conversa literária

Porque Literatura é assunto para todo dia...

Pamela Camocardi

Professora por vocação, escritora por paixão e teimosa por natureza. Criadora e colunista do site o site ¨Entrelinhas Literárias¨, costuma transformar em textos palavras que, nem sempre, deveriam ser ditas.

“A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”

“Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem” (José Saramago).


Em 1995, a literatura ganhava um dos maiores presentes para o intelecto humano: o livro “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago.

Longe, muito longe mesmo, de se tratar da cegueira física, Saramago usava suas personagens para relatar um assunto polêmico e, infelizmente, atual: a cegueira moral.Denominada de “cegueira branca’ pelo próprio autor, “Ensaio sobre a Cegueira” discorre sobre assuntos polêmicos e delicados, já que trata da “patologia”, como uma das piores doenças humanas.Saramago utiliza-se do termo “cegueira branca” para representar o egoísmo, a imparcialidade, o medo, a covardia, a raiva e outros sentimentos que cegam o ser humano e o levam à perdição. O livro é tão forte e tão direcionado aos aspectos morais da sociedade que as personagens não possuem nomes, características físicas nem comportamentais.

ensaio-sobre-a-cegueira-destaque-740x451.jpg

Logo com a primeira personagem do livro, que ficou cega após um acidente de automóvel, Saramago dá um tapa na cara dos leitores apáticos: “de repente a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta”. No decorrer do livro, a situação piora. Com pitadas de sarcasmo e explícita indignação diante do comportamento passivo do ser humano, o autor lança fortes comentários que levam o leitor a refletir sobre as próprias ações: “O medo cega (…) são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”(…) “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Saramago joga com a diferença entre as palavras “ver” e “olhar” e isso é proposital. O “olhar” é visto como o ato de enxergar o que está explícito (A luta pela comida, a violência imposta pelo mais forte, a ausência de pudor justificada pela nulidade do sentido visual, a tirania do governo) e o ato de “ver” e “reparar” refere-se a se posicionar diante dos fatos e fazer algo para mudar o quadro triste e degradante da sociedade. “Se não formos capazes de viver como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.”

Saramago entende a cegueira como alienação do homem em relação a ele mesmo. No livro, quando a cegueira branca se torna uma epidemia, os problemas da sociedade ficam expostos e aumentam notavelmente, já que ninguém “enxerga” para mudar. Acontece assim: as regras da civilização são quebradas e o instinto de sobrevivência toma conta do homem, constatando o velho ditado, “quem pode mais chora menos”.

Agora, sejamos sinceros: em relação a cegueira moral da sociedade atual, o que mudou de 1995 para cá? Aceita-se, passivamente, a violência psicológica e abusiva, dentro de relacionamentos amorosos, profissionais e familiares, só para “não criarem atritos”. Aceita-se a violência social, desde que ela não nos atinja. Finge-se não ver os abusos que as crianças sofrem, para que “famílias” não sejam destruídas”. Será que, nós também, não fomos infectados pela cegueira moral e fingimos não perceber?

O livro leva o leitor a uma autocrítica e a uma reflexão sobre até que ponto estamos cegos ou somos maldosos. “-É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.” Até que ponto aguentaremos a violência, os roubos, a tirania como situações normais? Até quando seremos passivos diante da fome alheia? Até quando nossos braços ficarão cruzados sabendo que nossas crianças estão sendo abusadas e maltratadas? Até quando aguentaremos relacionamentos abusivos dentro da própria casa? “Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira”.

“Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem” (José Saramago).

Imagem de capa: cena do filme “Ensaio sobre a Cegueira”


Pamela Camocardi

Professora por vocação, escritora por paixão e teimosa por natureza. Criadora e colunista do site o site ¨Entrelinhas Literárias¨, costuma transformar em textos palavras que, nem sempre, deveriam ser ditas..
Saiba como escrever na obvious.
version 12/s/literatura// @obvious //Pamela Camocardi