Tico Menezes

Cidades de Papel, Moby Dick e Os Perigos do Endeusamento

Você saberia o que fazer quando alcançasse o inalcançável?


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Quando eu era mais jovem e gostava muito de uma obra – livro, filme ou série –, eu ficava obcecado. Mas obcecado mesmo, tipo, eu só queria assistir aquilo repetidamente, saber cada detalhe do processo de criação, os diálogos e até a paleta de cores usada em determinadas cenas e o que elas queriam dizer. Tudo só para mostrar que eu sabia o que outros não sabiam, eu via além, eu precisava mostrar que aquilo tinha mudado a minha vida. Chegava ao ponto de acompanhar a vida pessoal dos envolvidos e já classificar seus outros trabalhos como obras-primas antes mesmo de assisti-las, afinal, se eles fizeram algo tão à prova de falhas segundo meus padrões, como é que poderiam errar?

O tempo passou e, bem, eu amadureci. Minhas obsessões ficaram para trás e eu aprendi uma lição muito valiosa: Todo mundo, absolutamente todo o mundo erra. Somos imperfeitos, nunca saberemos nem um terço do que há para saber no universo, falhamos pelos mais diversos motivos, dizemos bobagens por causa de emoções, dizemos coisas horríveis por ignorância e preconceito, nos esforçamos para passar uma imagem distante da nossa realidade e poucos, pouquíssimos de nós realmente aprende com o erro. A maioria das pessoas tem medo de admitir que é imperfeita – o instagram tá aí pra isso – e esse comportamento faz com que busquemos exemplos de perfeição que saciem nossa necessidade de adorar algo, assim como faz com que procuremos alguém para inferiorizar e ridicularizar por não ser parte do mundinho sem falhas que construímos na nossa cabeça ignorante.

Em 1851, o autor norte-americano Herman Melville conseguiu condensar esse pensamento sobre o endeusamento de algo ou alguém em seu romance mais famoso, Moby Dick. O livro traz a história de um professor rural chamado Ismael, que decide fazer algo diferente para fugir de sua rotina e a melancolia que vinha tomando conta de seus dias. Para isso, ele decide trabalhar como marinheiro num navio baleeiro, para conhecer as águas do mundo e as gigantes e fascinantes baleias. O grande problema da história está no capitão do navio em que Ismael trabalha, um homem chamado Ahab. O Capitão Ahab revela que só tem um objetivo com aquela expedição: Caçar Moby Dick, a cachalote branca que arrancou sua perna num naufrágio. O homem tinha um barco e uma tripulação à disposição e uma boa reputação entre seus companheiros, mas nada disso importava, somente a obsessão e o ódio que a alimentava. O final é o esperado, Ahab é morto junto com sua tripulação – menos o protagonista – num combate violento com a baleia. A grande sacada do autor foi a crítica ferrenha à ambição e à falta de propósito do homem que busca algo para engrandecer e se dedicar sem perceber que, assim, se torna cada vez mais vazio e alheio à vida. Talvez por isso o romance tenha sido mal recebido pela crítica e pelo público de início, só tendo feito sucesso e elevada a clássico muitos anos após seu lançamento.

Agora vamos avançar no tempo para 2008. Um escritor e vlogger também norte-americano chamado John Green publicou o livro Cidades de Papel, que teve também uma adaptação para os cinemas em 2015. Na trama, Quentin é um garoto que está no colegial e tem uma paixão secreta pela vizinha e amiga de infância, Margo. Margo e Quentin são diferentes. Ela é popular, ele é nerd. Ela tem vários amigos respeitados e admirados na escola, ele e seus amigos sofrem bullying e cantam o tema de Pokémon em voz alta quando sentem medo, são estereótipos opostos. Mas para Quentin, Margo é perfeita.

Até que, numa noite, Margo invade o quarto de Quentin, pede sua ajuda para pôr em prática um plano contra todos os malfeitores adolescentes que a machucaram em seu tempo na escola. Um ex-namorado que a traiu, uma amiga que mentiu pra ela, dentre outros. Após essa noite, Margo desaparece, o que deixa sua família e toda a vizinhança preocupada. Mas Quentin descobre que ela deixou pistas em forma de enigmas para ser encontrada. Junto com seus amigos Ben e Radar, ele começa a ir atrás dessas pistas e – adivinha? – se torna obcecado em encontrar Margo, acreditando que esse encontro dará sentido a sua vida e trará todas as respostas que ele acha que precisa. Você acreditaria se eu dissesse que não é isso que acontece? E que o final do livro foi considerado anticlimático pelo público porque não mostrava Margo como a mulher sábia, decidida e maravilhosa que Quentin acreditava que ela era?

Pois é, como em Moby Dick, a sacada de Cidades de Papel é criticar o endeusamento das coisas, contar ao leitor um pequeno e valioso segredo sobre a vida: Nada nem ninguém será do jeito que você idealiza, as coisas precisam ser aceitas e compreendidas pelo que são ao invés do que você gostaria que fossem. E, novamente, entender isso requer coragem para reaprender coisas que você pensou que já sabia.

Enfim, leia Moby Dick, leia Cidades de Papel, questione suas crenças, desafie o que você acha que conhece, se permita aceitar que você nunca saberá mais do que o quanto tem para aprender.


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