controverso

Histórias que beliscam

Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis

O sujeito poético de Baudelaire e Mário de Andrade

A crise da modernidade é mergulhar no presente e se deparar com o que já é obsoleto. Estamos em crise. Como a poesia traduz em verso o que a gente insiste em não entender?


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As revoluções políticas e sociais que marcam o fim do Século XVIII anunciam uma nova era. Vivemos um período em que a crise é a protagonista das relações entre homem, mundo e sociedade. Estamos diante da modernidade.

O indivíduo divide o mesmo teto com alguém que ama, mas não são casados. Ele acredita em Deus, entretanto não frequenta a igreja e, tampouco, já leu a Bíblia. Para o homem moderno, as tradições são uma opressão e abandoná-las é uma libertação. No entanto, as tradições protegem, são padrões que enfeitiçam com sua segurança. A crise da modernidade é mergulhar no presente e se deparar com o que já é obsoleto.

Buscamos um ideal de emancipação e, em paralelo, estamos impregnados de incertezas. Essa é a crise impulsionadora da era moderna, quando tal conflito é a sua tradução paradoxal. O poeta-crítico é o personagem que vive esse dilema e revela em seu ofício artístico os reflexos dessa era.

O poeta-crítico é um recorte da modernidade e leva a poesia para além da contemplação. Sua obra artística convida à reflexão por se tratar de uma atividade crítica perante a sociedade e ao próprio fazer poético.

Poeta-crítico considerado como percursor da modernidade, Charles Baudelaire coloca o artista como uma espécie de Deus, aquele que cria, e suas reflexões estéticas abrangeram a música, a literatura e as artes plásticas. Em sua obra As flores do Mal, considerada o marco da poesia moderna, Baudelaire aborda temas que vão do escabroso ao cotidiano cru e coloca o próprio poeta como sujeito poético. Em destaque, o poema “O Albatroz” nos revela a relação entre o poeta, sujeito poético, e a sociedade.

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem

Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,

Que acompanha, indolente parceiro de viagem,

O navio a singrar por glaucos patamares.

Nesse poema, o albatroz é o poeta capturado pelos marujos, em alegoria, a sociedade. O poeta lhes ensina algo e depois lhe é puxado o tapete. A relação trágica entre poeta e mundo é declarada nos versos finais, quando o sujeito poético afirma não fazer parte da terra firme e, quando finca seus pés no chão, padece de um exílio. O poeta é um desajeitado e, como um albatroz, não é uma figura tão bela quando vista de perto.

O Poeta se compara ao príncipe da altura

Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;

Exilado ao chão, em meio à turba obscura,

As asas de gigante impedem-no de andar.

Mário de Andrade, poeta modernista brasileiro, também coloca o poeta como sujeito poético e o cotidiano como o cenário das suas poesias na obra Remate de Males. No primeiro poema do livro, “Eu sou trezentos...”, o sujeito poético se apresenta como múltiplo e, assim como Baudelaire acredita, coloca-se como um Deus.

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Um Deus que, como o Albatroz de Baudelaire, não pode pisar em terra firme. Em um mergulho de si mesmo, o sujeito poético como poeta se declara múltiplo e complexo. É interessante observar que a linguagem adotada por Mário de Andrade é coloquial e faz referências aos elementos cotidianos. Esses recursos fomentam o interesse pelo tempo presente do sujeito.

Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

O cotidiano dos dois sujeitos poéticos das obras de Baudelaire e Mário de Andrade é também um cenário para suas histórias de amor. Nos poemas a seguir, é possível perceber a presença de um amor crível, rotineiro e não idealizado. Em “A uma passante”, o sujeito poético tecido por Baudelaire se apaixona por uma mulher que atravessou seu caminho em uma rua qualquer.

A rua em derredor era um ruído incomum.

Longa, magra, de luto e na dor majestosa,

Uma mulher passou e com a mão faustosa

Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Assim coma nossa rotina, tudo passa, até mesmo o amor do poeta. Esse poema alegoriza a frustração da vida moderna. O sujeito poético é um poeta que se apaixona, renasce em amor e depois morre em instantes, com a mesma velocidade do passar daquela mulher. Vivemos um luto diário.

Um relâmpago e após a noite! - Aérea beldade,

E cujo olhar me fez renascer de repente,

Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!

Não sabes meu destino, eu não sei aonde vais,

Tu que eu teria amado - e o sabias demais!

Mário de Andrade em seu poema “Cantiga do Ai” dedica também a uma mulher que passa pelo sujeito poético. O sofrimento é alimentado no decorrer dos versos e, por fim, o poeta se despede e se resigna em luto.

Foi minha ingrata que por mim passou!

Ai, gentes! eu parto! não sei pra onde vou!

Ai, malvada ingrata que escolhi bem!

Eu sofro e não posso queixar de ninguém!

Tanto em “A uma passante” quanto em “Cantiga do Ai”, o apaixonamento clichê é seguido de morte. O poeta se despede para não prosseguir o seu lamento, assim como “a ingrata” que por ele passou, ele passa.

Ai, pena tamanha que me quebrou!

Adeus! vou-me embora! não sei pra onde vou!

Lastimem o poeta que vai partir,

Moçada se amando no imenso Brasil...

As obras de Baudelaire e Mário de Andrade nos mostra como o poema não se reduz à experiência particular de um sujeito poético. O poema é algo universal. Nós, homens modernos, somos insuficientes por nós mesmos, frustrados e mergulhados em um cotidiano efêmero. A presença do presente, tão marcada no ensaio “O pintor da vida moderna” de Baudelaire, também endossa os poemas de As Flores do Mal e Remate de Males, o que importa é o que acontece naquele instante.


Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis.
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