Tico Menezes

Capitã Marvel e o Direito à Vida

Se dispor a estar errado é parte essencial da empatia.


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AVISO: Esse texto contém SPOILERS de Capitã Marvel (2019). E pode incomodar quem não se dispõe a ouvir ideias diferentes.

Parte do que nos faz amadurecer como sociedade é o exercício da discussão. Não aquela feita aos gritos, com ameaças e frases pensadas para dar o assunto por encerrado, mas aquela em que pensamos bem antes de falar, em que nos dispomos a reconhecer que talvez não tenhamos pleno conhecimento do que estamos dizendo, em que refletimos sobre o que o outro lado falou, em que aprendemos. Afinal, não se discute com quem está cheio de certezas, certo?

No início de Capitã Marvel, conhecemos Vers, uma guerreira kree, parte de uma equipe militar que patrulha o território de sua raça e busca impedir que invasores skrulls se infiltrem em sua sociedade. Quando “acordou” sem memórias após um acidente, ela foi ensinada que os kree são uma raça soberana de heróis nobres com boas intenções para com o universo, foi treinada, incluída naquele contexto, fez amizades, determinou metas para sua vida e defendeu os ideais que tinha como certos. Kree heróis bons, Skrulls invasores maus. Simples assim.

Até que, após uma missão que deu errado, Vers cai no planeta Terra e é seguida por skrulls, aprende sobre seu passado, descobre a origem de seus poderes e se vê tendo que permitir um de seus inimigos contar sua história e suas motivações para estar ali. O skrull é Talos, líder idealista de sua raça que viu o governo kree se apossar de diversos planetas, expulsar sociedades de sua terra natal e doutrinar gerações com a ideia de que são os donos de todo aquele território e qualquer outra raça que pisar ali é indigna e invasora. Juntando a história de Talos com suas descobertas sobre seu passado, Vers entende que mentiram para ela durante seu tempo com os kree, usaram-na como arma e impuseram uma ideologia para que ela seguisse sem questionar. Vers assume seu nome original, Carol Danvers, e toma como missão de sua vida encontrar um lugar onde os skrull sobreviventes possam viver em paz, não como refugiados tementes ao próprio lar, como seres vivos que merecem a vida.

O que Carol Danvers fez foi simples, ela teve empatia e humildade. Sem apegos, sem ódio, sem gritos, apenas e simplesmente disposição de ouvir o outro lado e questionar o que ela sempre acreditou.

Capitã Marvel é um filme que questiona o poder vigente, seja o regime que for. Como espectadores, somos convidados a ouvir o lado que é chamado de errado, de feio, de vitimista, de invasor. E o que não nos falta são exemplos dessa situação no mundo real. Palestinos, curdos, negros, asiáticos, gordos, LGBTQs, pobres, dentre várias outras minorias discriminadas e oprimidas por um sistema que sempre as tratou como indignos dos mesmos direitos por não se enquadrarem no ideal determinado por quem está no poder. Fica claro como o conflito por discriminação é algo raso, provocado única e exclusivamente por medo, seja ele medo de perder os privilégios, medo de culturas desconhecidas, de se identificar com algo diferente, de ter que admitir que está errado. Não somos feitos de acertos, mas precisamos aprender com os erros. E guerra sempre será um erro, pois não há honra em tirar vidas por discordância, não há patriotismo que justifique diminuir outro indivíduo, não há discriminação positiva. Parafraseando o próprio filme: “A única ação honrada numa guerra é tentar acabar com ela”.

Se até a Capitã Marvel admitiu que poderia estar errada e decidiu ter humildade para aprender e tentar ser melhor, por que resistimos? Podemos todos ser heróis. Não por força, poder, uniforme ou pelo nosso país, mas pela valorização da vida humana, do reconhecimento de que sempre há mais para aprender e nunca é tarde para corrigirmos nossos atos.


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