corra loba corra

cultura, filosofia, arte e lirismos

Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio

Aylan e Ardi


ardy.jpg

O tempo tem nos mostrado os nossos elos perdidos, já sabemos que não fomos os únicos hominídios a habitar esse planeta, está aí a passagem dos Neandertais para comprovar essa teoria e o tempo tem nos revelado a possibilidade de outras espécies.

O que acontecia no início da racionalidade em um tempo em que o planeta era inóspito? Era necessário sobreviver e nos demos o título dos seres com maior capacidade de sobrevivência e adaptação.

Só conseguimos essa habilidade e a racionalidade por que descemos das árvores quando estávamos cansados de nos alimentar de restos de carniças, descemos das árvores com medo... nosso medo aliado a uma pretensa capacidade de pensar, criou em nós a nossa verdadeira maior capacidade: a de covardia.

Começamos a nos reunir ao redor do fogo para afugentar os animais e o frio, fomos obrigados a nos olhar cara a cara e assim inventamos "a família", a família foi primeiro elemento segregador da raça humana depois da desintegração entre indivíduos da mesma tribo.

Então houve um tempo em que "o outro" significava perigo, assim como toda a natureza também representava, a morte era um elemento corriqueiro de uma vida com baixas chances de sobrevivência.

O mundo custou a aceitar que a nossa origem estava no lugar onde fervilhava a história da maioria de espécies de primatas, mas isso é o de menos, até se chegar a esse tipo de preconceito, nossas organizações sociais se multiplicaram assim como nossas crenças e economias.

No princípio de tudo, um grupo de hominídios saiu andando pela África em busca de melhores condições, esse pequeno grupo se espalharia por todos os continentes e esqueceriam, ignorariam as suas origens.

Essa imensa família estranha, que se subdividiu e misturou os seus mitos com os seus medos, mascarou a nossa origem principalmente a partir do momento em que tentamos racionalizar o mundo, o mais suspeito é o fato de que essa tentativa de racionalização surgiu em lugares onde a economia e as formações políticas foram se estabelecendo na Grécia antiga, em lugares como Atenas, Esparta, Tebas e Micenas, esse foi o nosso primeiro palco de grandes misturas culturais, como as crenças eram divergentes, o lugar se fez o melhor berço para o nascimento da filosofia.

Se há algo que permaneceu em comum em todos nós, foi manter a morte com um sentido corriqueiro quando esta não atinge um dos membros de nossos malditos "clãs". Um dia não sabemos qual, uma mãe hominídia, provavelmente se afastou de seu filho por algum motivo corriqueiro, e um abutre tomou o seu filho e o levou para o seu ninho, foi esse "filhote" a criança encontrada por Darwin.

Eu não vou falar de nuances políticas, eu quero apenas ressaltar que jamais fomos os mestres da empatia e da imparcialidade, eu gostaria de saber por que ESTA criança nos faz acordar para a realidade de que sempre fomos omissos protegidos por quatro paredes e sobrenomes seculares.

Outro dia eu soube que na verdade, o Darwin encontrou um elo perdido, que foi rejeitado por anos, para não quebrar a hegemonia inglesa na corrida pelo elo perdido, mais tarde, sendo essa última tendo sido desmascarada como fraude, se olhou para o crânio do menino de Darwin, um dos concorrentes da Lucy no podio do elo perdido, depois destes surgiu o menino Ardi encontrado Donald Johanson, mais um menino que morreu provavelmente em migração e jamais imaginamos o quanto a morte desse ancestral foi importante para encontrar a origem biológica da humanidade, seu fóssil foi encontrado na beira de um rio.

Na beira do mar, outro menino tenta nos mostrar que nós somos os maiores selvagens do planeta, e temos em nós mesmos até hoje, o fóssil da nossa crueldade, o tempo passou e tomamos o lugar dos tais abutres. E será que conseguimos realmente nos comover com a morte de um indivíduo que tentou migrar para um lugar melhor e vamos acordar para o fato de que um dia os ancestrais comuns A TODOS NÓS caminhavam fugitivos por pradarias?


Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Erika Pessanha