Tico Menezes

As Ruas Protegidas por Cocão Avoz e Luke Cage

As ruas estão protegidas por heróis versados na arte do viver.


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Onde está a segurança das ruas?, pergunta o cria do centro que foi assaltado após voltar embriagado de uma balada. As ruas não são seguras?, pergunta o loirim de cabelo penteadim quando sai do uber e entra no seu condomínio fechado. Cês são doidos de andar na rua numa época em que é tão fácil comprar um carro, só não tem quem não quer se esforçar, diz o pobre de direita que acredita que funk é música de vagabundo e que os militares deveriam voltar ao poder. É essas coisas de funk e rap de bandido que tá destruindo nossa cidade, a televisão fazendo um monte de programa com neguinho protagonista, no meu tempo é que tinha herói de verdade, segurança de verdade, diz o velho intolerante que faz comentários racistas e misóginos em posts na internet.

Pra Não Dizer que Não Falei das Ruas, diz Cocão Avoz saindo de um canto pouco iluminado e chegando na conversa com a voz suave, em cada beco eu me acho, qualquer favela eu me encaixo, as leis que ditam lá em cima somam as ruas de baixo, [..] bem melhor que antes, eu sobrevivo pelo plante, sou semelhante. Espelho meu, mesmo semblante, terras e hectares, sonho negro de milhares. É a vez, é a voz, só assim somos pares. O rapper, soturno e sorridente encara o grupo que não entende o porquê dele estar ali onde, segundo eles, não é seu lugar. O silêncio reina.

Como assim? Não entendi! Ele tá falando que morar na favela é que é bom? É favelado, tá louco de tudo esse aí. Só podia ser mais um neguim de quebrada querendo pagar de poeta, vai ler Olavo pra ver se aprende seu lugar, ô esquerdista!, diz o coro que se inflama ao se ver contrariado e incapaz de compreender as palavras que iam contra suas opiniões. Mas eles não entenderiam a não ser que estivessem dispostos a reconhecer seus privilégios e visitar os lugares onde moram os garis, as tias da limpeza, os cobradores e motoristas de ônibus, os futuros artilheiros de seus times e rappers que eles vão ouvir no futuro só para dizer na rodinha de conversa que manjam da vida na periferia. Eles não podem entender nada além da bolha em que vivem, não nesse momento. Mas Cocão Avoz é um herói paciente, que seguirá escrevendo e rimando para representar sua realidade e confortar tantos outros corações que sabem das dores e felicidades de viver no Capão Redondo e outras quebradas onde ninguém tá afim de jogar luz.

Assim como Luke Cage, herói negro à prova de balas que protege o Harlem de más influências e exploradores do esforço e da boa vontade de seus moradores, os versos de Cocão vencem pela simplicidade de sua abordagem, são impenetráveis porque ganham força com os anos de autoanálise e treino nos quais se construíram e salvam crianças e adolescentes de seguir um caminho obscuro e perigoso apenas por mostrar um exemplo num lugar comum. E essa proteção que as histórias de Luke Cage e os versos de Cocão dão à molecada da periferia é parte do que os ensinará a respeitar e ter orgulho pelos empregos honestos de seus pais e os levará a sonhar além, sendo o início da construção do caminho que os tornarão advogados, médicos, professores, empresários e artistas.

Sem firula, sem caô, sem querer aparentar o que não é, Luke Cage abre o peito para que seus inimigos tentem derrubá-lo, mas quando cai, se levanta ainda mais convicto de sua força. Sem querer agradar acadêmicos, muito menos passar a mão na cabeça de gente cheia de ódio que tá pronta pra encontrar um defeito, Cocão rima e versa com a linguagem das ruas, enaltecendo quem lhe motiva a seguir batalhando. Antes deles, vieram outros heróis, outros ensinamentos, outras porradas e outros versos, tudo culminando num sentimento de inspiração que é passado pra frente a cada um que vê Luke Cage derrubando mais um racista criminoso, a cada dois que ouvem mais uma track ou leem mais uma página do livro Pra Não Dizer que Não Falei das Ruas.

Estamos protegidos, mas precisamos aprender a nos proteger. Nossos heróis andam conosco, mas querem mesmo é que nos tornemos heróis. No país onde cerca de 23.100 jovens negros são assassinados por ano, cada palavra é um ato de resistência, cada passo rumo ao trabalho é motivo de orgulho, cada letra de rap que viraliza é um hit memorável, cada Sarau é um evento histórico, cada casamento da quebrada é muito mais real que a realeza européia, cada baile funk é um grito pela sobrevivência da cultura, cada criança que passa de ano é um prodígio, cada dia é um dia mais próximo do sucesso dos próximos heróis da rua.

E você, por quais ruas tem andado?


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