Tico Menezes

Olinda

Sobre uma mulher forte...


IMG-20170517-WA0015.jpg

Hoje acordei com saudade da minha avó. Diferente das vezes em que eu me forçava a ficar bem porque sei que ela está bem, hoje não consegui não sentir aquela saudade intensa e desejar ouvir a voz dela mais uma vez. Olhei para nossa última foto juntos e entendi o que estava acontecendo comigo. Resolvi falar com ela por aqui, do jeito que ela sempre me incentivou a fazer.

“Você já almoçou?”, me lembrei que foi a última coisa que ela me disse.

E seis dias depois, ela aceitou partir. Não sem luta, não sem fazer questão de nos explicar seus porquês e dizer o quanto amava cada um, não sem deixar claro que sentia raiva de sua doença, não sem ter certeza de que ficaríamos bem e nos lembraríamos de levar uma blusa e um guarda-chuva quando saíssemos para algum lugar. Uns dois meses antes, ela fez a Festa da Sopa, comprou cumbucas de vidro bem fundas para todos e ajudou a fazer quatro tipos de sopas deliciosas porque, já que só podia tomar sopa e líquidos, queria que todos nós vivêssemos aquilo com ela de uma forma divertida. Nesse dia, depois de falar com todo mundo, fazer piadas e explicar o motivo da festa mais algumas vezes, ela ficou cansada e subiu para o quarto. Eu e Paloma acompanhamos. Já deitada, Vó Olinda elogiou o anel da minha namorada, sorriu e disse a ela que eu era meio maluquinho, mas era um menino bonzinho, do coração sensível. Ao me perceber emocionado, mudou de assunto e me perguntou se eu me lembrava de quando ela viajava conosco para a praia, quando tomávamos sorvetes gigantescos sentados na areia, quando ela me comprou uma barraca para dormir no quintal de casa como as crianças nos filmes americanos, se eu tinha assistido o último episódio de The Walking Dead, se eu tinha visto o comercial engraçado do novo filme do Thor, se eu tinha gostado da festa. “Eu tive uma ideia legal, né?”, perguntou, sobre aquela reunião feliz. “Mas é claro, Vó! Olha como todo mundo tá sorrindo, enchendo a barriga de sopa”. Ela sorriu. Demoramos para ir embora naquele dia.

Ô, Dona Olinda...

Ela ficou brava quando fui visitá-la no hospital, acredita? Quando começou a entender que estava bem doente, mesmo que não aparentasse, teve alguns dias nos quais se fechou e não deixou ninguém chegar perto a não ser seus filhos. Minha mãe e meus tios me explicaram mais de uma vez que eu deveria respeitar aquilo. Respeitei por uma semana, aí fiz o que a Vó me ensinou. Fiz o que acreditava, mesmo que dissessem que eu não deveria. Liguei pra ela, bravo, disse que ia lá na manhã seguinte e ela respondeu, brava também, “tá bom, Pedro, tá bom!”. Passeamos pelo jardim do hospital, ela me pediu para não me preocupar tanto com as coisas, disse que tudo ia se ajeitar, que eu logo conseguiria um empreguinho melhor. Eu disse pra ela que ela também ia melhorar, que logo a gente ia no cinema juntos de novo. Ela não parecia nada brava ou sem esperanças naquele dia, estávamos bem, apesar de tudo.

Ô, vózinha...

A Vó Olinda e minha mãe ficaram mais próximas, se ouviram, se explicaram e se entenderam, só o que havia entre elas era amor e admiração, já não estavam mais com medo. Seu laço se fortaleceu pela gratidão de estarem juntas, seu amor cresceu porque entenderam o presente que era poder viver o presente.

A Vó Olinda e meu tio Sérgio continuaram fazendo brincadeiras um com o outro, piadas o tempo todo, deixando qualquer ambiente mais leve. Só eles estavam no quarto quando contei a ela que publicaria meu primeiro livro e, na minha emoção por causa do sorriso orgulhoso dela, encontrei força na mão de meu tio, que me apertava o ombro com força e felicidade.

A Vó Olinda e meu tio Nê conversaram muito, se havia alguma coisa que não estava clara em sua história, foi explicada. Meu tio Nê, sempre forte, sempre humorado, sempre cheio de bordões, foi o primeiro a me agradecer pela minha insistência de ir ao hospital visitá-la. Naquele momento, vi em seus olhos o mesmo carinho por mim que o levava a dirigir até a esquina do aeroporto de Congonhas, na minha infância, colocar eu meus primos no teto de sua Caravan e gritar quando os aviões passavam pertinho de nós.

A Vó Olinda e meu tio Wá, seu primeiro filho, estiveram juntos 24 horas por dia, desde que ela voltou do hospital. Eu estava fazendo diversas entrevistas de emprego na zona sul naquela época, então almoçava com eles umas três vezes por semana. O tio Wá estava sempre com muita disposição e encontrava assuntos alegres para conversarmos, mas a Vó nem sempre queria falar. Ele viu ela ter muitas crises de choro e raiva, mas não desistiu. Fez o que aprendeu com ela, seguiu em frente com a missão que se dispôs a cumprir. Enquanto me levava nas entrevistas, ele me explicava o que o médico tinha explicado a ele nas últimas consultas. Seu abraço era mais forte, mais apertado, quase que agradecido. Eu não entendia na época. Acho que, como todos os outros netos dela, não imaginei que tínhamos poucos dias. O tio Wá sabia, mas não fraquejou.

Não foi de súbito, todos tivemos tempo para nos preparar. Mas, me diz, como é que você se prepara para perder alguém que ama? A Vó Olinda era festeira, chamava a atenção por sua alegria nas datas comemorativas, era explosiva e falava palavrões, lembrava do aniversário de todos os filhos e netos, assistia filmes de ação, voltava a ser uma adolescente quando ouvia músicas do Michael Jackson, cobrava presença porque não queria desperdiçar chances de demonstrar seu amor por nós, nos xingava se fazíamos alguma coisa errada, mas pedia desculpas se percebia que foi dura demais, omitia parte de sua história difícil e sofrida, celebrava seu presente viajando sempre que possível, gostava de batata frita e pizza de calabresa, amava celebrar o Natal com a casa cheia, me ensinou a apreciar as músicas do Queen, ensinava lições sobre o valor da vida, da saúde e reforçava que tudo o que dizemos e fazemos afeta quem conta com o nosso amor. Preparo nenhum seria o suficiente para deixar de dizer aos domingos: “Hoje vou almoçar lá na Vó Olinda”.

Mas aqui estamos, aprendendo a cada dia, sorrindo sempre que possível, dando felicidades uns aos outros em festas, encontros, reuniões e imagens engraçadas no whatsapp. Nos lembramos dela com frequência e a dor já não nos confunde, se tornou saudade e a certeza de que as próximas gerações vão saber quem foi a Dona Olinda. Hoje sabemos do privilégio que foi conhecer e ser amado por essa senhora que falava ardido e doce ao mesmo tempo.

Vó, não se preocupa, tá? Estamos bem e ainda aumentamos o volume toda vez que começa a tocar Thriller.

Com amor,

Waldyr, Eloiso, Bete, Sérgio, Danielle, Rafael, Stéphanie, Gabriel, Vinícius, Pedro, Lucas, Marina, Gabriela e Muriel.


version 1/s/recortes// //Tico Menezes