar da nossa vida ao invés da vida deles próprios. Mas onde está a distinção entre o “cuidar da vida alheia” e o “tentar ajudar a não fazer declarações infundadas e evitar constrangimentos que nem percebemos estar passando”? Será que estou sendo mais do que sou ao colocar em palavras esse pensamento e querer que ele seja discutido e repetido por quem me lê? Será que estou sendo frívolo e dizendo besteiras? A verdade é que não sei. E isso é ótimo.

Devemos pensar bem de nós mesmos, gostar do que somos, mas assumir que sempre sabemos menos do que o quanto temos a aprender. Somos inteiros, não somos? E podemos, ainda assim, encontrar mil e um pedaços que faltavam em nós. Logo, não precisamos ser duas pessoas, apenas quem somos, em nossas mil e uma faces, épocas, fases, formas e estados.


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