controverso

Histórias que beliscam

Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis

Nem envelhecer, nem morrer, a vida não nos prepara para o óbvio

É assim. As olheiras denunciam anos arrastados dormindo tarde e acordando cedo. Enquanto o despertador interrompe aquele sonho maluco que amaria descobrir o final, a caixa de e-mail recebe mais alguns recados de responsabilidade. Ser adulto é se sentir um adolescente com as mesmas inseguranças, mas com alguns quilos a mais?


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Não sei você, aí do outro lado da tela, mas os quase 30 me pesam. Não pela idade, bobagem, mas por assistir à vida passar, correndo com os cabelos soltos, e eu dando um tchauzinho de miss. O espelho me contou sobre novas rugas e uma papada embaixo do queixo que já dei até nome. A promessa de fazer alguma atividade física regular está prestes a comemorar o 10º ano novo. O corpo parece roupa surrada enquanto eu ainda me sinto nos preparativos para o baile de formatura. É isso?

A adolescência já passou, no entanto, continuo achando Chaves engraçado e, vez ou outra, preferindo uma comédia romântica a um Telecine Cult. Me julguem! Fato é que até os 20 e poucos parece que a vida terá uma grande virada e... nada acontece. Você arruma um emprego, com sorte (leia-se oportunidade) se forma na faculdade, paga aluguel, transa sem camisinha, fica com medo de engravidar, arruma um amor, leva um pé na bunda, faz uma viagem aqui outra lá, faz novos amigos, sente saudade, chora escondido no banheiro do trabalho, quer pedir demissão, mas pede aumento, come chocolate depois do almoço com culpa, dorme às 21h numa sexta-feira de verão, tira férias, faz planos, faz dieta, faz, faz, faz. Não sei se perdi o bonde da virada, ou se deixei o ponto passar, continuo nesse ônibus lotado de dúvidas vendo as paisagens borradas atrás do vidro. De repente, ponto final.

Alguém desce. É o fim da linha. Corro pra me despedir, mas as pessoas vão embora, assim, simplesmente. Viver também é sentir saudade, mesmo que o sentimento não caiba nesse nome.

A gente nasce sabendo dessa contagem regressiva, mas segue esperando mais um e-mail chegar, mais um ano virar, mais uma vez o despertador tocar. Não se engane. As contas chegarão até o fim do mês, mesmo que não seja dia 30, mesmo que não seja aos 30.

Contudo, se é pra seguir viagem, que seja com músicas animadas no fone de ouvido e não com uma toada pessimista. Se o espelho me contou das rugas, faça o favor de me contar das cicatrizes das minhas travessuras de infância, das minhas memórias que serão sempre meus filmes preferidos.

Envelhecer é colecionar.

E morrer é tão óbvio que dispensa preparo. Se não estamos no controle, então, finjamos.

*Fotografia: Leopoldo Rezende


Luana Simonini

A vida segue pela contramão do óbvio e, desses nossos contrários, nascem histórias incríveis.
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