contexto paralelo

Em paralelo ao mundo em que vivemos, sobra o que enxergamos dele

Eduardo Prjadko

O convencional é interessante, por vezes; mas o diferente é sempre fascinante.

O desenvolvimento do projeto Mrs. Dalloway

Mrs. Dalloway não foi apenas uma das grandes obras do século XX como também foi o ponto de partida para criação de outras grandes obras.


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Não podemos negar que nos dias atuais, mais do que nunca, as linguagens artísticas se comunicam sem moderação. Como resultado temos obras de arte que ganham vida própria e se desenvolvem muito além das ideias iniciais de seu criador, passando de geração em geração, ganhando novas perspectivas. Não falo aqui sobre releituras e muito menos sobre influências artísticas. O que quero enfatizar são obras que tiveram como princípio obras de outros autores. Obras que foram declaradamente uma base sólida para a construção de outra base. Existem inúmeros exemplos de obras que foram desenvolvidas ao longo das gerações por diferentes linguagens e outores. Vou destacar e desenvolver um “projeto” em especial que se iniciou com Virginia Woolf e terminou com Philip Glass.

Em 1925 foi lançado o romance Mrs Dalloway pela escritora britânica Virginia Woolf (1882-1941). No romance, Woolf traz a história de um dia de verão qualquer na vida de uma mulher chamada Clarissa Dalloway. A obra, carregada de drama e paradoxos, retrata a crise, a princípio, de sua personagem principal, depois da classe social desta personagem, partindo para a crise da sociedade pós guerra e, por último, a da própria obra literária. Esta obra é considerada a obra prima da autora. Composto todo de uma escrita modernista, é de difícil leitura.

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Em 1998 Michael Cunningham lançou sua primeira obra literária de grande sucesso: As horas. No romance Cunningham se baseia na obra de Woolf criando três linhas de tempo que se comunicam através do livro Mrs Dalloway. Na primeira linha, temos a própria escritora em seu processo de criação da obra em questão. Numa segunda linha, alguns anos a frente, temos uma mulher que está lendo esta obra e se sente atraída pela crise vivida pela heroína. Finalmente, na terceira linha, em tempos atuais, outra mulher vive uma história semelhante à de Clarissa Dalloway.

O ponto de partida de Cunningham é muito claro: Mrs Dalloway. Não se trata, porém, de uma releitura do livro de Woolf. É possível entender As Horas como um “continuador” de um grande “projeto”, mesmo que Cunningham não enxergasse desta maneira. Para algúem que nunca leu Mrs. Dalloway, é impossível não querer ler, após conhecer As Horas.

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Dando continuidade aos acontecimentos, Stephen Daldry, cineasta inglês, lançou em 2002 a adaptação cinematográfica de As horas. O filme retrata com fidelidade o romance de Cunningham demonstrando toda a sensibilidade e genialidade digna das obras de Woolf e Cunningham.

Diferente de Cunningham, Daldry não procura dar uma continuidade ao “projeto”. O que ele faz é retratar em imagens o livro de Cunningham. Não tiro porém, o mérito de Daldry pois é uma obra digna de se apludir em pé, dada a dificuldade de se representar o espírito das obras de Woolf e Cunningham. Como poucas vezes já vi, esta é uma adaptação que não perde em nada para o livro.

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O fechamento de um ciclo de obras que se iniciou com Woolf, termina na trilha sonora do filme As Horas. Philip Glass já era notável por suas composições se tornando um influente compositor do século XX. Entre suas obras podemos citar sinfonias, óperas, composições para piano solo e trilhas sonoras cinematográficas. Seu trabalho se tornou conhecido pelo estilo minimalista de compor.

As estruturas repetitivas, típicas do minimalismo, se mostram bastante evidentes em As horas. Sua dinâmica muito bem trabalhada enfatiza as melodias repetitivas, hora tomadas a frente pelo piano e hora pelas cordas. Além disso, a trilha sonora nos evoca uma série de sentimentos paradoxais como angústia e tranquilidade, medo e coragem, tristeza e felicidade, o gosto pela vida e pela morte. O estilo de Glass entra em perfeita harmonia com o contexto das obras de Woolf, Cunningham e Daldry, reafirmando a crise e a mesmerice da humanidade presentes nestas narrativas.

Não é por um acaso que Glass soa perfeito neste ciclo de criações. Cunningham sempre admirou a música do compositor. Além disso vemos uma ligação direta entre Glass e Woolf quando o próprio romancista diz “Eu amo a música de Glass tanto quanto amo Mrs Dalloway de Woolf”. Cunningham ainda afirma: “Para mim, Glass pode encontrar em três notas repetidas algo deste êxtase estranho da mesmerice que Wolf descobriu em uma mulher chamada Clarissa Dalloway executando incubências numa manhã de verão qualquer.”

Virginia Woolf provavelmente sabia da grandeza de suas obras. No entanto, não imaginava ter iniciado um grande projeto de mais de meio século de maturação. É realmente intrigante viajar por todas estas obras e entender suas ligações e seus significados. Como dito, este é apenas um exemplo. Quantos outros exemplos poderíamos citar? Quantas outras viagens no tempo poderíamos fazer? Na minha opinião, um dos grandes prazeres das artes está justamente em fazer conexões entre as obras e o mundo em que vivemos.


Eduardo Prjadko

O convencional é interessante, por vezes; mas o diferente é sempre fascinante..
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