controverso

Histórias que beliscam

Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis

Olhar para trás é caminhar para frente

Precisamos de fôlego para encarar o espelho e envelhecer. E ninguém encara tão bem o tempo quanto o poeta. Contemporâneo por essência, o “fazedor de versos” consegue se deslocar do seu presente e mergulhar na crise entre o que passou e o que virá. Estamos prontos quanto ele? Não. No entanto, a poesia “Pai” de Armanda Freitas Filho traz um pouco da coragem que a gente precisa.


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No título, um paradoxo. Não poderia ser diferente para tratar do desejo e do tempo de um poeta. Contemporâneo por essência, ele consegue mostrar aos demais a treva do próprio tempo através do seu fazer artístico, a poesia. Explico. O presente é como uma fratura na linha do tempo, uma rachadura. A natureza do presente não é a mesma do passado, tampouco a do futuro. No agora, a espinha dorsal do tempo está quebrada, rachada, uma parte já se foi, a outra ainda virá.

O presente é a rachadura que rompe e, paradoxalmente, une as duas partes temporais.

Ser verdadeiramente contemporâneo é se deslocar do tempo, tomar distância do próprio presente. É uma singular relação com o tempo e o poeta assume uma capacidade especial de se distanciar. O poeta é capaz de perceber esse precipício contrário. Enxerga o que está oculto para os outros.

Pois bem, contemporâneo é sempre em relação a alguma coisa. Aquilo que coincide com o tempo vivido hoje. Então, o poeta é contemporâneo ao quê? A quem?

Antes de ser poeta, é preciso ser um leitor de poesia. O leitor de poesia se torna contemporâneo àquilo que lê. Distante do seu tempo, observador analítico dos seus “iguais”, o poeta estuda as tradições até mesmo para poder quebrar as regras.

Gênio? Seria o poeta uma espécie de gênio? Na modernidade, o tempo contemporâneo é um novelo. É difícil conceder o presente em uma linha, pois se trata da convivência de muitos tempos em um só hoje. Telefone celular coexiste com o fixo. Os livros digitais vivem em harmonia com as páginas impressas.

E nós?

Vivemos um período em que a crise é a protagonista das relações entre homem, mundo e sociedade. Estamos diante da modernidade.

Estamos em crise.

Armanda Freitas Filho, poeta brasileiro com sua primeira obra publicada em 1963, escancara as gerações em conflito em seu poema de título intrigante: Pai. Publicado em sua obra Cabeça de Homem, o poema traz o abismo ente passado e futuro na sua relação mais derradeira, quando pai e filho personificam a desordem da contemporaneidade. Logo no primeiro verso, o poeta revela o embate entre origem, presente e futuro.

Pai

Me arranco do seu espelho

gago até a medula

e paro

sob o peso de uma dose

subclávio, para cavalo

com nossa vida inteira

exposta a tudo.

A campainha agulha

bate, nas paredes vazias

sem ramal

sem rumo algum.

“Eu vou doer/eu estou doendo”

e o pensamento ferido

prefere acelerar

para não parar na dor

e toma velocidade

a anestesia

da mesma paisagem

do dia aberto e igual

sem horas.

Louco tempo depois

logo após as lágrimas

começa o deserto.

Armando Freitas Filho é um poeta artesão. Em suas obras, percebemos as palavras esculpidas corpo a corpo, quando pretende extrapolar as barreiras da linguagem pelas escolhas fonéticas. Ele é um escultor das sílabas. Assim, seus versos passam pelos sentidos do corpo humano.

Em suas poesias, assume como tema predominante a sexualidade, o desejo, e sua obra pretende dar forma ao sexo de uma maneira menos metaforizada. No seu fazer poético, existe um enfrentamento mais corajoso e menos conceitual. No entanto, em Pai, o sexo não está em cena. O conflito revelado ainda no primeiro verso é outro. Ao afirmar ao seu genitor “me arranco do seu espelho”, o poeta proclama a sua libertação da sombra do passado. Os versos apresentam um pai em agonia e a morte, por fim, a ruptura do tempo.

“Eu vou doer/eu estou doendo”

A relação entre o tempo e o poeta é eternizado nos versos pela descrição do luto.

Ao enterrar o pai, o filho envelhece.

O poeta para no tempo, mas não a sua obra. Permito-me fazer um paralelo entre a morte dos que amamos e a poesia. A natureza sempre ganhará da carne, assim como o tempo sempre vencerá o poeta que, por sua vez, não é imortal. Contudo, as lembranças daqueles que partiram são eternizadas nas memórias dos que ficaram, assim como o fazer poético é eternizado na tradição, na sua fresta da espinha dorsal do tempo, na sua contemporaneidade.

“Que horas são? Perguntaram ao poeta. E ele respondeu com um curioso: a eternidade.”

Louco tempo depois

logo após as lágrimas

começa o deserto.


Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis.
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