contexto paralelo

Em paralelo ao mundo em que vivemos, sobra o que enxergamos dele

Eduardo Prjadko

O convencional é interessante, por vezes; mas o diferente é sempre fascinante.

Ópera

Um dia no teatro, uma noite no espetáculo. (conto)


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O teatro vazio e escuro é onde moram temores, embora tenha sua beleza também. Ali está uma grande espaço vazio que parece não desempenhar papel algum, onde moram os misteriosos ruídos sem procedência que vêm e vão ao acaso, desaparecem para sempre; sem objetivo, reinam em absoluto. Assim aguardam para serem cortinados pela vida que emerge, um a um, em certa hora da tarde.

Quando as luzes se acendem ainda há vazio. Unidades de vida andam para lá e para cá preguiçosamente, fazendo ajustes, observando, avaliando, comentando. Um negro baixo passou por entre as cadeiras da plateia principal, assobiando uma antiga canção que escutou quando da morte de um boi no sertão brasileiro. Não lembrava da morte e nem do boi. Anete esfregava o chão do hall pensando no jantar da noite passada. Ainda sentia a dor do tapa, não no rosto, mas dentro de si.

Os “boas tardes” costumeiros do diretor fizeram o hall ganhar uma coloração diferente. Este homem velho foi escolhido por alguma razão e talvez seja a razão correta. Sua caneta percorreu alguns metros nas folhas de papel e sua linha telefônica se manteve ocupada por alguns minutos. Anderson entrou temeroso na sala para perguntar coisas bobas. Obteve suas respostas.

No camarim dos músicos, uma risada alta pôde ser ouvida. Do que estariam rindo? Entre violinos, violas, clarinetes e trompetes o burburinho aumentava. Os passos de sapatos novos batiam contra a madeira ruidosamente. Um a um chegavam para um pequeno ensaio, um aquecimento antes do espetáculo. Natan era um rapaz tímido e não conversava muito mas tinha grande prestígio no manejo das baquetas. Parecia desligado do mundo enquanto arriscava improvisações ao metalofone.

Mais tarde, no hall do teatro, o cheiro de café invadia indiscriminadamente o ambiente. Esgueirava-se por entre vestidos longos, botas, sapatos lustrosos, ternos e camisas engomadas. Mas Elisa usava camiseta branca e calça jeans, além dos tênis AllStar. Era estudante de música e trazia consigo a mochila. Também havia Felipe; na manhã seguinte não conseguiria acordar a tempo de ir trabalhar pois tomaria um porre naquela noite, depois do espetáculo. Algumas senhoras bastante distintas formavam um “clubinho” num canto do hall. Discutiam Bach, sem dúvida. Um dos seguranças alertou turistas desavisados que não era permitido tirar fotos com flash neste ambiente.

Às vinte horas e dois minutos, o maestro levantou a batuta e todos os músicos botaram-se em posição. Dona Ana, a senhora erudita, achou de muito mal gosto o figurino da adaptação e comentou isto com seu marido enquanto um jovem tenor fazia floreios com uma bela voz. Quando o coral de camponeses entrou no palco e começou a cantar, Antônio arregalou os olhos e falou para si mesmo “minha nossa”. Era a primeira vez que assistia uma ópera. Escorriam lágrimas pelo rosto de Leonardo ao final do espetáculo. Era uma tragédia grega e a mocinha morreu.

O público se dispersou ao fim. As ruas em frente ao teatro ganharam vida enquanto o teatro perdia. João, o negro baixo, deu um longo suspiro após apagar a última luz do teatro. Já passava da meia noite e tudo o que precisava era de um bom banho quente.


Eduardo Prjadko

O convencional é interessante, por vezes; mas o diferente é sempre fascinante..
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