Tico Menezes

Interromper Não é Recomeçar, Flash

Aprendendo entropia com o multiverso DC.


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O conceito de entropia é, na minha opinião, um dos mais fascinantes do estudo da Química e/ou Matemática. Obviamente que por motivos poéticos, afinal, o uso de metáforas do cotidiano para explicar entropia é uma das mais didáticas maneiras de se fazer entender. Uma embalagem de pasta de dente cheia e nunca usada, quando recebe seu primeiro apertão, nunca mais volta ao seu estado anterior. Um copo cheio de pedras de gelo colocado na varanda num dia de sol quente vai se tornar um copo cheio d'água em estado líquido. Isso é entropia. Fim da aula de Química para Leigos - como eu!

A busca humana pela perfeição, mesmo que não admitida, é um dos princípios básicos do crescer. Quando aprendemos algo, não queremos errar. Quando nos consideramos bons em algo, queremos nos aperfeiçoar. E quando erramos, queremos consertar, como se aquele erro fosse deixar de existir só porque não queremos mais vê-lo. Ah, como um Mestre Yoda faz falta na vida das pessoas. "O fracasso é o maior professor", diz o pequeno mestre jedi em Os Últimos Jedi. Não é que a gente deva contar com o fracasso, mas aceitá-lo caso aconteça, aprender com ele.

Mas a realidade, assim como a ficção, bem sabe que nem todo mundo aprende apenas ouvindo. No caso de Barry Allen, o Flash, o aprendizado só vem quando o mundo como ele conhecia deixa de existir porque o herói não quis lidar com seus erros e decidiu reiniciar a linha do tempo, interrompendo o fluxo natural das coisas.

No final da segunda temporada de The Flash, o herói - que já era órfão de mãe - perde o pai, assassinado pelo vilão Zoom. O Flash não conseguiu impedir Zoom de cometer atrocidades, nem foi capaz de salvar seu pai. Zoom é derrotado, mas Barry simplesmente não aceita que não foi capaz de salvar quem queria salvar, não aceita que tem limitações e não respeita seu próprio processo de luto, decidindo interrompê-lo ao invés de aprender com ele. Um ano antes, Barry descobriu que era capaz de viajar no tempo, mas sabia que, se fosse para o passado e mudasse algo ali, aquilo teria ramificações no futuro. É o tal do Efeito Borboleta - eis aqui mais um conceito super interessante da matemática.

Barry volta para o dia em que sua mãe foi assassinado pelo Flash Reverso - outro supervilão da galeria quase infinita de antagonistas do herói - e a salva. Assim, Barry deixa seus pais vivos para seguir a vida que não puderam seguir na linha do tempo original. O rapaz volta para o presente e se vê sem poderes, sem conhecer seus amigos, situações inimagináveis e descobre que algumas pessoas que estavam vivas na linha do tempo original, agora estão mortas. Tudo está diferente, mas seus pais estão vivos e felizes.

Barry, ao não aceitar lidar com a sua própria vida e seu desenrolar, afetou a vida do mundo inteiro. Até mesmo acabou com algumas vidas. Sua recusa em aceitar a falha tirou o direito de outras pessoas falharem e aprenderem.

Ao perceber o tamanho do problema que criou, Barry volta novamente no tempo e "permite" que sua mãe seja assassinada, recriando o cenário original, crente de que tudo estaria igual quando voltasse ao presente. E o que acontece? Entropia. Tudo volta mais ou menos ao normal. Fatos que Barry conhecia já não são mais fatos, momentos que ele viveu com pessoas não aconteceram como ele se lembra e o irmão de seu melhor amigo está morto. Como?, Barry se pergunta. E novamente a resposta é a entropia. Se você erra, é preciso lidar com o erro ao invés de tentar apagá-lo como se nunca tivesse existido. É como passar corretivo num papel, esperar secar e escrever por cima; ainda dá pra ver que algo errado aconteceu ali.

Mas agora Barry entende seu erro. Entende a consequência de não tê-lo aceitado. Entende o suficiente para não cometê-lo novamente. Ele está ali, vivendo naquele mundo que é como é, em parte, por sua causa. E ali deve continuar para aprender, acertar, ajudar e, principalmente, errar.


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