Tico Menezes

Loki, Parábola e Como nos Entregamos a Ditaduras

Estamos mesmo ansiando por submissão?


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A figura do super-herói existe para transmitir esperança, para inspirar o leitor a acreditar em si mesmo e defender seus ideais de forma honesta e justa. É algo criado para transmitir uma sensação positiva, para que o otimismo pudesse florescer. Mas essa figura só existe nos quadrinhos e nos cinemas por uma razão: Não existem super-heróis no mundo real.

Temos heróis, mas nenhum deles é super. Nosso mundo é muito mais complexo do que qualquer universo criado na ficção, tem camadas de profundidade, culturas e figuras que requerem mais do que algumas horas de atenção para serem compreendidas. O heroísmo do mundo real quase sempre é algo comunitário, se não por grupos, por ideais. Os heróis da vida real são humanos que erraram em algum momento de suas vidas, tinham diversos defeitos, precisavam de ajuda constantemente, não ostentavam um símbolo de esperança em seu peito, mas defenderam um ideal em prol de gerações vindouras. Muitos deles não são mencionados na História, tantos outros, foram verdadeiros vilões e é por isso que a figura do herói no mundo real é algo nocivo. Mas seguimos implorando por um, acreditando cegamente em promessas falsas e repetindo discursos sem parar para pensar no que eles representam. Atingimos níveis extremos de defesa daquele que escolhemos como herói, seja do partido A ou B, muitos de nós – que, ironicamente, somos os únicos com o poder de escolha – contribuímos para nossa própria ruína porque estamos buscando soluções definitivas ao invés de construções gradativas.

Em Os Vingadores (2012), há uma cena em que Loki, o Deus da Trapaça, vai à Alemanha cumprir parte de um plano minuciosamente pensado para torná-lo regente do planeta Terra. O vilão, após assassinar um homem num museu e derrubar um ônibus, encurrala uma pequena multidão de civis e inicia um monólogo:

Loki Ajoelhem-se! Não é mais simples dessa forma? Esse não é seu estado natural? É a verdade não dita da humanidade. Vocês anseiam por submissão. O brilhante fascínio por liberdade diminui sua alegria de viver, numa confusão louca por poder, por identidade. Vocês foram feitos para serem governados. No final, sempre se ajoelharão.

O monólogo de Loki tem embasamento histórico, se olharmos parte da história do mundo como o conhecemos. E somente por isso existe. Por causa da crença dos governantes de que não haverá resistência por parte do povo, de que, contanto que a figura do herói permaneça representada da forma que as pessoas idealizaram, o poder seguirá nas mãos de um pequeno grupo de homens. Loki pensa pouco de nós porque mais de uma vez nos rendemos a um regime ditatorial. Mas é importante ressalta o que acontece depois, tanto no filme quanto na vida real: Mais de um de nós se impõe contra o ditador e, mesmo sob ameaça de morte, o enfrenta. Isso é mais forte do que qualquer governo, basta acreditarmos e seguirmos enfrentando.

Dentre as diversas críticas à rendição de parte de um povo a um regime ditatorial que se diz heroico, uma das mais pontuais está na HQ Parábola (1988), de Stan Lee e Moebius. Na história, o Surfista Prateado vê Galactus, o Devorador de Mundos, chegar à Terra para consumi-la. O roteiro não foca no embate entre super-herói e supervilão, mas na reação dos humanos à chegada de um ser gigante, de poder imensurável e discurso eloquente. A mídia e algumas religiões apoiam a entrega da raça humana a Galactus, incentivam assassinato e discriminação se forem a favor do Deus que escolheram amar. Os que se opõem a essa ideia, são oprimidos e julgados. Quando o Surfista Prateado consegue impedir Galactus de devorar a Terra, todos aqueles que tinham se rendido voluntariamente e cometido atrocidades em nome do que consideravam “o bem”, elegem o herói como o novo regente do planeta. Mas o Surfista recusa, entristecido ao perceber que, mesmo à beira da extinção, há pessoas que se recusam a pensar por si mesmas e vão a extremos buscando recompensa de algum poder maior do que elas.

Pois lhes peço encarecidamente que sejam resistência a ideias retrógradas e vão atrás de conhecimento sobre a história do mundo, sobre sua história. Não sejamos como aqueles que se entregam à figura heroica que está em evidência, sejamos todos heróis de nosso próprio destino usando a sabedoria como arma. Se não mudarmos nossa forma de ver a política, as ideias contrárias às nossas, a diversidade, a cultura e a nós mesmos, estaremos apenas trocando Loki por Galactus, assim rumando a extinção. Sejamos mais fortes que o Capitão América, mais sábios que o Surfista Prateado, mais unidos do que os Vingadores. Amigos, à vitória!


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