corra loba corra

cultura, filosofia, arte e lirismos

Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio

Diário cruel do Fiu Fiu


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Pode ser que haja momentos em nossa vida, que achamos que quando não ouvimos gracinha alguma é por que estamos indesejáveis... mas... o tipo de indivíduo que age desta forma, é capaz de levantar a auto-estima até de uma cabrita abandonada no pasto...

Ser desejável não é isso, ser desejável não é ser perseguida pelas ruas, ser desejável não é contabilizado pela quantidade de abordagens diretas que uma mulher leva na vida (a tal cabrita pode ter a mesma quantidade de abordagens).Esse tipo de homem que se apega a cantadas baratas, está criando aprimorações de rituais babuínos e ainda está longe de ser humano, que dirá de ser homem.

Eu não acho que seja possível abolir o "fiu fiu" em si, mas é impossível detectar onde está a linha tênue entre a delicadeza e o início da lesão pessoal, e isso foi tão comum durante gerações que raramente conseguíamos medir o grau de atrocidade a que essas cantadas poderiam chegar... que dirá para as sobreviventes dos anos 80, eu sou uma delas... a gente quase não fazia sombra direito ainda e já tinha que aprender a lidar com diversos graus de abusos. Enquanto nossos pais estavam vivendo uma adolescência atrasada, alguns muitos maiores de idade assediavam meninas menores da pior forma possível.

Nas minhas memórias, as lembranças das brincadeiras com a boneca Susi se misturam com as primeiras lembranças em que ouvi ou enfrentei alguma lesão deste tipo na rua... na primeira lembrança eu tinha uns 11 anos: Indo para a escola eu passava todos os dias pela mesma praça e haviam sempre os mesmos meninos de bicicleta, isso foi no sul e eles sabiam que eu era do Rio, para um deles isso foi um motivo justo para me seguir e tascar-me a mão na bunda...bom, eu era um pouco violenta para me defender, taquei-lhe um soco na cara que o fez cair da bicicleta, foi bom ter essa como a primeira experiência, pois nunca tive medo de me defender.

Nos próximos anos, ainda entrando na adolescência, eu aboli completamente as estampas de frutas cítricas para que eu não acabasse acreditando que eu era composta de muita vitamina C... e a gente ia se "acostumando" a abaixar a cabeça e seguir em frente fingindo que não havia ouvido nada, ou aumentando a roupa por se sentir culpada, quando na verdade não passou de vítima.

HOJE, se um indivíduo ultrapassa um limite de distância de 1m, e se aproxima do meu ouvido, falando coisas que eu só gosto de ouvir de quem eu amo (ou não, mas isso é problema meu), a minha bolsa voa na cara, em uma experiência a poucos dias, eu consegui segurar os meus ímpetos de violência mas posso dizer que eu o constrangi dentro do terminal rodoviário apinhado de gente em Niterói. Mas, umas duas vezes a minha bolsa já entrou em ação, uma das vezes o canalha ainda queria me agredir e fui socorrida por um grupo de taxistas.

Uma vez fui seguida por uns dois quarteirões com um indivíduo aumentando o grau de nojeiras que ele ia dizendo, até que em um momento, num ponto movimentado da Rua Gavião Peixoto em Niterói, ele colocou a mão no meu ombro e QUASE encostou no meu ouvido,foi essa a outra vez que a minha bolsa voou... eu gritei, gritei muito...o cachorro se contorceu, abaixou a cabeça e saiu correndo entre as pessoas.

Por muitos anos ouvimos que, se por acaso passamos na frente de uma obra, e nenhum homem mexe com você, é por que a coisa está mal... a coisa está mal quando esse é um ponto importante de fortalecimento de auto estima, mesmo por que uma auto estima que se baseia apenas em valores estéticos, é abalável, tem seus anos contados.

Por um mundo em que as mulheres sejam cantadas POETICAMENTE e pelo que somos mentalmente, jamais apenas por como estamos fisicamente.


Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio.
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