corra loba corra

cultura, filosofia, arte e lirismos

Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio

A maiêutica de Sócrates


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Para alguns introvertidos PARECE ser fácil desligar memória, tempo e espaço. Esses alguns que tentam renegar sua contemporaneidade mergulhados em suas idiossincrasias e desculpinhas de "nasci no tempo errado" são os principais culpados por um mundo estagnado.

Consciente ou inconscientemente, recebemos diariamente uma enxurrada de informações do aqui e do hoje, crer que elas não penetram em nossos sentidos resume uma das nossas maiores ilusões.

É impossível olharmos para o passado mantendo ele intacto, como ele era no instante ocorrido, por que o que forma o mundo ao redor são as nossas impressões e essas são sempre, sempre mutantes e de instante presente.

Da mesma forma, todos que projetaram um futuro (vide o filme Metrópolis)o projetam indubitavelmente com suas referências do presente, isso sim é saudável. Mas... então, a cada instante presente, estamos deixando fragmentos que vão construir um futuro próximo ou distante?

Talvez sim, e esses fragmentos vão ser reelaborados pelos milhões de visões "do hoje" dos próximos homens que virão, nesse sentido a arte não imita a vida, simplesmente fornece elementos para que ela seja recriada.

Será que todas as vezes que pensamos ou nos expressamos, soltamos no tempo "memes", fragmentos de memória, que vão passar a rondar pelo mundo tomando uma nova forma em cada mente que penetrar? O que acontece então se APENAS pegarmos esse fragmento do passado, o cultuando, impedindo sua reformulação?

Aprendemos involutariamente através dessas invasões diárias? Talvez sim, mas há em cada um de nós, uma energia que ferventa essas ideias, que as reelabora, que une fragmentos de informação uns aos outros? O PENSAMENTO, o pensamento que recria ideias e não apenas as analisa, isso é a "Maiêutica", já cultuada por Sócrates, que diziam que o importante para a evolução, era "parir ideias", ele sabia que é esse parto do novo, que muda o mundo.

Escolhemos os fragmentos que vão penetrar o nosso consciente e inconsciente?

O pensamento é a capacidade de ligar imagens, memes, uns aos outros formando paralelamente ao mundo das coisas concretas, um mundo de novas ideias, que paradoxalmente iniciam o processo de criação do amanhã, que por sua vez não será exatamente como idealizamos, pois será influenciado pelo presente dos que estarão em tal espaço/tempo.

Pensando nesse processo evolutivo das ideias, como algo crescente e ininterrupto, se compreende qual é o verdadeiro patrimônio da humanidade, que é a energia impregnada em na construção de cada muro e não os muros em si, as ideias presentes em uma catedral e não ela em si mesma.

Trata-se da concorrência do valor do "real" com o "surreal", e pensando assim no fato de que as coisas são da forma que nossas impressões nos permitem captar, qual desses dois mundos reflete "a verdade"?

Nos dando por conta que verdades são tão transitórias quanto mentiras, pode-se entender que fantasia e realidade promovem entre si uma retroalimentação construindo cada segundo presente ao nosso redor e cada vez que nos lembramos do passado nós não vamos para esse lugar, mas simplesmente estacionamos o aqui e o agora a partir do momento que não o usamos para criar "Maiêutica", para parir o novo.

Você que diz que esse aqui não é o seu tempo e espaço por se identificar com o passado, cuidado, você não passa de um dos que fazem com que o presente não passe de uma releitura de tudo que já houve, sorver do aqui e do agora e reelaborar as ideias do passado é a única forma que o inevitável anacronismo do ser humano, permite mudar o próximo segundo.


Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio.
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