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Diana Caldeira Guerra

A Diana gosta de caracóis temperados no verão, canja de galinha no inverno e autores clássicos em todas as estações do ano

Nova Iorque: ordenamento e expansão

Nova Iorque chegou a chamar-se New Amsterdam no século XVII e a pertencer aos holandeses... Passou para as mãos dos ingleses onde se afirmou como um grande porto, mas foi apenas após a independência dos Estados Unidos que Nova Iorque cresceu exponencialmente. Conheça aqui um pouco mais da histórica da cidade: como esta se organizou, cresceu e se tornou uma das maiores cidades do mundo, com mais 8 milhões de habitantes.


newamsterdam (1).jpg New Amsterdam/ Nova Iorque no tempo nos holandeses – 1660

Em 1609 o explorador Henry Hudson chegou às terras que hoje são Nova Iorque e achou-as muy férteis e amistosas… A Holanda acreditou, e decidiu fundar uma colónia por aqueles lados, enviando um dominicano descendente de portugueses para negociar com os nativos. Juan Rodriguez é hoje considerado o primeiro residente da cidade de Nova Iorque.

A cidade, New Amsterdam, começou então a ser construída junto ao Fort Amsterdam, na zona onde hoje se encontra a Downtown de Manhattan. Mas acontece que este era um dos maiores portos naturais do mundo, ficava perto das colónias inglesas e estes não se davam lá muito bem com os holandeses. Resultado? Num belo dia, os ingleses juntaram as tropas, navegaram até lá e exigiram a capitulação da cidade, em 1664, que na altura não tinham mais de 5.000 habitantes.

Tudo isto viria a dar numa guerra, a Segunda Guerra Anglo-Holandesa, mas a verdade é que os ingleses ficaram com o controlo da cidade e renomearam-na New York, em honra do Duque de York, que viria a ser o rei James II de Inglaterra.

Ora, 100 anos volvidos, no início do século XIX, a cidade já contava com 80.000 habitantes e o ordenamento do território estava na ordem do dia. Na altura, Nova Iorque era apenas parte da ilha de Manhattan e, para que a cidade crescesse de forma sustentável, era necessário pensar como é que esta iria estar organizada…

index.jpg Mapa de 1778, de Thomas Kitchin

Os planos ortogonais (grid plan) foram umas das máximas nas construções das cidades norte-americanas e Nova Iorque não foi uma excepção. Aliás, é até o exemplo mais conhecido deste tipo de planeamento, apesar de quase todas as cidades nos Estados Unidos estarem organizadas desta forma!

Neste tipo de planos, as avenidas são paralelas às ruas e a grande maioria é numerada, permitindo que qualquer pessoa se possa orientar dentro da cidade e também reduzindo a expansão das doenças infecciosas e da criminalidade (vejam o Gangs de Nova Iorque se quiserem ter uma ideia do que acontecia a meados do século XIX). Esta é também uma grande cisão com as cidades europeias, conhecidas pelas ruelas estreitas e a igreja no centro. Bem-vindos à modernidade!

Ora Nova Iorque implementou o seu plano ortogonal em 1811, altura em que o Commissioners’ Plan foi aprovado e a cidade passou a ter um ordenamento para a ilha de Manhattan.

Como podem ver abaixo, a parte mais escura do mapa (onde hoje é Downtown, a parte mais a sul da ilha de Manhattan) é aquela que já estava construída. Se visitarmos hoje a Wall Street e outras ruas circundantes, podemos ver como se mantêm as mais estreitas e acidentadas da cidade.

commissionersplan1807.jpg Proposta original do Commissioners' Plan, que data de 1807.

A norte dessa linha de construção (ou seja, de Houston Street), começa o sistema ortogonal, ou seja, as 12 avenidas (avenues) largas que atravessam Manhattan de norte a sul, e as 225 ruas (streets) que atravessam de este a oeste, sendo que a última destas ruas fica para lá do rio Harlem, no início do The Bronx. Além da avenidas numeradas, existem ainda as avenidas letradas – de A a D – nas partes mais largas da ilha. O bairro é hoje conhecido por Alphabet City.

De acordo com o plano, cada avenida deveria ter a largura de 30 metros e deveriam estar a 281 metros de distância. Por seu lado as ruas deveriam ter uma largura de 18 metros e estar a 61 metros de distância.

Fantástico não é? Em 1811, os arquitectos conseguiram imaginar uma cidade 4 ou 5 vezes maior. Uma cidade ampla que, de futuro, pudesse albergar várias faixas de carros, passeios, electrificação, sistema de esgotos, saídas de metro e pátios para arranha-céus. Uma cidade que não albergasse apenas os primeiros colonos do século XVII, mas também as centenas de milhares de imigrantes que viriam a chegar ao longo do século XVIII e XIX, os polacos, os alemães e os irlandeses que fugiam à Grande Fome. E, depois, americanos negros que sonhavam com a liberdade e a igualdade prometida. E, depois, os italianos e os chineses. E ainda os judeus e os coreanos. E, hoje, os latinos do México, Colômbia e Venezuela. E todos os que fugiram (e continuam a fugir) do desespero, da miséria, da perseguição e da guerra.

E tudo sem aqueles arquitectos sonharem que metade dessas coisas iriam sequer acontecer…

Reparem que em 1811, já existia a Broadway – umas das avenidas mais conhecidas de Nova Iorque – e os arquitectos planearam logo que esta seria uma artéria chave da cidade, atravessando as avenidas e ruas na diagonal, no coração de Manhattan (tentem lá descobri-la no mapa acima). Hoje, a parte mais famosa desta avenida é o Theatre District, perto da Times Square.

No entanto, existem partes da cidade que não foram construídas tal como o Commissioners’ Plan ditou. Um desses exemplos é o Central Park, que não consta no mapa dessa altura… A necessidade deste parque só viria a ser identificada em 1855, depois de entre 1821 e 1855 a população da cidade ter quadruplicado. Mas esta própria expansão à velocidade da luz só foi possível através do novo ordenamento da cidade, que nasceu em 1811.

A 1890, a cidade de Nova Iorque contava com 1,5 milhões de habitantes e ocupava já parte de Queens e do The Bronx. A sua cidade irmã, Brooklyn, tinha 800 mil habitantes e era, na altura, a quarta maior cidade dos Estados Unidos. Mas este foi o último censo em que as cidades foram consideradas duas entidades autónomas…

currier__ives_brooklyn2.jpg Cidade de Brooklyn, a 1886.

A 1898, após um referendo à população, a cidade de Nova Iorque foi consolidada, juntando cinco municípios que representam cada um dos burgos de Nova Iorque: Manhattan, município de Nova Iorque, Brooklyn, município de Kings, Queens, município de Queens, Bronx, município de Bronx e Staten Island, município de Richmond.

Tornaram-se burgos, mas partes iguais da mesma cidade que é Nova Iorque. E todos geridos pelo mesmo mayor. Esta consolidação da cidade vigora até aos dias de hoje, ainda que com alguma contestação. Os habitantes de Brooklyn mantêm a sua identidade e afirmam-se orgulhosamente brooklyners, até porque no referendo de 1889, os unionistas ganharam por pouco neste burgo… E em 1993 houve um referendo à população de Staten Island sobre uma possível cessação com Nova Iorque, em que ganhou o sim. Contudo, o mayor de Nova Iorque fez algumas cedências e reivindicação ficou por terra…

110094-004-0E37302D.gif Hoje: os 5 burgos de Nova Iorque

Apesar da controvérsia, uma coisa é verdade. Nova Iorque, uma cidade de proporções gigantes e com um crescimento exponencial apenas foi possível de sustentar através do ordenamento lógico de 1811 e da organização dos burgos 1898, que permitiram uma relação mais eficiente entre centralização e regionalização dos serviços. Hoje, Nova Iorque conta com 8,4 milhões de habitantes: 2,6 em Brooklyn, 2,3 em Queens, 1,6 em Manhattan, 1,4 no The Bronx e 473 mil em Staten Island. And counting.

Gostaram de ler? Saibam mais sobre as viagens da autora aqui.


Diana Caldeira Guerra

A Diana gosta de caracóis temperados no verão, canja de galinha no inverno e autores clássicos em todas as estações do ano.
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