Marcelo Augusto Sapuppo

Reflexões acerca de Chaplin e a contemporaneidade em Tempos Modernos

Charles Chaplin foi mais que um comediante, apesar do senso comum vê-lo como principalmente um ingênuo comediante, há nele e em suas atuações uma dimensão política que consolida e até mesmo supera seu papel de artista. Em Tempos Modernos sua visão de mundo caracteriza nossa sociedade industrial, mas os ecos de sua obra quase oitenta anos depois ressoam em nossa maneira de ver, refletir e compreender a pós modernidade.


TEMPOS MODERNOS - 1.jpg

TEMPOS MODERNOS / MODERN TIMES Produção: EUA / 1936 Direção: Charles Chaplin Elenco: Charles Chaplin / Paulette Goddard Duração: 83 min.

Tempos Modernos é o ápice criativo do maior gênio que o cinema conheceu. Todo seu conhecimento, sua técnica, caráter inovador e domínio da arte que o consagrou estão presentes de maneira total e absoluta: a pantomima levada ao extremo, o forte e absoluto reinado do drama social, o apelo ao sentimental e a irreverência e ironia de Chaplin em sua primeira participação sonora transformaram Tempos Modernos em um clássico absoluto às vésperas de completar seu octogésimo aniversário.

Chaplin ousou: criticou de maneira jocosa, irônica e por vezes cínica, o que a sociedade norte-americana defende até hoje como o que tem de mais valioso que são seus princípios de liberdade, trabalho e ascensão social, o famoso American way of life. Em uma sociedade onde o sucesso é ícone de ascensão social, onde supostamente as oportunidades de conquista profissional e financeira são para todos, onde “o céu é o limite” para se obter os bens materiais, transformar um “vagabundo” em herói, sem dúvida alguma não poderia colocá-lo como uma unanimidade. Para muitos, o simpático Carlitos era uma ameaça.

A arte cênica ao longo do tempo sempre foi vista como um importante elemento de conscientização e transformação social. Da Antiguidade temos o legado das famosas tragédias gregas. As comédias sempre tiveram um apelo muito grande junto ao público, do teatro para as apresentações de ruas, dos circos etc. Chaplin insere neste contexto a nova linguagem do cinema para ocupar este espaço, a das “fotos em movimento”: ao rir das agruras cotidianas do personagem criado por Chaplin as plateias se identificavam com seu dia a dia, principalmente em uma época de reconstrução do país com a quebra da bolsa de valores em Nova York (1929), onde a crise do capitalismo escancara ainda mais as contradições daquela sociedade criada pelos sonhos de consumo.

Os traumas de sua infância, com pai alcoólatra, mãe internada em manicômio, abandono e miséria transformaram-no em um artista que, ao invés de renegar seu passado, colocou tais situações como protagonista em suas tramas. Sua arte e seu estilo eram um meio que o levava a depurar seus sentimentos mais íntimos, afastar seus fantasmas e colocar o homem comum_ sempre se metendo em confusões e sem dinheiro, mas cheio de afeto_ como o centro do universo: o humanismo chapliniano. E é justamente disto que estamos tratando quando analisamos Tempos Modernos: não é uma suposta ideologia que deve rotular sua obra. Chaplin critica o patrão, mas também apresenta o operário em algumas situações que estão longe de caracterizá-lo apenas como vítima. Evidentemente que a crítica maior e mais contundente é sobre o capital e por uma razão bem simples, não é a máquina que representa o retrocesso, mas sim o mau uso deste instrumento que transforma pessoas em não pessoas. Como humanista que era a dissecação do trabalho em uma linha de montagem desumaniza o homem, e é justamente este processo que será duramente criticado pelo artista naquilo que ele tinha de melhor em sua arte: o humor!

Em Tempos Modernos, logo na apresentação a primeira imagem é a de um relógio movimentando-se. Anuncia-se aqui o tempo das fábricas, das indústrias, o predomínio da medida cronológica monitorando as sociedades industriais e pós-industriais, pois ainda é justamente este tempo a qual nos reportamos e nos submetemos na chamada pós-modernidade atual. Historicamente, ao deixar de ser um artesão que acompanha todas as etapas da produção, o operário da nascente indústria anula sua criatividade, submete-se ao controle completo e absoluto do capital. É este ser fragmentado e sem poder sobre o seu próprio corpo e mente _ satirizado nas cenas quando a linha de montagem é desligada para o almoço e no processo repetitivo que bloqueia qualquer lampejo de criação_ que Chaplin coloca este homem em sua real posição: a de um ser em profundo processo de desumanização.

A genialidade de Chaplin manifesta-se naquela que talvez seja a cena mais engraçada e, ao mesmo tempo, mais trágica, surreal e assustadora: o momento em que um comerciante tenta vender ao proprietário da indústria uma máquina que iria colocar na boca do operário o alimento. Seu objetivo seria o de reduzir o tempo de almoço e consequentemente agilizar a produção. Ao divulgar seu produto o comerciante enaltece suas qualidades dizendo: “Veja, o operário não faz nada, a máquina faz tudo”. Estes são os Tempos Modernos...

TEMPOS MODERNOS PARA OBVIOUS - 2.jpg

O paradoxo em uma sociedade que enaltece a liberdade acima de todo e qualquer valor é o personagem de Chaplin fazer de tudo ao longo do filme para voltar à prisão, onde por ter “sem querer” evitado uma fuga em massa, nosso simpático protagonista passa a ter um tratamento diferenciado e privilegiado. Assim, ao ganhar sua liberdade, o vagabundo faz de tudo para perdê-la, voltar a ser preso é seu objetivo maior. Nestas cenas, vemos então o humor irônico de seu criador em plena forma: de que adianta ser livre em uma sociedade que nos aprisiona?

Em seus filmes, os personagens que representam o poder e o Estado são constantemente humilhados, os guardas e a polícia em si, suas maiores vítimas. Chutar a bunda de um policial era um exercício metafísico. Nestas cenas o poder coercitivo do Estado e sua autoridade são duramente criticados. Em Tempos Modernos, a viatura policial mais parece um ônibus, um coletivo, pois para com frequência para prender bêbados, desocupados e acima de tudo pobres. Através do riso torna-se muito fácil identificar quem são os “cidadãos”, quem os defende e contra quem.

Não é apenas o capital que merece críticas, em um momento tão difícil como aquele, a conquista do emprego era uma realização. Assim, quando no final do filme nosso protagonista consegue este feito, no mesmo dia_ para sua decepção e de seu encarregado_ as máquinas novamente são paradas e mais uma vez inicia-se uma greve. Os dois trabalhadores demonstram claramente a insatisfação diante daquele quadro. Aqui, o trabalhador é colocado entre um patrão opressor e um sindicato incapaz de realizar uma leitura adequada do momento.

Recentemente ouvi no rádio a entrevista de um importante representante do sindicato patronal defendendo a lei de terceirização que foi aprovada na Câmara dos Deputados e segue para o Senado Federal. Infelizmente não me recordo de seu nome, mas entre outras coisas chegou a dizer que era um absurdo o trabalhador ter uma hora para o almoço, que muitos não utilizam este tempo e que poderiam, por exemplo, fazer como nos EUA, onde o operário come um lanche em quinze minutos, podendo assim sair antes do término de sua jornada de trabalho. Ao ouvir tamanho absurdo, foi imediata a relação com a famosa cena de um coitado e atabalhoado Carlitos tendo que comer rapidamente em uma máquina que colocava o alimento em sua boca.

Também em pleno 2015, a linha de montagem continua funcionando tal como aquela imortalizada no filme, a repressão policial faz parte dos principais Estados de Direito ditos democráticos no mundo e não apenas das ditaduras denominadas de direita ou esquerda, relógios de ponto, hoje eletrônicos baseados na biometria são instalados em instituições de ensino público, como se o trabalho intelectual de um profissional da educação pudesse ser mensurado e quantificado. É possível controlar o tempo de um trabalho criativo como o de um professor? Quando até mesmo sobre um trabalho essencialmente mental se busca o controle e a consequente alienação, devemos nos perguntar se Charles Chaplin era de fato um comediante ou se estava muito além desta denominação quase quarenta anos depois de sua morte.

Façamos um exercício, se estivesse vivo, se fosse brasileiro e filmasse Tempos Modernos em 2015, evidentemente com algumas atualizações, como Chaplin seria visto por importantes setores de nossa sociedade?

Será que seria rotulado de comunista? Esquerdista? Ou pior: será que teria que ouvir Vai pra Cuba! ?

Longe de uma pregação revolucionária ou da substituição de um sistema por outro, Chaplin nos diz com Tempos Modernos que o capitalismo está muito longe de ser o melhor dos mundos e que não querer ver que há diferenças sociais gritantes e absurdas é um erro. Infelizmente ainda sustenta-se em nosso país o discurso da cordialidade do brasileiro e de uma total ausência de conflitos sociais, para estes, denunciar a desigualdade é algo não patriótico e capaz de incitar o ódio e uma luta de classes. É este discurso antiquado, baseado no medo e na ignorância _ mas, ao mesmo tempo oportunista¬_ de importantes setores sociais respaldado pelos mais importantes veículos de comunicação de massa, que nos afasta de nossos reais problemas. Para estes grupos, Charles Chaplin, o maior gênio da mais importante arte do século XX, o cinema, deve ser visto apenas e tão somente como um comediante e seus filmes, assistidos apenas como entretenimento. Ou seja, rir e não pensar.

Chaplin não cria em Carlitos uma consciência de classe, mas faz de seu personagem central o protótipo do homem desconcertado diante do mundo que o cerca. Se Euclides da Cunha caracterizou o sertanejo como um forte, Chaplin com seu personagem recria a famosa obra de Dali a persistência da memória de 1931 onde surge uma nova visão de homem: a da resistência e resiliência e, acima de tudo, a coragem e o otimismo diante de tantas incertezas. A emocionante cena final é um convite a tudo isso.

TEMPOS MODERNOS - 3.jpg


version 4/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Marcelo Augusto Sapuppo