controverso

Histórias que beliscam

Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis

A menina que coloria

O preconceito mora nos detalhes. Um conto sobre a beleza das nossas cores e diferenças sob a perspectiva de uma criança em seu primeiro dia de aula.


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Naquela manhã, o sol apontava quase meio-dia. Verônica acariciava os cabelos enquanto se olhava no espelho. A menina fazia caretas e, com as mãos pequenininhas, domava seus cachos. Era divertido ver a obediência daqueles fios, esticava e voltava. Ela era mesma quem se arrumava para a escola ouvindo sua mãe cantarolar da cozinha.

As duas eram rainhas absolutas daquele lugar.

Era o primeiro dia de aula. Ansiosa, Verônica não conseguia intercalar a fala e suas mastigadas nervosas. Tantos medos esfriavam aquela comida na barriga. Do outro lado da mesa, Isabel via orgulhosa a filha devorando tantas expectativas.

As duas eram cumplices de um futuro feliz.

Com a mochila nas costas, a pequena invadiu a portaria do colégio como quem está prestes a matar a fome. Isabel deu um tchau tímido que ninguém viu. Do pátio, a menina olhava todas aquelas salas e crianças se misturarem. Era tudo tão colorido que ela mal sabia se todas aquelas cores caberiam no seu estojo de lápis de cor.

Ela queria colorir tudo também.

Seus olhinhos brilhantes iluminaram um grupo de crianças. Meninos e meninas riam pelas suas janelas e se abraçavam. Com o mesmo sorriso de dente de leite, Verônica chegou.

Eles se calaram. Ela disse oi.

A risada daquelas crianças mudou de cor. Daquelas janelinhas não saiam mais a mesma música da felicidade. Aquelas risadas incomodaram a menina de uma forma que ela não saberia explicar. Os dedinhos apontavam para ela. Seus cachos murcharam quando encontram com aqueles cabelos lisos derramados pelos rostos brancos das outras meninas. Verônica engoliu o próprio riso. De mãos dadas com a professora, a criança seguiu para a sala de aula.

Sozinha, a menina coloriu o dia de cinza.

No caminho de volta, enquanto sol se escondia atrás dos prédios, Isabel estranhou os olhos silenciosos da filha. Entre perguntas elaboradas e respostas monossilábicas, Verônica estava com raiva dos cachos da mãe. Isabel respeitou as frases tortas da menina e engoliu a seco sua impotência.

Em casa, a pequena se sentou em frente ao espelho. Ela viu uma lágrima passear pelo seu rosto e estacionar em sua boca. Era salgada. A tristeza tinha gosto.

Olhando fixamente para sua figura, seu rosto era emoldurado por fios que pareciam flores, mas ela não gostava mais deles. Não queria florescer, queria derramar. Se não são cabelos derramados, não são cabelos.

Entre seus cachinhos, uma conclusão e, entre seus dedinhos, uma tesoura sem ponta.

Isabel invadiu o quarto da filha enquanto a tesoura amputava seus cabelos. Seu abraço deu fim a sessão de tortura. Juntas, elas se olharam no espelho. Mãe, filha e seus cachos acesos como faróis, cabelos que iluminam a beleza das diferenças.

No dia seguinte, quando o sol anunciava a tarde, as duas caminhavam para a escola. De novo, salas e crianças se misturavam, inclusive ela. Dessa vez, a menina viu o tchau tímido da mãe. Com um sorriso, Verônica retribuiu.

Juntas, as duas coloriam suas lutas.

***

Conto originalmente publicado no blog Controverso.


Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis.
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