Os sapatos brancos de Nick Cave

Só há um homem no mundo que pode usar sapatos brancos: Nick Cave


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Sapatos brancos nos pés de um homem: eis a última fronteira do ridículo. Um palito na boca, um bigode, sapatos pretos e meias brancas, sim, tudo isto são feitos importantes na conquista do troféu do ridículo. Porém, para realmente se atingir o ultimo patamar, para se ser um genuíno ridículo, daqueles que acredita em si próprio, ou seja, que não faz a menor ideia de que está a ser ridículo, então é necessário calçar uns sapatos brancos. E, de entre os sapatos brancos, eis os melhores: os envernizados com atacadores.

Mesmo no cinema, ou até no Carnaval, é raro ver alguém com sapatos brancos envernizados com atacadores. Há uma última fronteira de dignidade que, nem na ficção, nem nas folias carnavalescas, os homens se atrevem a cruzar. Porque, alguém que saia à rua nessa figura, arrisca-se a nunca mais ser tomado a sério – a não ser por outra criatura de sapatos brancos. Os sapatos brancos expõem uma forma de pensar, uma atitude perante a vida e, obviamente, uma série de taras. sapatos brancos.jpg Afinal quem confia num homem de sapatos brancos?

Contudo, se o uso destes sapatos é nocivo para qualquer homem, há uma excepção: Nick Cave.

Quando Roland Barthes escreveu as Mitologias considerando que, na sociedade de consumo, tudo – como por exemplo a fotografia de um político - se transforma num signo com uma mensagem que distorce o seu real significado, não tinha, obviamente, previsto a aparição dos sapatos brancos de Nick Cave. À luz destes sapatos – que, pela sua cor, brilham mais do que os restantes – as reflexões de Barthes deixam de fazer sentido. Não se trata de o cantor australiano dar um pontapé no rabo do pensador francês porque, afinal, os seus sapatos foram elevados à categoria de mito, mas de introduzir algo que baralha o sistema de Barthes. Ou seja, este mito – os sapatos brancos – deformam a realidade, mas de uma forma que não se pode enquadrar nos valores da sociedade burguesa de consumo. Se a imagem de um soldado negro a fazer continência à bandeira francesa – segundo Barthes – é uma apologia subtil do colonialismo, a imagem dos sapatos brancos nos pés de Cave não é, de modo nenhum, uma apologia do mau-gosto.

Outro pensador cuja obra é comprometida pelos sapatos brancos de Nick Cave é o historiador da Arte Erwin Panofsky. Panofsky defendia que uma pintura – ou seja, uma imagem – poderia fornecer informações sobre o ambiente histórico em que foi criada. Por exemplo, numa pintura religiosa do Renascimento podem estar contidas informações não apenas sobre a figura que foi pintada – um santo ou Jesus – mas também, caso haja outros personagens, sobre as classes sociais da altura, a condição da mulher, a educação das crianças, etc. Chamou a esta análise Iconologia. Ora se daqui a mil anos algum historiador recorrer esta análise para interpretar as imagens de Nick Cave com sapatos brancos poderá ser levado a concluir, sabendo que se tratava de um dos mais importantes cantores pop (?) do final do século XX e princípio do século XXI, que a maioria dos homens usava também sapatos brancos.

A sociologia e a história da arte não servem, pois, para analisar este fenómeno. Talvez por estes pensadores só ouvirem música clássica – Barthes devia também ouvir Edith Piaf, suponho. nick-cave-sundance-2014-gi.jpg Nos pés de Nick Cave os sapatos brancos envernizados com cordões – nessas estranhas combinações com belos fatos e bonitas gravatas - não apenas deixam de ser ridículos, como ainda se transformam em algo que se aproxima do conceito de sublime.

Este prodígio de transformar algo ridículo, ou apenas banal, em sublime é uma das marcas de todos os grandes criadores. Na literatura, os grandes escritores são capazes de mostrar uma situação banal – por exemplo, Marcel Proust a descrever o pôr do solpôr-do-sol na praia de Balbec – sob ângulos desconhecidos extraindo dessa realidade qualquer coisa que, até então, o leitor não havia suspeitado. marcel-proust.jpg Na pintura, os grandes pintores conseguem a partir de motivos inúmeras vezes representados – por exemplo, as naturezas mortas de Giorgio Morandi – revelar uma nova forma de ver o objecto que surpreende e perturba o espectador. Porém, ambos conseguem esse efeito sobre algo que lhes é exterior. Quer o escritor, quer o artista – com possível excepção de Andy Warhol – estão dissociados da obra que produzem. É óbvio que se Proust e Morandi calçassem sapatos brancos nunca atingiriam o sucesso que tiveram: Proust seria deserdado e proibido de frequentar os salões da alta sociedade parisiense – e já não teria escrito Em busca do tempo perdido; Morandi seria impedido de expor os seus quadros em Milão e Roma – e hoje ninguém saberia quem ele era. NICK CAVE SAPATO.jpg Com Nick Cave, nos seus vídeos e concertos, acontece o contrário – o artista não pode ser separado da obra. Por exemplo, quando canta Fifteen feet of pure white snow - https://www.youtube.com/watch?v=4sfhvxTZ0wo - num bizarro espaço onde o público veste roupas que parecem dos anos 70, os seus sapatos brancos fundem-se de tal forma com a sua voz que deixam de ser um objecto que protege os pés ou define uma moda para, mediante essa sinestesia, se tornarem na própria essência que distingue Cave e o torna um artista singular. Os seus sapatos brancos são, assim, transfigurados pela música e, simultaneamente, transfiguram a própria música, criando uma performance holística onde todos os elementos do artista – voz, corpo, roupa, sapatos – concorrem para se atingir a referida sublimidade. NickCave2i_3290533b.jpg Há pois um único homem na história da humanidade que não apenas consegue usar sapatos brancos a seu favor – enquanto qualquer outro, à excepção de David Bowie, poderia arruinar a sua carreira se os calçasse – como ainda se transcende graças a tal. Ou seja, é um feito tão improvável e extraordinário como alguém conseguir nadar melhor num mar tempestuoso depois de atar bolas de ferro com correntes aos pés. Este paradoxo faz portanto de Nick Cave um criador único cuja obra não pode ser devidamente avaliada pelos padrões actuais. É altura de novos sociólogos, historiadores da arte, musicólogos e, eventualmente, sapateiros, começarem a estudar este fenómeno dos seus sapatos brancos.

Receio, porém, que por desconhecimento da metodologia apropriada nenhum deles esteja à altura da tarefa. maxresdefault.jpg


version 1/s/musica// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //João Cerqueira