Receita para alcançar a imortalidade

O homem começou a escrever para se tornar imortal.


Bocklin - A ilha dos mortos

A escrita surge há quatro mil anos na Suméria devido à necessidade de registar informação relacionada com o comércio, a administração e a posse de bens. A escrita deve pois a sua origem à economia. Como tal, quer um poema que enalteça os valores espirituais, quer um texto que condene o capitalismo, tem uma remota ligação à necessidade de controlo das contas. O romantismo de John Keats e as teorias de Karl Marx devem a sua transmissão às gerações futuras a uma invenção destinada aos bens materiais e à acumulação de riqueza. Como tal, será O mercador de Veneza um tributo, inconsciente claro, aos contabilistas sumérios? Talvez não, mas não deixa de ser uma teoria.

No entanto, como a contabilidade não é uma actividade muito excitante, os próprios escribas sumérios devem ter começado, nas horas livres, a usar a nova invenção para registar outras coisas. Por exemplo, poesia. E assim vai nascer uma das primeiras obras da literatura: A Epopeia de Gilgamesh – o homem que procurava a imortalidade (após a morte do companheiro Enkidu).

Gilgamseh não a encontrou, mas desde o começo da literatura os homens serviram-se da escrita para a procurar. Além da economia, a escrita está também ligada ao mais antigo desejo da humanidade, que é vencer a morte. Todos os escritores que se seguiram, gravando os seus pensamentos na pedra, registando-os em papiros ou mais tarde em papel, estavam a tentar deixar uma parte de si que sobreviveria à sua morte. O conteúdo da escrita - criar personagens que ambicionavam ser imortais – já não era o mais importante, mas sim a preservação da mesma num registo seguro.

Nos dias de hoje, um simples telemóvel vem equipado com muitas possibilidades de garantir a nossa memória futura. E, para os mais radicais, há possibilidade de conservarem o corpo congelado ou até, se encontrarem algum cientista louco, se clonarem a si próprios. O século XXI oferece pois muitas formas de tentar vencer a morte – embora eu não aconselhe as duas últimas.

No entanto, apesar dos avanços da tecnologia, para muitos a escrita continua a ser a forma mais segura, e mais barata, de alcançarmos a imortalidade. Por isso, dentro de um milhão de anos eu estarei vivo, pois tenho a certeza que restará pelo menos uma cópia deste texto e que alguém, terrestre ou extraterrestre (preferia que fosse um extraterrestre), a irá ler. Só não garanto é que daqui a um milhão de anos mais cinco minutos a minha imortalidade subsista.


version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //João Cerqueira