Tico Menezes

Coringa, Capitão América e a Banalização da Morte

Quantas mortes são aceitáveis no seu plano?


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Com quais personagens do mundo dos quadrinhos nos parecemos? De qual sociedade retratada nos filmes de heróis e vilões fazemos parte? Quem somos nesse universo de símbolos de esperança e figuras aterrorizantes? Talvez valha a pena tirar um tempo para pensar no nosso papel dentro das histórias que tanto admiramos. Será preciso reavaliar nosso comportamento e nossos discursos? E como um filme de super-heróis ou uma história em quadrinhos pode nos ajudar nisso? Bora aprofundar a ideia falando sobre completos opostos, mas ambos com razão suficiente para refletirmos e tirarmos nossas conclusões.

Em Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), o Coringa se aproxima de Harvey Dent, num leito de hospital, e explica sua Teoria do Caos eloquentemente.

Sabe o que eu notei? Ninguém se apavora quanto tudo corre de acordo com o plano. Mesmo que o plano seja horripilante. Se amanhã eu disse à imprensa que um arruaceiro vai levar um tiro ou que um caminhão com soldados vai explodir, ninguém entra em pânico porque tudo faz parte do plano. Mas quando eu digo que um prefeitinho qualquer vai morrer, aí todo mundo perde a cabeça!

Se você introduz um pouco de anarquia, perturba a ordem vigente, tudo se torna um caos. Eu sou um agente do caos. E sabe qual a chave para o caos? É o medo.

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Frio, porém objetivo, o Coringa não se gaba de sua inteligência, apenas aponta falhas que vê na sociedade e as explora para provar seu ponto de vista. Ponto este que é provado a cada tragédia ignorada e comoção seletiva vistas nas redes sociais e na mídia. Genocídios no continente africano, guerras civis em países sul-americanos, 80 tiros disparados contra o carro de uma família negra que estava indo a um chá de bebê ou uma crise sem precedentes na Síria não têm tanto espaço nos noticiários ou mensagens de solidariedade dos governos quanto algo ocorrido na Europa, nos EUA ou quando algum famoso morre por qualquer que seja a razão. Não vemos hashtags, nem filtros especiais no facebook dedicado a perda de vidas em países pobres. E a dura realidade é que nossa sociedade reage dessa forma porque parte do plano que fomos involuntariamente criados para acreditar é aceitar que em lugares assim, as pessoas morrem e isso é comum.

Tragédia é tragédia, morte é morte, independente de onde ou com quem aconteça. Não se compara a perda de vidas num lugar ou no outro, não se escolhe por quem chorar, tristeza se sente, não se vende. Um atentado terrorista na Europa deveria ser tão chocante quanto um no Oriente Médio. Mas não é, e os roteiristas por trás do Coringa de Heath Ledger sabiam disso. É triste, é difícil de aceitar, ainda mais difícil de admitir, mas real.

Porém, há quem se opõe a esse “plano”. Há quem questiona isso há muito mais tempo do que o Coringa e do que você que lê esse texto. E essa oposição à banalização de vidas – sejam elas pobres ou não – também tem sua representação na cultura pop.

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Com uma frase curta, Steve Rogers – conhecido por alguns como Capitão América – deixou claro em Vingadores – Guerra Infinita que nenhuma vida deve acabar por causa de guerra ou ódio e se acostumar com o contrário é perder parte de sua humanidade. Quando, na iminência da chegada de Thanos na Terra, Visão – um sintozoide! – ofereceu dar sua vida para dar aos Vingadores uma chance de derrotar o vilão, Steve Rogers disse: “Não negociamos vidas, Visão”. Esse pensamento deixa claro que vidas não são apenas coisas que podem ser dadas ou trocadas e ninguém jamais deveria considerar ceder a um sistema que normaliza mortes, independente da razão. É claro que o Capitão América tem uma visão sempre otimista e expõe seus ideais no campo fantástico da ficção ao invés do Coringa de Ledger, que é algo mais fácil de passar como realista. Mas ambos são ideias válidas e com argumentos convincentes, certo? E muito é dito sobre nós quando consideramos a visão do Coringa realista e a do Capitão América utópica.

Novamente, não que tenha sido nossa escolha fazer parte de uma sociedade que banaliza a morte de pobres, desfavorecidos e desconhecidos. Mas, uma vez que nos dispomos a refletir sobre isso e entendemos que escolhemos por nós mesmos, o que nos impede de não mais aceitar que vidas sejam negociadas e mortes sejam normalizadas? O que nos impede de sermos mais Steve Rogers e menos Coringa?


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