contracultural

Revolução através de pensamentos, e arte.

Gabriel Juan Cunha

Por pouca afinidade, deixei de escrever sobre a realidade.

O apanhador no campo de centeio, valores e amadurecimento

“As pessoas sempre estão pensando que alguma coisa é totalmente verdadeira. Eu nem ligo, mas tem horas que fico chateado quando alguém vem dizer para me comportar como um rapaz da minha idade. Outras vezes, me comporto como se fosse bem mais velho – no duro – mas aí ninguém repara. Ninguém nunca repara em coisa alguma.”


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(“Dentre todas as coisas, você vai descobrir que você não é o primeiro a ficar confuso, e assustado, e até enojado com o comportamento humano.”) Tradução livre.

O romance escrito por J.D.Salinger, publicado em 1951 nos E.U.A, nos apresenta uma nova concepção da juventude americana que influenciou diversos jovens durante as décadas de cinquenta e sessenta. Uma juventude subversiva pós-segunda guerra mundial, que se sentia inconformada com diversos comportamentos sociais da época. O apanhador no campo de centeio é um dos primeiros suspiros do que viria a ser uma nova geração, a Geração Beat, que representava toda a inconformidade dos jovens intelectuais da época, um movimento subversivo a tudo que vigorava até então, modelos sociais, políticos, e intelectuais.

O livro nos apresenta Holden Caufield um típico adolescente, que por uma desventura acaba de ser reprovado no internato no qual estudava, e por isso é expulso do mesmo, angustiado, Holden decide fugir, e assim se dá o livro, uma narrativa sobre um final de semana conturbado na vida do eu-lírico.

A narrativa ocorre através do fluxo de consciência da personagem-narradora, que é um adolescente angustiado com as incertezas da vida, e expressa as mesmas para o leitor durante a narração. Holden é uma personagem extremamente ingênua, pois tenta ele mesmo se iludir, para que as coisas lhe pareçam mais simples do que são, na realidade. Para Holden, é mais fácil fugir de seus problemas do que enfrentá-los, assim como os patos que deixam os lagos do Central Park durante o inverno, ou mesmo a forma na qual ele tenta se esconder em seu gorro de caça, o que demonstra na personagem grande imaturidade diante dos problemas apresentados pela vida.

Em suma, Holden é apenas um adolescente comum, que desacreditado com o mundo, e aborrecido com todos que o cercam, tem medo de amadurecer e se tornar adulto pois, para ele, todos os adultos são falsos, mentem sobre como se sentem e sobre o que pensam. O livro faz uma crítica direta aos modos nos quais os adultos levam a vida, e seus valores, como a ganância, a hipocrisia, e o poder. A personagem defende a inocência da infância, Holden acredita que ele poderia ser um apanhador no campo de centeio, onde ele protegeria as crianças de caírem em um precipício, alusão direta ao desenvolvimento pessoal, amadurecimento, crescimento individual, e ganho de novas experiências, para ele, crianças deveriam manter sua inocência, para que sejam puras para sempre, e não sejam corrompidas pela sociedade falsa.

Por todas essas incertezas, podemos notar ao decorrer do livro que Holden vai se alterando, e demonstrando comportamentos questionáveis, tais como; mentiras, e críticas às pessoas com quem ele interage durante sua jornada, em determinado ponto do romance, Holden acaba se tornando atormentado, a ponto de conversar com seu irmão morto, por ter medo de atravessar a rua, se sentindo muito vulnerável a tudo e todos, tudo isso acontece, pois o personagem se sente intoxicado pela sociedade e suas mentiras, a ponto de que no final do livro, o personagem diz estar internado, pois esteve doente, o que leva a crer que possivelmente possa ser algum distúrbio emocional, como a depressão, decorrente desse convívio social, e a inconformidade que o assombra.

12166911_1035431276496667_2022624861_n.jpg (Björn Griesbach)

Com base na proposta do personagem, segue a reflexão, o que nos acontece quando amadurecemos? O que ganhamos? O amadurecimento se dá decorrente do aprendizado retirado de fatos anteriores na vida, assim ganhamos experiência para sabermos como lidar melhor com as situações posteriores da vida. Mas existe um ponto importante, muitas vezes ligamos experiências a algo bom, porém em nossas vidas, aprendemos mais com os erros e falhas que nos causam dor, do que com algo que tenha sido prazeroso, seria então o sofrimento algo necessário?

De fato existem inúmeros benefícios em amadurecer, porém, existem também malefícios. Enquanto amadurecemos, sofremos metamorfoses mentais, nossos valores mudam, nossos ideais, e pensamentos, a olhos comuns, evoluímos, mas se observado com mais cautela, realmente nos aprimoramos com o tempo? Nascemos pequenos, e pouco possuímos, nada além de um cérebro pouco exercitado, sem nenhum vício social, qualquer dogma, ou até mesmo preconceitos, nascemos livres para que possamos nos moldar com o tempo da maneira na qual desejarmos, e assim somos por um longo tempo, um ser puro, distante de todos os comportamentos padrões assumidos pela sociedade, por sermos ignorantes sobre diversos assuntos, somos humildes, possuímos a possibilidade de descobrirmos coisas novas, mas que não necessariamente nos aprimoram, apenas nos alteram.

A partir de certo ponto, o humano se vê no auge de seu intelecto, e assume por si mesmo que já é dotado de conhecimentos suficientes para ser considerado um ser pensante, agora o mundo passa a ser um local ameno, não existe mais interesse pelo desenvolvimento e aprimoramento pessoal e intelectual, pois todas suas palavras ditas são tomadas como verdades absolutas, tendo em vista que sob seu ponto de vista, a sua visão do mundo é absoluta, mas em contraposição, o humano se vê preso em uma sociedade onde é preciso desempenhar o papel social de mediador, não se pode simplesmente dizer o que lhe vem à cabeça, pois assim poderá ser excluído do seu círculo social, e será um marginal na sociedade, que não se situa dentro dos padrões adotados pelos outros, nos tornamos falsos, pois deixamos de ser aquilo em que acreditamos, para sermos aquilo que queremos que acreditem que somos.

E assim somos fadados a viver, como em uma peça, apenas encenamos, somos personagens fictícios de nossas próprias histórias. Movidos por uma grande necessidade de se destacar em uma sociedade competitiva, nos tornamos gananciosos, onde podemos simplesmente passar por cima de vários dos nossos semelhantes, para que nos sintamos especiais a partir da percepção do outro. Com o tempo, aprendemos a nos comportar em sociedade para sermos aceitos dentro dos padrões, mesmo que esses nos traiam, porém, com o tempo perdemos nossa inocência, nos infectamos com ideias pré-concebidas por outros, e nos tornamos egoístas, com o amadurecimento, perdemos a capacidade de nos maravilhar com as coisas banais da vida, a vida se torna monótona, e sem vida.

Portanto, Holden apenas desejava nos poupar do sofrimento, e fazer com que a inocência nos fosse mantida, para que não nos tornássemos falsos, e escravos de um mundo hipócrita, no fim, ele só nos queria salvar do abismo que é a vida adulta.


Gabriel Juan Cunha

Por pouca afinidade, deixei de escrever sobre a realidade. .
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