contracultural

Revolução através de pensamentos, e arte.

Gabriel Juan Cunha

Por pouca afinidade, deixei de escrever sobre a realidade.

Uma aprendizagem com Clarice Lispector

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente.”


O sexto e último romance de Clarice Lispector, nomeado de Uma Aprendizagem ou Livros dos Prazeres, foi publicado pela primeira vez em 1969, é um livro autêntico no sentido mais amplo da palavra, pois se trata de uma aprendizagem do leitor junto com a narrativa, onde a autora expõe toda a sua liberdade poética em uma prosa recheada dizer poético, que incrementa uma liricidade incomum ao livro, e um teor introspectivo filosófico notório, o tornando uma obra prima

241004.jpg (Capa)

O livro nos apresenta Loreley, que é apelidada de Lóri, uma jovem professora que se muda de sua cidade natal para a cidade do Rio de Janeiro, onde passa a lecionar em uma escola primária, em busca de uma liberdade da qual não desfrutava em seu antigo ambiente, porém a personagem passa a se sentir muito sozinha, e encontra nela uma angústia melancólica decorrente da falta de autoconhecimento, que a prende e a devora, fazendo dela de um fantoche, onde a personagem se vê incapaz de ser ela mesma por não se compreender, e tampouco compreender o mundo a sua volta, o que a impede de desfrutar dos prazeres da vida livre, como um ser humano autêntico, como um indivíduo.

A narrativa explora o mais profundo do âmago de Lóri, que nos mostra todas suas inseguranças, dúvidas, diante do mundo, que ao decorrer da história nos apresenta Ulisses, por quem é apaixonada, que é um personagem fundamental para a história e o desenvolvimento de Lóri. Ulisses é um homem mais velho e maduro, um professor de filosofia, que por busca própria já possui maior compreensão do mundo que o cerca e dele mesmo, que apaixonado por Lóri, tenta compreender e ajudar a personagem principal a se encontrar no mundo, servindo como um farol para a personagem que se vê a deriva do mundo que a afoga em dúvidas e angústias, e isso para que ela esteja pronta para ter um relacionamento com ele.

Vê-se no livro o crescimento da personagem, seu amadurecimento, e também o do seu relacionamento com Ulisses, que com enorme paciência aguarda por Lóri, que impacientemente possui todas as incertezas tão comuns em relacionamentos, ela anseia por Ulisses, sofre a espera de encontros e telefonemas, e ao o imaginar com outras faz com que sinta profundo ciúme, o que facilmente faz com que qualquer pessoa que já passou por algum relacionamento conturbado ou não, se identifique com essa situação.

hotel-room.jpg!Blog.jpg (Edward Hopper)

O livro nos induz então a questões e reflexões profundas sobre nós mesmos, como; O que nós somos no mundo? Quem somos nós? O que o mundo faz de nós? Se não nos conhecemos, como podemos afirmar que somos quem dizemos ser? Se não nos conhecemos, como poderemos estar com outras pessoas? Em si, o livro nos propõe inúmeras perguntas que fogem do cotidiano que nos causam certo incômodo, por serem questões complexas e difíceis de digerir, e em contramão, deixa para o leitor o cargo de encontrar as respostas que lhe valem.

Por fim, o livro nos leva a uma viagem por nosso âmago, e da personagem, é uma aprendizagem que nos transmite todos os sentimentos da personagem, e nos faz sentir com ela, e a aprender com ela, que mostra a importância do autoconhecimento, é um livro único que já demonstra sua peculiaridade logo no início, onde o livro se inicia com uma vírgula, apontando que é uma continuação de algo, mostrando que a aprendizagem já havia se iniciado, e termina em dois pontos, insinuando que a aprendizagem é eterna, e que continua com o leitor e com a continuidade da história de Lóri, que a cada dia mais iremos nos conhecer, pouco a pouco, iremos nos descobrir no mundo, até o fim de nossas vidas.


Gabriel Juan Cunha

Por pouca afinidade, deixei de escrever sobre a realidade. .
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