Marcelo Augusto Sapuppo

CIAO POETA – DEZ ANOS SEM SERGIO ENDRIGO: PARTE 2 – AS CANÇÕES ROMÂNTICAS

Em um show realizado no Piccolo Teatro di Milano, em 07 de março de 1970 Sergio Endrigo disse o seguinte: “Tenho cantado músicas de amor muito tristes, e de resto, o amor se canta quando se esta triste, desiludido, quando se tem um grande problema a ser resolvido, quando o amor é feliz não se canta mais, se é feliz e basta. Não quero dizer que a felicidade é estúpida, mas...”.


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O cantor que não gostava de ser rotulado de romântico expressou como poucos a elegância da música romântica. Não há em suas canções pieguices seja no ritmo melodioso como principalmente nas letras. Não por acaso esteve ao lado de grandes artistas compositores e poetas de várias nacionalidades como brasileiros, chilenos, cubanos, uruguaios.

Muito difícil fazer uma breve seleção de canções românticas de Endrigo, optei por selecionar algumas que expressam sentimentos difusos em relação ao amor.

Lontano dagli occhi (Longe dos olhos / San Remo / 1969): “O que é? Tem no ar algo de frio que não é o inverno / O que é? / Esta noite os meninos na rua não jogam mais / (...) Agora sei o que é este amargo sabor que fica de ti / quando tu é distante e não sei onde estás, o que fazes, onde vais / E sei porque não consigo mais imaginar o sorriso que tem nos olhos teus quando não estás comigo / Longe dos olhos, longe do coração / E tu estás longe de mim / (...) Para um que volta e te leva uma rosa mil se esqueceram de ti / longe dos olhos, longe do coração / e tu estás longe, longe de mim".

Na época do lançamento desta música um comediante italiano a parodiou: vestido de preto a cantou chorando. Endrigo perdeu a compostura e prometeu “quebrar a cara” do oponente caso o gracejo se repetisse. Não houve repetição, mas é evidente assim como na política a melancolia e o sentimento de abandono. O amor perdido e distante, que nos corrompe a memória com o esquecimento do que é belo: o sorriso de quem nos abandonou.

Com maestria homenageia a primeira companhia que, na vida de tantos homens foi com uma prostituta. Em um mundo com tanto preconceito reconhece aquela que “pouco recebeu”, mas que foi tão importante. Entretanto, chega a cobrança: “pra onde cai a flor da juventude”?

La prima compagnia (A primeira companhia / 1972): “Se há quem tanto deu e pouco recebeu, tu não és certamente, amiga minha / Eu esta noite bebo a saúde da minha primeira companhia / (...) Amor fácil de uma hora, onde não arriscas a tua vida. Há um pouco de felicidade e nunca de dor, fechas a porta e acabou / (...) A coisa valia bem a despesa e o medo e o arrependimento. De noite os outros presos em casa e nós indo contra o vento / Mas quando as encontro na rua me dão um pouco de tristeza. E penso sempre pra onde cai a flor da juventude / (...) Eu esta noite canto e cumprimento aquela minha primeira companhia".

Em seu disco Il giardino di Giovanni, relembra sua infância e juventude. Nesta faixa mistura a confusão do amor com o ato circense, o mágico e ilusionista. Recortar e juntar a pessoa física como metáfora dos sentimentos, como se estes pudessem ser juntados e recolados como num ato mágico. Mas, também nos avisa que não adianta nos dizerem se o que a amada sente por nós é verdadeiro ou não, pois não iremos acreditar. Entretanto, o mais importante é que da dúvida se é amor já sabemos a resposta: sim, é amor!

Questo é amore (Isto é amor / 1988): “Amor se você tivesse um sorriso por ora, como a mulher de um mágico / Talvez eu a amaria mais ou em dois eu a cortaria / Como faz o ilusionista / E que em seguida coloca tudo no lugar / Melhor não arriscar, não brincar / (...) Se amor com dúvida é verdadeiro amor / Isso é amor / Procurar uma alma e encontrar uma engrenagem / Certamente é preciso coragem / Para olhar para as coisas / é como ir para o fundo do mar / É como ir para o fundo do mar / Eu vou levar para a loja de penhores as suas lágrimas / Se elas são verdadeiras ou de crocodilos / me saberão dizer / E ainda assim eu não vou acreditar / (...)Se amor com dúvida é verdadeiro amor / Isso é amor”.

Impossível falar de Endrigo sem comentar as duas canções mais conhecidas dele aqui no Brasil: Io che amo solo te (Eu que amo só você / 1963) que estourou nas paradas brasileiras e Canzone per te (Canção para você / 1968 ) grande vencedora de San Remo com Roberto Carlos a interpretando.

“(...) Tem gente que ama mil coisas / E se perde, pelas estradas do mundo / Eu que amo só você / Eu pararei e te presentearei / Com o que resta da minha juventude / Eu tive só você / E não te perderei / Não te deixarei para buscar nova ilusão”.

Em Io che amo solo te, o eterno medo da perda. Ela já faz parte do meu mundo, mas... e agora? Como manter a chama do amor? Sendo fiel e deixando como presente um dos bens mais preciosos: a própria juventude, que desde os gregos é sempre fonte simbólica do eterno amor.

Já em Canzone per te não há o medo da perda, mas sim a dor da perda e o desespero de pensar na solidão, a desesperança. Bem masculino, o orgulho da posse da amada enquanto a alegria feminina de estar com o homem que ama. Quer acreditar em encontrar outra, mas esta preso, ainda vive no relacionamento anterior, quer se repetir, quer transferir a outrem o seu sonho que foi destruído.

“A festa apenas começou e já acabou / O céu não está mais conosco / O nosso amor era a inveja de quem está sozinho / Era o meu orgulho, a tua alegria / Foi tão grande que não sabe morrer / Por isso canto e canto a ti / A solidão que tu me deixaste eu a cultivo como uma flor / Quem sabe se acabará / Se um novo sonho a minha mão pegará / Se a uma outra eu direi as coisas que dizia a ti / Mas hoje devo dizer que te quero bem, por isso canto a ti / Foi tão grande que não sabe morrer / Por isso canto e canto a ti”.

Uma pequena obra-prima: Erano per te (Eram pra você / 1971):

“Eram pra você / As rosas que plantava / As histórias que inventava / As noites que sonhava / As canções que cantava / Eram pra você / O mar quando é bom / O trigo já maduro / Pássaros com as asas abertas / Eram pra você / Eu que te procurava / Eu que já te amava / Eram pra você / A rosa que morria / A história que acabava / A noite que te odiava / A pior canção / Eram pra você / O mar quando está fechado / O céu quando está escuro / O pássaro prisioneiro / Eram pra você / Eu que já partia / Eu que não te amava / Não te amava”.

Pode existir melhor explicação para a dualidade do amor e dos relacionamentos? O lado bom e ruim das coisas e da vida, o ir e vir da melodia com suas imagens naturais que tão bem expressam os sentimentos das pessoas.

Para finalizar uma canção que é impossível deixar alguém indiferente tamanha sua pujança: Le parole dell’addio (As palavras de adeus / 1971):

“As palavras de adeus são falsas como de Judas / São falsas como a fumaça que se perde no vento / São de vinho amargo / De frutas tantas vezes caídas / Apodrecendo na grama / As palavras de adeus.

As palavras de adeus são o sal na ferida / Invenções de medo em noites solitárias / São de vozes perdidas / De estradas tantas vezes percorridas / Que te trazem pra dentro / As palavras de adeus.

Dissemos palavras de amor / Brilhando como estrelas / Brilhando no céu do sul/ Fresca como a água no verão / Tomada depois do deserto / Deixada presa e suspensa / No sono daquela noite / Suspenso como estrelas no ar / Não fale meu amor / Veja, já falei eu”.

As despedidas são sempre falsas porque ao final o que prevalece são as palavras de amor, ou como diz o eterno poeta da canção italiana, “a água fresca tomada depois do deserto”.

Salve Endrigo! Ou como diria seu amigo poetinha Vinicius de Moraes: “Sarava Endrigo”!


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