Tico Menezes

Eu, Violet Evergarden e a Vida que Queremos Viver

O seu ambiente favorece a sua vontade de viver?


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Não sou um grande conhecedor de obras japonesas. Inclusive, me acho bastante ignorante sobre elas, visto que tantas influenciam a cultura pop ocidental e tantas obras que tenho como favoritas. Mas tenho minhas memórias felizes de manhãs assistindo Dragon Ball e fins de tarde com Cavaleiros do Zodíaco e Super Campeões. Na adolescência, meu amigo Antônio me emprestou um bolo de mangás de Naruto e me passou uma porrada de músicas de abertura de animes que ele gostava. Querendo fazer parte daquilo que ele parecia gostar tanto, tentei aprender e até consegui, mas não soube como manter, talvez eu não estivesse tão interessado ou ainda precisasse amadurecer um pouco mais para ser aberto a narrativas diferentes do que eu considerava convencional.

Enfim, eu cresci e o Antônio cresceu. Hoje ele assiste Game of Thrones com a mesma empolgação que assiste Boruto e eu já assisti Ghost in the Shell, Akira, alguns filmes do Hayao Miyazaki e tô esperando o dia certo para desidratar de chorar com O Túmulo dos Vagalumes.

E então, na correria da vida dessa época em que Netflix me acompanha a caminho do trabalho, recebo uma mensagem da minha namorada dizendo que está encantada com a sensibilidade e a intensidade de um anime que ela descobriu na noite passada enquanto eu roncava. Assim fui apresentado a Violet Evergarden. E depois da experiência que tive, me sinto na obrigação de passar essa obra pra frente falando sobre TODOS os pontos abordados pelo anime, ao menos os que eu pude entender, e tudo o que aprendi assistindo.

O anime é uma adaptação de uma light novel japonesa e se passa num país fictício que muito se assemelha a Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial. Esse país também acaba de “vencer” uma guerra e agora começa a lidar com a reestruturação social, financeira e geográfica, uma vez que seu território aumentou. Violet Evergarden é uma garota que foi criada para a guerra, uma arma viva e letal que perdeu seus dois braços e seu mestre na batalha final. Reinserida na sociedade com braços mecânicos cobertos por mangas longas, ela ganha um emprego numa companhia de correios por causa de uma promessa feita a seu mestre. No novo emprego, Violet é apresentada ao ofício de uma Autômata de Automemórias, que consiste basicamente em interpretar o sentimento dos clientes – que não escrevem ou não conseguem colocar em palavras o que sentem – e escrevê-los em cartas. E é assim, em contato direto com a complexidade dos sentimentos alheios e o constante aprendizado sobre uma sociedade pacífica, longe da violência dos frontes de batalha, forçada a fazer o oposto do que fazia na guerra, reconhecendo em si emoções, aprendendo a lidar com seu passado conturbado e com o objetivo inicial de entender o significado de “eu te amo”, Violet recomeça sua vida.

À primeira vista, o anime tem um ritmo lento, passa tempo demais focando em paisagens – belíssimas, diga-se de passagem – e diálogos curtos. Mas conforme vamos conhecendo Violet e suas peculiaridades, entendemos que tudo ali é uma metáfora para como essa jovem mulher está, pela primeira vez na vida, aprendendo a importância de entender o privilégio de poder simplesmente ser – ou descobrir – quem você é num lugar onde ninguém tentará te reprimir por isso.

A violência da guerra e como algumas pessoas são criadas para acreditar que uma cultura precisa destruir as outras para se legitimar, a visão desumana que o cidadão comum têm de órfãos, moradores de rua e pobres por não considerá-los parte da sociedade devido suas deficiências e propensão para viver à margem ou morrer por uma razão banal, o orgulho arrogante e autodestrutivo de quem um dia teve uma posição respeitada e hoje precisa reaprender a viver num lugar mais humilde, a luta para ensinar aos homens sobre igualdade de gêneros e respeito e a importância de se aprender com os erros do passado para cuidar da educação do presente são temas recorrentes nos 13 episódios de 24 minutos da série. Intensos, propondo reflexões e comparações com os problemas atuais do mundo real, essa obra precisa ser assistida de coração aberto, livre de preconceitos ou desejos de que um ou outro tema fosse tratado de forma diferente. Nada está ali por acaso.

É inevitável não tentar identificar as influências de acontecimentos reais nas situações da série. Os horrores do nazismo, o extremismo político, a polaridade da opinião pública e a recuperação da nação japonesa após as bombas em Hiroshima e Nagazaki são as comparações mais óbvias, mas que os autores souberam tratar com a sensibilidade necessária.

Apesar disso, o foco aqui é a reflexão sobre o que é viver. A pergunta feita silenciosamente no rolar dos créditos é somente uma: Você precisa de ordens para viver?

Mas é inevitável não se perguntar sobre as convenções sociais às quais nos adaptamos sem nem mesmo perceber. Se formar na escola, trabalhar, se formar na faculdade, trabalhar, postar fotos nas redes sociais, assistir e ler o que está em evidência sem questionar o propósito, excluir e incluir pessoas em nossas vidas sem o exercício da discussão e da alteridade, tudo para termos uma aposentadoria planejada para durar poucos anos e, enfim, morrer sem dívidas financeiras, mas repleto de porquês emocionais. Seguimos ordens que não sabemos quem deu porque pensar por si mesmo leva a conclusão de que idealistas não têm o mesmo tanto de seguidores do que aqueles que fazem o que afasta a mente de reflexões. E estar sozinho é doloroso, assim como reconhecer seus próprios defeitos e preconceitos. O sistema será cruel com quem não obedecê-lo, por isso é tão forte. Mas Violet não quer mais saber do sistema, nem de ordens. Ela quer viver.

E você?


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