Tico Menezes

Titãs e O Monstro Nosso de Cada Dia

Como você lida com seus auto-inimigos?


titttttans.jpg

Um dos grandes acontecimentos de 2018 – seja pela positiva quebra de expectativa ou pela ansiedade gerada para o futuro das séries baseadas em quadrinhos da DC – foi a estreia da série Titãs. Os personagens retratados na série, apesar de terem sido escritos com primor na aclamada fase de George Pérez, ficaram conhecidos pelo grande público nas séries animadas Os Jovens Titãs e Os Jovens Titãs em Ação, que, apesar de ótimas, seguiam por um viés mais cômico sem grande aprofundamento dos personagens.

Eis que, depois de pôsteres nada empolgantes revelando a imagem dos personagens, o serviço de streaming DC Universe lançou uma série para maiores de 18 anos focada nos heróis Robin, Ravena, Estelar e Mutano. E, polêmicas sobre caracterização e/ou qualidade dos efeitos especiais à parte, o roteiro da série disse a que veio logo no primeiro episódio.

Em Titãs, o que deve ser combatido antes de qualquer vilão são os demônios internos de cada personagem. Robin é viciado em violência e está ciente disso, porém, não consegue mudar o que passou a vida inteira fazendo. Estelar não se lembra de quem é e não tem tanto apreço pela vida humana, uma vez que consegue matar com facilidade sem pensar em segundas chances. Ravena tem, literalmente, um demônio assassino dentro de si e Mutano se transforma num tigre amedrontador, mas, até então, nada violento. Uma vez que os personagens estão estabelecidos, os sentimos como pessoas reais e o desenvolvimento de seus conflitos internos é cuidadoso, tem a empatia do espectador. A proposta da série, ao menos nesse aspecto, é falar sobre saúde mental e a convivência num mundo violento, opressor e frio.

Nunca se registrou tantos casos de depressão quanto nos últimos dez anos, assim como nunca se falou tanto sobre a necessidade de dividir seus pensamentos, compartilhar seus sentimentos, buscar ajuda e trabalhar dia após dia o que de melhor há em si em prol de uma vida mais plena, saudável e com perspectivas sólidas. Robin combate a violência com violência pois não conhece – e não foi convencido de que há – outra forma de existir sem estar por baixo. Ravena não entende o que acontece em sua mente, tenta sem sucesso controlar seus impulsos sombrios e se agarra às amizades e lembranças boas que têm para não se entregar à dor e ao medo. Mutano se percebe ingênuo no meio de tanta crueldade, mas tem claro para si mesmo que não fará parte do ódio que o rodeia, não será mais um a propagar a ideia de que bondade é fraqueza. E Estelar não se conhece, não se entende e se percebe superior fisicamente, logo, não precisa se importar com a opinião das pessoas sobre suas ações. Vai me dizer que você não conhece ninguém com conflitos parecidos? Muitos de nós, meros humanos, passamos por questionamentos e comportamentos como esses retratados na série. Alguns seguem em frente, aprendem a lidar ou buscam ajuda para seguir em frente, outros não. É nessa ferida que Titãs toca, nada está ali por acaso.

O caos e loucura de Gotham City pode ser encontrado nas grandes metrópoles pelo Brasil, as instituições que supostamente deveriam auxiliar o cidadão no dia-a-dia, mas só o prejudicam e alimentam sua raiva também aparecem na série. Mas talvez a maior mensagem seja: Você não está sozinho. Todos temos monstros dentro de nós, todos estamos travando uma guerra em nossas cabeças, mas se compartilharmos o que sentimos, talvez encontremos uma nova família, um novo propósito. Talvez todos nós sejamos Titãs.


version 5/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Tico Menezes