controverso

Histórias que beliscam

Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis

O que você dirá antes de partir?

Em menos de 48 horas antes da sua morte, um homem registra em verso como é se despedir da vida aos 36 anos de idade. Esse poema se transformou em um mergulho ao cruel e infinito desconhecido para quem lê.


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Em menos de 48 horas antes da sua morte, em 1898, um homem registra em verso como é se despedir da vida aos até então 36 anos de idade. Para ele, uma vida sem grandes feitos. Um emprego qualquer, um casamento instável e o anonimato que o deixava invisível aos olhos alheios. O poeta sombrio amargava a miséria extrema e encarava com lucidez a tuberculose tomar conta da sua carne.

Naquela época, os tuberculosos eram despachados para sítios e casas distantes numa tentativa de estender por mais alguns dias a sobrevivência dos pulmões doentes. Com ele não foi diferente. Em um sítio no interior de Minas Gerais, pelas mãos trêmulas do moribundo, nasceu um dos mais brilhantes poemas simbolistas.

O homem é João da Cruz e Souza, filho de escravos alforriados e o grande precursor do movimento no Brasil. No entanto, na véspera da sua morte, o poeta era um anônimo tentando perpetuar em palavras seu corpo derramado em adeus. Ninguém está preparado para morrer por mais que a vida seja uma contagem regressiva ingrata e inquietante. Compartilhar em verso suas últimas fagulhas de consciência foi, pra mim, uma das coisas mais generosas que um artista fez.

O poema-despedida ganhou vida em sua publicação póstuma, 1905, na obra Últimos Sonetos. As palavras de Sorriso Interior materializam a dor física e o desligamento da lucidez. O autor se refere à sua própria partida e, ao mesmo tempo, consegue exemplificar de forma genial a libertação espiritual da concretude da carne.

Sei que uma obra jamais deve se limitar ao autor e tampouco ao contexto. A arte transcende a assinatura e se torna algo universal e atemporal. Tudo bem, concordamos até aqui. No entanto, com o perdão dos especialistas, saber que estes versos eram as últimas companhias do autor faz da obra um convite irrecusável ao desconhecido. Cada vez que leio, mergulho de cabeça na beleza triste e angustiante da despedida. É saber como estou, aliás, estamos despreparados para partir ou ficar.

Os versos de Sorriso Interior apresentam a rendição de Cruz e Souza e sua entrega mediante ao abismo da sua própria cova. Sim, um soco no estômago até para os mais durões. Agora, é a minha vez de convidar você a mergulhar nesse infinito desleal.

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Qualquer análise seria superficial e corriqueira como um papo com um desconhecido num elevador. Mesmo assim, arrisco ao apresentar meu ponto de vista reticente.

A predominância de elementos da natureza reforça a sua vitória sobre a falível carne humana. A Natureza, em maiúsculo, humilha e, por mais que seja possível perceber o fim inevitável, existe uma resistência em aceitar a morte de qualquer um que esteja vivo. Entretanto, em um ato de coragem e até mesmo cansaço, o poeta se desprende e aceita a sua renúncia.

O sorriso representa a aceitação e o poema, até então uma fuga, é, na verdade, o ingresso para morte. Cruz e Souza não apenas se rende à despedida eterna, como contempla e medita diante do inevitável. Assume a vida como uma constante ironia, uma vez que viver se resume em se despedir de si e de quem a gente ama.

Em seu último soneto, o poeta, que já encara a morte como única salvação das dores físicas causadas pela tuberculose, traz o seu momento de sublimação. A aceitação do fim deixa de herança versos que revelam a serenidade absoluta, um sorriso justo e interior que ironiza não a morte e, sim, a vida.

Diferente dos outros seres, entre suas cores e espécies, a gente carrega o fardo da consciência. É essa nossa capacidade de olhar para dentro da gente mesmo e inevitavelmente perceber a morte como triunfo da natureza.

Não tem jeito. A natureza sempre ganha.

E essa nossa dificuldade em lidar com a única certeza da vida é um assunto recorrente e inesgotável seja no simbolismo, no divã de um psicanalista ou numa boa conversa de bar. Desculpe pelo meu otimismo fora de hora, mas a morte é mesmo uma inspiração cruel. E não, ninguém está livre disso, nem você, nem eu.

Ao longo dos meus curtos 28 anos, já encarei a morte no reflexo do espelho. Uma dessas despedidas engasgadas foi a da minha irmã mais velha. No auge dos seus 22, ela recebeu um diagnóstico de uma doença rara, Granulomatose de Wegener. Eu, irmã caçula, tinha só 15 anos e não sabia da gravidade por trás desse nome difícil. Na verdade, negligenciei atrás da minha adolescência com medo de ver o óbvio. Um ano se passou e, entre tratamentos e melhoras esperançosas, ela me disse adeus num abraço quente antes de dar entrada ao CTI. Desde que minha irmã se foi, procuro nos escritos dela alguma prova de que ela sabia que iria pra sempre. Frases curtas em recados de geladeira, bilhetinhos nas capas de livro, parece que todas aquelas letras eram despedidas sem fim. Até que o fim chegou e nenhuma dessas lembranças em palavras foram suficientes pra me dizer o que ela sentia e o que sinto hoje.

Tudo isso não cabe na palavra saudade.

A linguagem é mesmo limitada demais para dar nome a tantas coisas que sentimos. Sábios são os simbolistas, sobretudo Cruz e Souza, que provam pra gente que quando faltam palavras, ficam os símbolos, os abraços, as memórias. Não sei o que vou dizer na véspera da minha morte como Cruz e Souza fez, mas quero muito ter dito tudo antes de partir. Assim como minha irmã me disse um “até logo” infinito em doses diárias de amor até o seu último abraço demorado.

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Foto de Leopoldo Rezende


Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis.
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