Tico Menezes

Cinquenta Tons de She-Ra

Pelos poderes de Quem Sou!


SheRa.jpg

Se você não é azul, você é vermelho! Se você não é roqueiro, você é pagodeiro! Se você não gosta de Carnaval, você odeia o Brasil! Se você não é de direita, só pode ser de esquerda! Se você não está comigo, então está contra mim!

Isso de presumir que “se algo não é de um jeito então só pode ser o oposto” é chamado de maniqueísmo. O mundo não se divide em poderes e opiniões opostas e basta olhar para fora da janela de casa para percebermos isso. O arco-íris, a miscigenação, a distribuição de renda injusta do país, a diversidade étnica e sexual, a tabela do Campeonato Brasileiro, as eleições – pois é, até elas! – e tudo que envolve a vida fora de um ambiente controlado por você tem camadas. Não é uma questão de conservadorismo ou liberalismo, é realidade. As pessoas são diferentes e assim são as coisas. O que podemos fazer? A nova versão de She-Ra que ganha sua última temporada em 2020, na Netflix, pode nos apontar a resposta.

Adora é uma das melhores cadetes da escola militar da Horda – organização que busca governar o planeta Etheria – e segue em seu caminho para conquistar posições de respeito e cumprir seu trabalho: Levar ordem e justiça ao planeta. Para isso, ela precisa derrotar os guerreiros da Resistência. Criada desde menina para combater quem se opusesse à Horda, Adora nunca questionou seu trabalho. Junto dela está Felina, a segunda melhor cadete dessa geração. Juntas, são vistas por seu líder, Hordak, como a certeza da soberania da Horda.

Até que, história vai, história vem, Adora se vê sozinha numa floresta após “se perder” numa missão e encontra uma espada mágica. Ao tocá-la, se transforma na princesa She-Ra – uma entidade antiquíssima e poderosa – e é encontrada por Arqueiro e Princesa Cintilante, guerreiros da Resistência. Eles mostram a Adora, confiando em sua dignidade por portar o poder da She-Ra, que a Horda impôs um regime opressor e ditatorial aos povos de Etheria. Adora percebe que nada é como ela imaginava. Ela sabe que existem pessoas boas no exército da Horda, mas também sabe que a Resistência busca a liberdade dos povos do planeta, logo, também são bons. Mas todos são tão diferentes, tudo é tão mais colorido e cheio de nuances do que o mundo ao qual ela estava acostumada. Existem pessoas endurecidas por uma vida de luta, mas que seguem firmes em seu objetivo, outros soam até ingênuos de tão esperançosos que são. Ao descobrir que o mundo não se divide entre Horda e Resistência, por que Adora deveria escolher ao invés de compreender?

Episódio após episódio, vamos conhecendo mais desse mundo, de seus habitantes, da história da Horda, dos primórdios da Resistência, outros líderes, diversas opiniões sobre os rumos que Etheria deveria seguir. E não sobra espaço para o pensamento maniqueísta do primeiro episódio.

Vivemos tempos difíceis no mundo inteiro. O extremismo político e religioso vem resultando em tragédias e crimes aterrorizantes, as mesas de bar e as festas em família estão polarizadas, não há meio-termo, muito menos disposição em ouvir o outro lado. Pois sejamos os detentores do poder de She-Ra. Sejamos quem usará palavras para combater violência, quem usará gentileza contra o ódio, quem abrirá os olhos dos que estão do lado de lá para o lado de cá e vice-versa. O universo é composto da mais diversa sorte de matérias, cores, culturas, histórias e perspectivas. É sério que, em pleno século XXI vamos voltar aos tempos bárbaros de guerras porque não conseguimos conversar?

Vamos conhecer nossa Etheria, ela precisa de nós. E nós dela. Assistam She-Ra e As Princesas do Poder.


version 1/s/cinema// //Tico Menezes