Marcelo Augusto Sapuppo

CIAO POETA: DEZ ANOS SEM SERGIO ENDRIGO - PARTE 1: AS CANÇÕES POLÍTICAS

Em setembro completou-se dez anos da morte de Sergio Endrigo. Este artigo tem como objetivo uma breve reflexão sobre seu pensamento político a partir de algumas de suas lindas canções.


SE_Logo_Index16M.gif Sergio Endrigo ficou conhecido como um dos mais importantes cantautori italianos, isto é, o músico autor. Entretanto foi rotulado como cantor romântico algo que não lhe agradava. Uma leitura mais atenta de sua obra e podemos contatar que sua enorme discografia teve três temáticas centrais: as músicas de amor, aquelas voltadas ao público infantil e as de cunho político.

Teve seu momento mágico durante toda a década de 60 e parte dos anos 70. Viveu certo ostracismo nos anos 80 e apesar de seu reconhecimento público permanecer intacto, terminou seus dias criticando a indústria do entretenimento que passou a dominar o cenário musical impondo padrões e valores, ou seja, tirando o poder de liberdade artística e criativa dos cantautori.

Considerava o Brasil seu segundo país e pretendia terminar seus dias residindo por estas paragens. Gostava de dizer em seus shows que fazia por aqui que levou para a Itália um papagaio brasiliano, pois gostava muito de ouvir nossa língua, mas, para sua decepção, a ave quando chegou em terras europeias passou a falar em italiano. Sua paixão surgiu com a bossa-nova e se estendeu com as parcerias que realizou com Vinícius de Morais, Toquinho, Sérgio Buarque de Hollanda, Roberto Carlos, Geraldo Vandré. Chegou inclusive a gravar um disco com sambas cantado em português e lançado apenas no Brasil.

Dizia ser um homem de sinistra, de esquerda. Votava na esquerda italiana e não se afastava dos debates políticos e problemas sociais que estavam ao seu redor. Era um homem em sintonia com seu tempo, que persiste em ser também o nosso tempo. Utilizou de metáforas, muitas delas com elementos românticos, como os ciclos da natureza, para nos fazer refletir sobre o mundo em que vivemos e, mais do que isto, a nos colocar diante da necessidade de tomarmos posições políticas. Não havia em seu pensamento uma pretensa e hipócrita neutralidade. Transformou a arte das suas letras em poesias políticas, mas sem ser panfletário ou dogmático.

Elogiou Cuba com seu idealismo revolucionário e a construção de uma utopia. Comecemos com um trecho da belíssima Anche’io ti ricorderò (Eu também me lembrarei, de 1968), onde um ano após a morte de Che Guevara na Bolívia, o homenageia de forma tão tocante: a melancolia e a certeza da morte que se aproximava para aquele que hoje é considerado um “santo” para alguns e um “assassino” para outros, mas que aqui Endrigo nos coloca diante de um ser humano:

“(...) Era meio-dia e você não estava lá. Um menino chorava em silêncio. Lá fora estava o sol ensolarado e cheiros de calor. E velhas palavras de soldados. Hoje você se lembra do seu povo. Cuba vive sob o sol. A serra que te viu vencedor. Adeus, adeus. Ninguém irá se esquecer. Adeus, adeus. Eu também me lembrarei”.

Também soube criticar a União Soviética com sua burocracia que enterrou os sonhos e esperanças de muitos da sua geração, e o fez antes da queda do muro de Berlim em 1989, em Se il primo maggio a Mosca (Se primeiro de maio em Moscou, de 1981) diz:

“(...) Se no primeiro de maio em Moscou fosse verão, quanto sol e quantas flores pelas estradas embandeiradas (...) e não chapéus cinza na cabeça para fingir que é festa (...) importante é saber se resta esperança para outras primaveras”.

Em suas canções sempre há uma melancolia latente, um desejo de algo que sempre nos escapa, em sua livre versão de "Pra não dizer que não falei das flores" de Geraldo Vandré / Camminando e cantando, (1968) um verso singelo nos diz muita coisa sobre sua visão de mundo:

“(...) A esperança é uma flor, mas frutos não lhe dá”.

As migrações tão caras aos italianos como para os brasileiros, a busca por melhores condições de vida, os regionalismos, os sonhos e as ilusões de um povo tão sofrido, tudo isso foi magistralmente relatado em Il treno che viene dal sud (O trem vindo do sul /1966). Ao contrário daqui, os sulistas camponeses indo para o norte industrializado. No final percebe-se que a ilusão persiste:

“(...) O trem vindo do sul, não trás apenas Marias. (...) trás pessoas nascidas entre as oliveiras, trás pessoas que irão esquecer o sol (...) no trem vindo do sul os homens tem a esperança no bolso, mas sentem no coração que esta nova e bela sociedade, esta nova grande sociedade, não se fará, não se fará”.

Como todo poeta, a introspecção sinaliza o caminho a se seguir, que nunca deixa de ser um ato político. Assim estão duas canções que tratam de um mesmo contexto: o desejo de mudança e a enorme dificuldade ao se percorrer este trajeto.

Io che vivo camminando (1972): “(...) Eu que vivo caminhando. Hoje estou aqui por você. O horizonte claro acalma o mar. A lua é cheia de luz como o meu desejo esta noite. Quero cem mãos para me prender à vida. Quero no seu jardim provar a paz. (...) As guerras acabaram. Acabaram para sempre nesta noite”.

Dove credi di andare / Onde você está indo (1967): “(...) O tempo que passou não voltará mais. O mundo não é maior que esta cidade. As pessoas se enjoam toda noite como nós. Aonde você pensa que vai se não tem amor dentro de você? O mundo, sabe, não irá te ajudar. Aonde você pensa que vai se todos seus pensamentos estão aqui? Como pensa amar? Com tantos navios que partem, nenhum te levará longe de você”.

A política para Endrigo como um eterno ir e vir, a angústia que antecede a tomada de decisão, a sociedade que é a mesma em todos os lugares, as origens culturais, as raízes que tanto estão presentes no íntimo das pessoas, a dificuldade em mudar o modelo social vigente, estes são alguns dos temas intrínsecos nestas canções.

Em La voce dell’uomo (A voz do homem / 1974), um hino à liberdade. Talvez sua declaração do homem e do cidadão. Uma crítica feroz, sem meias palavras da exploração e do abandono daqueles que sofrem perseguições políticas, uma canção belíssima e atemporal. Humanismo e utopia: a fé no indivíduo que enfrenta as adversidades e dificuldades de um mundo onde a injustiça sempre estará presente, independentemente do momento histórico vivido ou a ser vivido.

“(...) Ouvi o grito do homem que canta por fome, por raiva e amor. A voz do homem, quando canta eu a escuto.

Ouvi fanfarras de guerra e passos em cadência pelas ruas embandeiradas, as canções dos soldados, de triunfo, de dor. Quem vence e quem perde!

(...) Ouvi a voz do homem também quando é violenta e mata o irmão. A voz do homem, quando falo, me responde.

É mais forte do que a tortura e a injustiça, das fábricas e dos tribunais, mais forte do mar e do trovão, mais forte do terror, mais forte do mal.

É mais forte a voz do homem, mais forte do que o vento, da vida e do tempo. A voz do homem, quando chama, lhe respondo”.

Para finalizar, Non ammazzate i bambini (Não matem as crianças / 1977) um olhar para a infância onde as crianças que vivem da esperança alternam “o riso e o choro”, que confundem “o bem e o mal”, que imaginam “grandes aventuras” e “guerras heroicas”, mas que Endrigo faz um apelo para que não apressem o fim desta infância onde suas vidas serão destruídas pela poluição das fábricas, morando nos “buracos de subúrbio” (favelas), portanto, não matem as crianças!

“(...) Não matem as crianças. Qual é a pressa? Desliguem mais tarde. Por trás das paredes onde morreu o sol, com o tédio dos grandes buracos de periferia, nas fábricas de fumo e veneno e também nos campos de batalha, tirar todo o seu futuro, roubar a alegria e o sorriso, mas não matem as crianças”.

Esta foi uma pequena amostragem do enorme talento deste poeta chamado Sergio Endrigo. Nos próximos artigos uma análise de suas músicas infantis e românticas.

Fonte:http://docplayer.it/1643808-Universita-degli-studi-di-napoli-federico-ii.html.


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