conversa literária

Porque Literatura é assunto para todo dia...

Pamela Camocardi

Professora por vocação, escritora por paixão e teimosa por natureza. Criadora e colunista do site o site ¨Entrelinhas Literárias¨, costuma transformar em textos palavras que, nem sempre, deveriam ser ditas.

Sofia tinha um mundo. A filosofia, outro

"O fato de o mar estar calmo na superfície, não significa que algo não esteja acontecendo nas profundezas."


“O Mundo de Sofia” é considerado um livro infanto-juvenil, mas ouso dizer que é leitura para todas as idades e o motivo é simples: a filosofia ali é encontrada é apresentada de forma objetiva e simples. Desde a narração até as personagens, o romance desliza entre o lúdico e o real de forma leve e sensata.

O romance filosófico conta a história de Sofia Amundsen. Prestes a completar seus quinze anos, passa a receber bilhetes e cartões anônimos com conteúdos estranhos:"quem é você? De onde vem o mundo". Assim começa seu curso de filosofia com um professor chamado Alberto Knox. Ele a levará em uma viagem pelo mundo da filosofia que vai dos pré-socráticos até os filósofos atuais. Com comentários de Platão, Aristóteles, Descartes, Locke, Berkeley, Kant, Hegel, Marx, Freud e muitos outros, o livro permite que várias escolas filosóficas também ganhem destaque.

O romance possui enredos paralelos: ao mesmo tempo em que Sofia tem aulas de filosofia com Alberto mostrando as grandes perguntas que os filósofos vêm fazendo desde o começo da humanidade, a protagonista recebe cartas e postais bem estranhas, enviados do Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Moller Knag, garota a quem Sofia também não conhece.

Pronto! O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste romance. A partir daí o leitor começa a fazer seus questionamentos sobre a existência humana e o que deve ser priorizado na vida. De “lição” em “lição”, o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, a ponto de ter os mesmos questionamentos da protagonista.

Jostein Gaarder foi inteligentíssimo na construção dos detalhes do romance. Através de um questionamento permeado por um constante diálogo com Sofia, nos mostra que o que acontece no mundo é fruto de nossas atitudes. A história é feita por reflexões, diálogos e ações. O autor vai mostrando, através da História da Filosofia, que para interferirmos em nossa realidade devemos estar sempre questionando os fatos.

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“Sofia colocou os óculos. Tudo à sua volta ficou vermelho. As cores claras ficaram vermelho-claras e as escuras vermelho-escuras. - O que você está vendo? - O mesmo de antes, só que vermelho. - A explicação para isto é que as lentes dos óculos determinam o modo como você percebe a realidade. Tudo o que você vê é parte do mundo que está fora de você mesma; mas o modo como você enxerga tudo isto também é determinado pelas lentes dos óculos. Você não pode dizer que o mundo é vermelho, ainda que neste momento ele pareça vermelho.”

O valor das pequenas coisas e a importância de priorizar a vida é colocada em xeque todo o tempo: “Se nunca ficássemos doentes, não saberíamos o que significa a saúde. Se nunca tivéssemos fome, não experimentaríamos a agradável sensação de saciá-la depois de uma refeição. Se nunca houvesse guerras, não saberíamos o valor da paz, e se nunca houvesse inverno, não poderíamos assistir a chegada da primavera. Tanto o bem quanto o mal são necessários ao todo.”

Acredito que a intenção de Gaarder ultrapassou a filosofia. O autor queria (e conseguiu) criar no leitor uma reflexão sobre a própria existência e sobre seu papel no mundo, lembrando sempre da insignificância do homem diante da grandiosidade da vida: "mas a vida é triste e solene. Somos deixados num mundo maravilhoso, encontramo-nos aqui com outras pessoas, somos apresentados uns aos outros e caminhamos juntos durante algum tempo. Depois nos separamos e desaparecemos tão rápida e inexplicavelmente quanto surgimos."


Pamela Camocardi

Professora por vocação, escritora por paixão e teimosa por natureza. Criadora e colunista do site o site ¨Entrelinhas Literárias¨, costuma transformar em textos palavras que, nem sempre, deveriam ser ditas..
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