corra loba corra

cultura, filosofia, arte e lirismos

Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio

Europa 51, cinema salva pessoas

Você acredita que o cinema pode mudar vidas? Um filme mudou a minha, Europa 51 de Rossellini, além disso ele é um filme ótimo para traçar um paralelo entre as linguagens de filosofia e cinema. É um representante antigo das gerações "actantes", que não se conformam com destinos circulares, apreciam oportunidades multifacetadas.


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Esse é um filme que realmente modificou a minha vida. Há filmes que você assiste na hora que precisava assistir e Europa 51, de Rossellini, é um filme que me permitiu "multifacetar" o meu destino, converter as minhas dores em esperanças, sem esmiuçar o drama... foi em um perído que eu estava impedida de ver os meus filhos.

Logo no início do filme, senti uma referência ao mito de Édipo, recorrente ao "menino de pernas machucadas" e sua aparente paixão pela mãe. Dentro desse aspecto mitológico, eu senti o filme como se fosse a tragédia sob o ponto de vista da Jocasta.

O mito de Édipo em si, já faz referência a um destino em um trilho circular deixando a alusão de que sempre retornamos pras nossas referências familiares, como se o destino pusesse elementos na vida, que provocasse esse retorno. Dentro dessa ótica, a participação do personagem é de certa forma secundário pois parece não haver um afluente em um rio que deve ser seguido rigorosamente. A imagem do trem de brinquedo prendendo os olhos de personagem, sugerem uma força de um Status Quo "endurecido", de regras que não podem ser quebradas.

Partindo pro pensamento de Heráclito: "Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio", a idéia de Devir se encaixa perfeitamente no filme a partir do momento que a personagem principal tem "seu trilho quebrado" a forçando a procurar um novo caminho, que "utopicamente" seria o seu. Então no decorrer do filme, assistimos a personagem sendo impactada por ações que podem ser comparadas aos diversos afluentes aos quais ela poderia seguir... porém tendo encarnado o papel em grupo, de "bode expiatório" assistimos durante a história ela cada vez mais sendo forçada a escolher entre ou "voltar ao seu caminho" ou suportar o isolamento ao qual seria condicionada.

O cinema em geral, enfrenta exatamente esse dilema: Ou entregue os pontos pro cinema de pura ação, ou opte por um caminho ao qual a compreensão não é simplificada pelo expectador seguindo um trilho que o induz á uma fácil compreensão, ou ser forçado a olhar de fora pra se colocar em outros papéis, que aliás é o que ocorre com a personagem, no momento em que começa a ser alguém ativo na história.

Vemos as diversas "forças sociais" tentando a colocar no seu lugar originário, tendo a partir disso, arquétipos muito bem definidos: A mãe, o padre, o médico e cada figura representada por cada uma das provas às quais ela se sujeitou.

A mensagem final do filme, não é muito boa pois a personagem necessitou lutar contra um coletivo que massacrou seu desenvolvimento individual (e isso que é justo o processo de individuação).

A existência antecede a essência? A moral do filme mostra claramente que a essência não tem possibilidade de existir, a fuga repentina do Status Quo, é a melhor definição do que nossa sociedade DEFINIU como "loucura".

A minha divagação sobre o filme:

É sua louca, o tempo passa e quanto mais você perde, hora te vêem como mulher gênio pretensiosa, hora como louca. "Ah Eu"...eu meu personagem Rosselini que pouco se importa como que pensam de seus passos.

A você sua doida, te cobram destinos, resultados, carinhos...e você não sabe mais de nada.

Falando consigo mesma conversa com os teus eus, que caso você não faça um furo na sua alma para que sejam ouvidos...essas malditas e santas vão te tomar.

Enquanto você absorta investiga os possíveis motivos de tua amnésia, "algum você" descansa aliviado na cama de pregos que tuda inconsciência esconde. Alegre-se pois você foi e voltou, dessa vez ao menos, eu, você voltou.

Tsc, Tsc, tsc, pra que renegar quem você já foi um dia? Isso é mais patético do que fechar as portas pra todas as mulheres que você poderá vir a ser.

Teus filhos vivam, mas viva a vida como Ingrid Bergman em Europa 51: O teu arredoma de vidros colados em tecidos, costurados em teias se rompeu, o mundo é realmente essa bosta, que justo por que você desconhece, tem mais crueza ao analisar.

Cuide de uma puta semi morta, entre em uma fábrica de operários robôs, defenda um filho que tentou matar o próprio pai, pare de ouvir sua mãe, seu marido, o padre, o médico e que se foda:

Louca, puta, santa, humana... saia da tua alienação: Tudo que disseram pra não ser, é o que você se tornou. Assista piedosa da janela do teu quarto, ciente que o manicômio está do outro lado do vidro humano.


Erika Pessanha

"ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou"- José Régio.
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