Kushiro: José de Guimarães contra o nevoeiro

Através da luz e da cor, José de Guimarães transforma a nevoenta cidade japonesa de Kushiro num lugar encantando.


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Através de signos antropomórficos, zoomórficos e geométricos José de Guimarães recupera os mitos e as formas de expressão das diversas culturas - africana, ameríndia, asiática - com as quais os portugueses se relacionaram nos séculos passados, confrontando-os com a própria História de Portugal. Tal como a arte manuelina incorporou elementos exóticos - animais, flora, indígenas - aos elementos decorativos nacionais, José de Guimarães transpõe máscaras, caveiras, entes mitológicos e caligrafia oriental para as telas mesclando-os com sua expressão plástica moderna. Dessa forma, consoante vai navegando pelas terras a que os nautas portugueses aportaram, recolhendo as suas especiarias, o seu ouro e os seus diamantes, promove o encontro sincrético da ancestralidade minhota e da modernidade europeia com as culturas de outros continentes.

Depois de em 1989 se ter instalado no mosteiro de Himeji para aprender a arte tradicional de feitura de papagaios, José de Guimarães inicia, ainda nesse ano, uma série de exposições no Japão cujo crescente interesse do público japonês pela estética do artista português - ao qual não será alheio a importância que a sociedade nipónica atribui à herança portuguesa - levará os responsáveis da cidade de Kushiro a convidá-lo para uma intervenção urbanística e escultórica no centro da cidade que incluía iluminação pública, mobiliário urbano, máquinas automáticas, fontes, abrigos, uma calçada, esculturas de sinalização de espaços importantes e outras sinaléticas diversas. Antes, a população havia sido consultada mediante referendo quanto à aceitação de tal projecto, tendo assim se decidido transformar a imagem lúgubre da cidade, e desse modo contrariar a própria natureza, lançando a arte luminosa de José de Guimarães contra o nevoeiro de Kushiro. José d.jpg Então, sob sua orientação, uma fábrica de metalurgia de Sapporo, vai construir candeeiros, pilares luzentes, bancos fosforescentes, estações de autocarro, as referidas máquinas (de informação turística) e esculturas; peças resplandecentes de néones coloridos e luzes de fibra óptica. No entanto, fiel ao método de abordagem antropológica do local onde irá intervir, José de Guimarães toma desta vez como modelo os sinais que o povo Ainu utilizava nas tatuagens, na arte e no vestuário.

Tal como nos anos setenta se batera num duelo barroco com Rubens, José de Guimarães pelejou agora, num combate que demuda o oponente num aliado, contra o nevoeiro e a arquitectura soturna de Kushiro, tendo ainda de contrariar a tradicional sobriedade da cultura nipónica. E a triste e inóspita ilha, da qual todos os que podiam escapavam aos fins-de-semana, é de tal maneira transformada pela intervenção do artista que a nova cidade, povoada de formas sensuais, cintilante de cor e luz e onde o próprio nevoeiro se torna parte fundamental da nova cenografia urbana, como que se converte num espaço encantado que já mais se assemelha ao universo fantasioso de José de Guimarães que às urbes cinzentas do Japão. Kushiro noite.jpg


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