Tico Menezes

Irmandade e Projota Ensinam Alteridade

Nós estamos falando cada vez mais alto. Alguém se dispõe a ouvir?


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O Brasil tem a terceira maior população carcerária no mundo. Segundo o Banco de Monitoramento de Prisões do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) são 812.564 pessoas dentro de presídios no país em 2019. Isso é fato, toda e qualquer discussão sobre os porquês de alguém ser preso deve partir desses dados. Nunca foi e nunca será algo simples como "são tudo um bando de vagabundos" e não podemos nos render a máximas desumanas como "bandido bom é bandido morto". A prisão deveria funcionar como um método de reintegração social de indivíduos, mas os números de reincidência são altíssimos. Será que todos os presos escolheram estar ali?

Irmandade é uma série brasileira da Netflix que se propõe a aprofundar o espectador no debate sobre a população carcerária do Brasil. Na trama, seguimos os passos de uma advogada chamada Cristina, que se vê encurralada numa situação em que precisa retomar o contato com seu irmão Edson, chefe de uma facção criminosa comandada de dentro de um presídio - e com quem ela não falava há 20 anos. Conhecemos parte da rotina da vida dos presidiários e as questões que levam Edson a criar a facção que dá nome à série. Vemos também como funciona alguns sistemas de corrupção de policiais, membros do Ministério Público e agentes penitenciários, mas a série nunca cai no erro de generalizar ou limitar personagens a estereótipos de bom ou mau. Todos os personagens são, antes de tudo, pessoas com motivações e sentimentos.

Sob a premissa de combater as injustiças do sistema carcerário, a Irmandade se fortalece com membros dentro e fora do presídio, mas cumpre sua missão de forma criminosa, recrutando e sendo liderado por pessoas instáveis, o que cria situações imprevisíveis para todos os envolvidos. E no centro de tudo, temos Cristina, a personagem que serve como o espelho do espectador e, a cada ação, faz com que a gente se pergunte: O que eu faria no lugar dela?

Entra aí o conceito de alteridade. Como indivíduos em sociedade, parte do nosso comportamento é moldado pelas interações que tivemos com outras pessoas. Nossos aprendizados e opiniões vêm dum contexto social que limita nossa capacidade de compreensão de outras realidades, ao menos quando ainda estamos aprendendo quem somos. Por isso é tão fácil tipificar pessoas diferentes de nós, enquadrá-las em grupos dos quais pouco sabemos, mas porque não queremos nos dar o trabalho de tentarmos enxergar o mundo por olhos que não os nossos. Alteridade é a compreensão da influência e das possibilidades de um contexto num indivíduo.

Na música "Portão do Céu" o rapper Projota apresenta uma realidade desconhecida por muitos com questionamentos pertinentes para quem se dispõe a tentar entender os porquês da superpopulação carcerária.

"IPTU, IPVA. E pra eu comer? E pra eu pagar?

E pra eu explicar pro moleque que o tênis é caro e ele não pode comprar?

E pra eu explicar pro moleque que a droga acalma, mas ele não deve usar?

E pra eu explicar pro juiz que a única coisa que o moleque aprendeu foi roubar?

Essa é minha missão, vim te passar a visão."

Agora imagine você, sem a certeza de um prato de comida na mesa todos os dias, bombardeado por programas de televisão que te dizem que o que é bonito é a pessoa branca dos olhos claros, que o que é legal é ter os tênis da Nike e roupas de marca, que aquela pessoa que se parece com você nasceu para ser empregado e nunca chefe, e o maior exemplo de sucesso - lê-se condições financeiras para comprar o que quer - que você tem por perto é o rapaz que entrou para o tráfico ou para outros crimes. Responda honestamente: Você conseguiria não se deixar ser influenciado por tudo isso?

A verdade é que você não tem como responder essa pergunta. Porque você não viveu essa realidade e o máximo que você pode fazer é tentar se colocar no lugar para somente tentar compreender. Daí surge a necessidade de intervenção cultural. Falando uma língua que o rico e o pobre podem entender, séries como Irmandade e artistas como Projota ensinam alteridade e empatia, contribuem para afastar pensamentos generalistas e ajudam qualquer um que tenha contato com essa mídia a exercitar sua capacidade de compreensão do desconhecido.

Uma vez terminada a série, conhecendo melhor o trabalho do Projota, do Emicida, dos Racionais, do Jigaboo, da Dina Di, do Inquérito, do Facção Central, do Cocão Avoz e de outros artistas que tem como motivação ensinar o público sobre a realidade periférica, você ainda acha que dá pra responder de forma simples e direta o porquê do Brasil ter a terceira maior população carcerária no mundo?


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