conversa literária

Porque Literatura é assunto para todo dia...

Pamela Camocardi

Professora por vocação, escritora por paixão e teimosa por natureza. Criadora e colunista do site o site ¨Entrelinhas Literárias¨, costuma transformar em textos palavras que, nem sempre, deveriam ser ditas.

Assim como o amor, Dom Quixote só recuperou a razão no momento da morte

Sanidade colocada em xeque, preconceito e adjetivos que nunca mereceu. Dom Quixote, o mais famoso personagem de Cervantes teve sua realidade analisada, julgada e sua forma de viver submetida às mais diversas opiniões. A questão é: até que ponto é loucura um homem viver seus sonhos?


O clássico tornou-se um dos livros mais famosos do mundo. Considerada a grande criação de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha é um livro surpreendente, irônico e extremamente emocionante. O livro representa a luta de um homem em viver como sempre sonhou, embora isso tenha lhe custado a injusta fama de "insano". 1736d3b009e2e6dd129bfa360fbc4cc5_1_jpg_640x480_upscale_q90.jpg

O enredo é conhecido: o protagonista da obra é Dom Quixote. Um pequeno fidalgo cujo passatempo favorito era a leitura de livros de cavalaria. Na sua obsessão, acreditava literalmente nas aventuras escritas e decide tornar-se um cavaleiro andante. Suas viagens sucedem-se sob a alucinação de que estava vivendo na era da cavalaria; pessoas que encontravam nas estradas pareciam-lhe como cavaleiro em armas, damas em apuros, gigantes e monstros; até moinhos de vento na sua imaginação eram seres vivos. Combatendo as injustiças, o personagem enfrenta situações penosas e ridículas, mantendo, porém, uma figura nobre e hilária. Ao final, Dom Quixote volta à razão, renuncia aos romances de cavalaria e morre como piedoso cristão.

Cervantes construiu personagens distintos com o cavaleiro e seu escudeiro. De um lado o sonho e a “loucura” de Dom Quixote. O personagem idealizava e vivia a vida de seus heróis como sua, enquanto Sancho Pança representava a razão da amizade. Segundo Cervantes, Pança era como "Homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha". É o representante do bom senso e é para o mundo real aquilo que Dom Quixote é para o mundo ideal. Amigos, parceiros de caminhada, mas tão diferentes quanto a água e o vinho e, por essa razão, o leitor encontra-se em um duelo intelectual: dar razão aos conselhos de Pança ou apaixonar-se pelo modo de viver de Dom Quixote.

Louco. Esse era o adjetivo mais atribuído ao personagem. A pergunta que se faz é até que ponto o cavaleiro merecia esse título? Um homem apaixonado que realizava seus sonhos, indiferente dos que pensariam dele. Andava na contramão do mundo e da opinião alheia. Era único, em atitudes e caráter. Enquanto seu fiel escudeiro não tinha projeto de vida algum, apenas acompanha seu amigo e tentava a todo custo trazê-lo à realidade. No primeiro capítulo do livro Dom Quixote apresenta-se: “afinal, rematado já de todo juízo, deu no mais estranho pensamento em que nunca jamais caiu louco algum do mundo, e foi: parecer-lhe conveniente e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras(...) desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama” (pág. 30).

O julgaram louco. Mas o que é ser louco? Viver sua vida como sempre sonhou? Permitir que a imaginação domine suas atitudes como forma de amenizar a dor da realidade? Acredito, caro leitor, que Dom Quixote nunca esteve louco. Simplesmente foi julgado assim por todos aqueles que, sensata e racionalmente, consideram a vida uma agenda programada e vivem os minutos previamente agendados.

Livre. Assim era Dom Quixote. Não curvava-se às fatalidades da vida, encarava-as. Para ele, o sonho e a utopia eram a motivação para continuar e o tornavam um homem melhor. Sabia que o oposto do entusiasmo era o autodomínio e não estava disposto a pagar esse preço. Para ele, bastava a vida estar no controle de Deus e ele fora de si, intensificando suas atitudes na vida que escolhera viver.

Em um único momento, Dom Quixote, voltou à realidade para falecer e, talvez, deixar uma mensagem (sarcástica e direta) ao leitor: “Por isso costuma-se dizer que cada um é artífice da sua ventura, e eu o fui da minha, mas não com a prudência necessária (...) Atrevi-me, fiz o que pude, derribaram-me, e, ainda que perdi a honra, não perdi nem posso perder a virtude de cumprir a minha palavra” (Parte II, Capítulo LXVI, pág. 576).

É, senhor cavaleiro, admiro (tardiamente) a sua coragem e envergonho-me do comodismo humano...


Pamela Camocardi

Professora por vocação, escritora por paixão e teimosa por natureza. Criadora e colunista do site o site ¨Entrelinhas Literárias¨, costuma transformar em textos palavras que, nem sempre, deveriam ser ditas..
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