Tico Menezes

Nunca Estamos Prontos para a História de um Casamento

Só o que dá pra fazer é se aperfeiçoar em ser você. De resto, nunca estaremos prontos.


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Quando é que estamos verdadeiramente prontos para alguma coisa?

Podemos nos preparar, estudar, nos capacitar e nos dispor a fazer o que for, mas nunca dizer com certeza que estamos prontos. A teoria nos leva somente até um ponto, mas é a prática que determina nosso sucesso. E se a prática envolver outras pessoas, aí é que não podemos dar certeza mesmo. "Viver é um rasgar-se e remendar-se", diz Guimarães Rosa, provavelmente cheio de tentativas, falhas, quebras de expectativa, decepções e críticas. Mas não se vive sem tentar, não se alcança sem se esticar, não se é sem se questionar.

O verborrágico diretor e roteirista Noah Baumbach é conhecido por expor sua sensibilidade e questionamentos sobre a existência e as relações interpessoais em seus filmes. Monólogos ora óbvios, ora enigmáticos constroem seus personagens sempre bem delineados por características humanas, finais com reticências que reforçam para o espectador que não importa que rumo a história siga, a vida sempre continua.

História de um Casamento é seu trabalho mais recente e traz a história do divórcio entre o diretor de teatro Charlie e a atriz Nicole. Ela, por se sentir silenciada, solitária, pouco apreciada e presa a um relacionamento que não a permite evoluir pessoal e profissionalmente, pede o divórcio. Ele, por estar acomodado nessa relação que não interfere no seu trabalho, se surpreende com o pedido da esposa. Eles têm um filho de 8 anos. Ele é amado pela família dela. Ela recebeu a proposta de estrelar uma série televisiva. Ele riu ao ler o primeiro episódio da série, mas disse que ela deveria aceitar para ajudar a financiar sua companhia de teatro. Ela não se lembra do que é ser bem-sucedida em algo além de ser uma boa esposa e mãe. Ele não é insensível, mas não fala sobre seus sentimentos. Ela quer outra vida. Eles não se entendem mais.

Ao longo do filme, acompanhamos todo o processo do divórcio, a briga judicial pela guarda do filho, as ofensas trocadas por seus advogados, as falhas de comunicação entre os dois, a confusão e a sinceridade da criança que se vê no meio das idas e vindas dos pais, mas o que mais dói - seja nos personagens ou no espectador - é perceber que nenhum dos dois deixa de reconhecer o que há de melhor no outro.

Há uma cena, lá pela metade final do filme, em que ambos decidem conversar sem advogados e se entender. Charlie, aos prantos e completamente confuso em sua raiva por não ter conseguido fazer seu relacionamento dar certo, diz coisas horríveis à esposa, como uma criança que tenta ofender os pais porque não consegue expressar e compreender seus sentimentos sobre si mesmo. Já Nicole, munida de argumentos mais sensatos, não consegue explicá-los para o marido porque ainda não se sente plenamente livre para falar perto dele, pois sabe que ele terá uma resposta pronta - mesmo que infantil e fraca - para o que for dito. O impacto emocional dessa sequência é tão imenso que é capaz de ativar medos, lembranças e arrependimentos de qualquer pessoa que já tenha tido um relacionamento que chegou ao fim. E prova o ponto do filme: Nunca estamos prontos e não importa se sabemos disso ou não, sofremos e temos dificuldade de aceitar o fim das coisas.

A convivência traz conflitos, mas conflitos são parte da experiência de dividir a vida com alguém. Para apreciar as discordâncias precisamos ter, um dia, odiado discordar. Para ser ouvido, precisamos aprender a ouvir. Para nos fazermos entender, precisamos estar dispostos a entender o outro. Para acertar, precisamos aprender a errar. E o aprendizado, muitas vezes, vem através da dor.

Nunca estamos prontos, mas sempre estamos aprendendo. Nunca seremos do jeito que querem, mas sempre estamos nos aperfeiçoando em ser quem somos. Nunca seremos perfeitos, mas nossas falhas têm um propósito. Nossas histórias - sejam do casamento, do namoro, da auto-descoberta - começam, terminam e abrem espaço para que outras histórias aconteçam. Os erros, os prazeres, as expectativas, as dores, as reticências e o aprendizado são parte de estar vivo. Porque, mesmo com tudo que pode dar errado, as histórias só acontecem por essa razão. Estamos vivos. Estamos vivos. Puts, como é bom estar vivo e poder aprender. Charlie aprendeu isso. Nicole também. Eu também. E você?


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