Cuba: sexo, turistas e filmes

Todos os turistas italianos que vão a Cuba são empresários ou produtores de cinema.
Assim, involuntariamente, acabei por entrar numa comédia.


TROPICANA.jpg

Desde que se abriu ao turismo internacional, Cuba é considerada um dos principais destinos para viajantes em busca de sexo. A combinação da liberdade dos costumes, do calor e da pobreza formam a combinação exacta para a ilha ser um destino perfeito para o turismo sexual. Apesar de neste tipo de turismo os homens serem a maioria, também há mulheres que viajam para Cuba pelas mesmas razões.

Quando em 1994 fui pela primeira vez a Cuba deparei-me com algo que nunca tinha visto em nenhuma parte do mundo. Ainda dentro do aeroporto havia despedidas dramáticas entre turistas e cubanas, com abundantes cenas de choro e abraços desesperados. Cá fora, dezenas de jovens mulheres, numa espécie de comité de recepção, aguardavam a chegada dos recém-chegados. Acenavam alegremente e convidavam-nos a ir ter com elas. Tudo isto era profundamente caricato, algures entre o cómico e o deprimente. Viajando na companhia de dois amigos, fomos então abordados por um grupo de três raparigas. Não deveriam ter mais de vinte anos e estavam com vestidos muito curtos. Após uma breve apresentação, perguntaram-nos se queríamos amigas para nos mostrarem Havana. Declinamos a oferta delicadamente e fomos para o hotel.

Em Cuba, ou qualquer outra parte do mundo, não era este tipo de mulheres que pretendíamos conhecer. O nosso objectivo era bastante mais elevado. Sonhava-mos seduzir top-models cubanas, dançarinas do Tropicana e outras belezas tropicais que não se oferecessem aos turistas. Um plano que, suponho, a maioria dos jovens solteiros concebe quando viaja com os amigos.

No dia seguinte, decidimos visitar o centro histórico ou a Habana Vieja. Caminhando desde o hotel Sevilla, fomos travando conhecimento não apenas com novas raparigas, mas também com vendedores de charutos e outros cidadãos a quem pedíamos informações. Na altura da nossa viagem os turistas ainda despertavam curiosidade aos locais, ávidos de lhes fazer perguntas e saber como se vivia fora da ilha. Assim, ao fim do dia tínhamos já falado com vários cubanos e ficado a saber coisas que sobre o país que não aparecem nos guias turísticos. Além dos inevitáveis assuntos políticos e sociais, ficamos a saber que os italianos eram um dos grupos de turistas mais numerosos, tinham grande sucesso junto das mulheres e eram quase todos empresários ou actores de cinema. Os restantes turistas trabalhavam em profissões diversas, mas os italianos só se dedicavam aos negócios e às artes dramáticas.

Pensamos que eram tolos e se expunham ao ridículo. Sendo os cubanos um povo instruído, toda a gente – especialmente as mulheres - se iria rir deles. Nós, jamais nos prestaríamos a tal farsa. Eramos professores e engenheiros e continuaríamos a sê-lo em Havana. Sentados na Praça da Catedral, ladeados pela igreja barroca e pelos palácios do século dezoito, rimo-nos dos patetas italianos brindando com Mojitos.

Na noite seguinte, após jantarmos no Floridita, fomos ao Tropicana onde estávamos convencidos de que as dançarinas não iriam resistir ao nosso charme europeu. Afinal, eramos três jovens em boa forma física, simpáticos, bem-vestidos e que não inventariam histórias para se tornarem importantes.

O Tropicana é um cabaret ao ar livre no meio de uma floresta tropical criado em 1939 onde já actuaram figuras como Nat King Cole e Josephine Baker. Dominado pela Mafia americana no tempo de Batista, o Tropicana é nacionalizado após a Revolução Castrista, sendo uma das poucas casas de diversão nocturna que não foi encerrada. Actualmente, oferece um espectáculo luxuriante de música e dança onde as estrelas são raparigas negras e mulatas com corpos esculturais. Há cantores e músicos de grande qualidade, mas a principal razão de se ter tornado uma das mais importantes atracções turísticas e fonte de receita são as suas beldades semi-nuas e emplumadas.

Eis uma das muitas contradições do regime Socialista cubano.

No final do espectáculo, perguntamos ao empregado que nos servia as bebidas se seria possível conhecer as dançarinas. Sem surpresa, disse-nos que iria tratar do assunto. E assim, vinte minutos depois, apareceram três espantosas mulheres, altíssimas, que se sentaram na nossa mesa. Demonstraram educação, cortesia e alguma distância para mostrarem claramente que não eram prostitutas. De facto, a sua atitude impunha uma forma tal de respeito que, suponho, ninguém se atreveria a por a mão nas suas pernas ou fazer-lhes propostas indecentes - nem sequer Robert de Niro’s e Al Pacino’s vindos de Milão ou Roma. Uma delas foi mesmo direita ao assunto da relação entre turistas e mulheres cubanas. Não negava que por razões de sobrevivência muitas raparigas e rapazes se envolviam com estrangeiros para ganhar alguns dólares, ou tão só para jantar em bons restaurantes, assistir a espectáculos, passear para destinos como Cayo Largo e Cayo Coco. Porém, seria só em Cuba que isso aconteceria? Em que parte do mundo é que os homens e as mulheres ricas não estão sempre rodeados de pessoas que oferecem o corpo para poder beneficiar dessa riqueza? Além do mais, por que não haveria a juventude cubana de ter o direito de se divertir da mesma forma que a juventude europeia ou americana, tendo aventuras com desconhecidos?

Pareceu-nos uma argumentação inatacável e que a única diferença entre elas e nós era apenas o facto de teremos nascido em países diferentes. Também nós faríamos tudo para sobreviver se o nosso salário não ultrapasse os vinte dólares e se estivéssemos impedidos de emigrar. Tinha-mos encontrado as mulheres certas. Se as tratássemos com dignidade, talvez pudéssemos ter alguma sorte … . O nosso plano era o seguinte: nos próximo dias convidávamo-las para ir à praia, passear pela cidade, jantar fora e ir à discoteca. Na Europa, e talvez no resto do mundo, este plano de sedução costuma resultar.

E assim foi.

Durante três dias estivemos com as nossas amigas na praia, visitamos monumentos, passeamos pelo Malécon, jantamos fora e dançamos Salsa. Ficamos então a saber que os seus avós tinham vivido no tempo de Batista, que os pais tinham profissões tão diversas como mecânico, enfermeira, doméstica e professor, que achavam a maioria dos turistas atrevidos e que pretendiam sair de Cuba – mas não a qualquer preço. E quanto a namorados, referiram-se vagamente a ‘’amigos’’ que viviam no estrangeiro. Estava tudo a correr como o previsto, embora – na nossa opinião – já devesse ter acontecido algo. E de facto, algo aconteceu, mas não da maneira que esperávamos.

Na manhã seguinte, uma das nossas amigas aparece no hotel e pediu para falar comigo. Desci à recepção (em Cuba os nativos não podem entrar nos hotéis sozinho, nem entrar nos quartos sem estarem registados como hóspedes) e fui ter com ela. Com um ar embaraçado, disse-me que não podiam sair mais connosco.

‘’Porquê?’’ - perguntei desiludido.

‘’Por que amanhã chega um grupo de amigos italianos. É a segunda vez que cá vêm e temos uma relação muito íntima. Eles vão-nos levar para Itália para entrarmos num filme.’’

Desejei-lhe boa sorte e regressei ao quarto para informar os meus amigos que o filme das garotas do Tropicana, para nós, tinha acabado. Uma data de vilões roubara-nos o papel principal. Um dos meus amigos declarou que, a partir de hoje, ele passaria a dono de uma agência de modelos. O outro tornou-se dono de uma fábrica. E eu transformei-me em piloto da TAP. Longe do maldito Tropicana, ninguém pôde mais competir connosco.

As comédias portuguesas são muito melhores do que as italianas.


version 3/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //João Cerqueira