Tico Menezes

Toy Story e a Importância de Saber se Despedir

É preciso saber compreender a despedida, é preciso saber seguir em frente.


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Tudo passa, até o além do infinito.

Seja um amor de adolescência que termina evoluindo para uma amizade, seja a morte de um ente querido e nossas dúvidas sobre o que há após a vida ou a mudança de um grande amigo para um novo e distante lugar. A tristeza é um sentimento quase intrínseco à despedida. Há despedidas que aliviam, é claro, mas vamos nos ater às realmente difíceis.

Crianças choram quando vão embora da casa dos avós que tanto amam, adultos sentem raiva quando o fim de semana está chegando ao fim, alguns de nós ficamos melancólicos por meses após o fim de um relacionamento, outros afogam suas mágoas em prazeres rápidos como a bebida ou dormir com pessoas desconhecidas só para não ficarem sozinhos. São comportamentos naturais e, por isso, previsíveis. O que não é nossa culpa, oras. Quem é que treina para um momento como a despedida? Como se escolhe o que vamos sentir ao fim de algo? Não, somos emotivos e sentimos muito, sentimos tudo.

Mas emoções, assim como seres humanos, amadurecem. Aos poucos vamos perdendo coisas às quais estivemos acostumados no decorrer dos dias. Um brinquedo, um professor transferido para outra escola, uma roupa, fios de cabelo, um avô. Assim, vamos sendo forçados a reconhecer que - peço licença à Tony Stark para parafraseá-lo - parte da jornada é o fim. Mas também, que - agora referencio Vovó Juju, de Irmão do Jorel - o que importa não é o destino, bem, mas a estrada.

O ano de 2019 trouxe uma despedida emocionante e agridoce para as crianças dos anos 90. Toy Story 4 é um filme sobre reconhecer a necessidade de buscar o que é melhor para si, mesmo que isso signifique sair da sua zona de conforto. Ao fim do longa, o xerife Woody entende que já não é mais o protagonista - aliás, não é nem mais coadjuvante - das brincadeiras de sua dona, Bonnie, e vê a possibilidade de uma nova aventura em sua vida ao lado de uma antiga amiga, Betty, que já vive distante de brinquedos com donos há anos.

O grande gesto de maturidade, porém, vem dos brinquedos outrora liderados por Woody. Buzz Lightyear, Jesse, Bala no Alvo, Rex, Slinky, Cabeça de Batata e toda a turma que aprendemos a amar – e nunca imaginá-los separados – levam algum tempo, mas entendem que seu amigo de longa data precisa ser feliz e isso não acontecerá se ele permanecer no grupo. O abraço de despedida entre Woody e Buzz é um tiro de maturidade no coração de quem cresceu assistindo esses personagens reforçando seu laço. E significa o ápice da compreensão da palavra amizade.

Num interessante artigo sobre aprender a lidar com perdas, o autor Thomas M. Gallagher escreve que "se despedir de alguém querido significa dar a todos uma chance de seguir em frente". É uma frase de fácil compreensão, mas difícil aplicação.

Novamente, não há treino para se despedir ou um manual para lidar com despedidas, mas se houver disposição para amadurecer a ideia de que tudo passa e não necessariamente acaba, talvez o caminho para descobrir o que é o infinito e o além fique um pouco mais claro.


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