cotidianidades

Porque o cotidiano também esconde o extraordinário

Rafaela Lorenzon

Jornalista. Curte viagens, música eletrônica e os livros da Agatha Christie. Adora (quase) todo tipo de série, mas tem uma paixão incontrolável por Grey's Anatomy e The O.C. Acredita que o que vale são as experiências e não as coisas materiais. Economiza um monte pra viajar e contar as histórias do mundo. Está trabalhando nisso...

Uma Manhã Gloriosa: sobre clichês, jornalismo, “nãos” e a busca de um sonho

Somos todos movidos por sonhos. Corremos atrás dos nossos objetivos. Levamos "nãos", seguimos e levamos outros tantos "nãos". Nos decepcionamos, começamos de novo. E está tudo bem. É normal. É isso que "Uma Manhã Gloriosa" mostra - em meio ao caótico mundo do jornalismo - com simplicidade, leveza e, claro, clichês.


Eu adoro clichês. Frases clichês, filmes clichês. Tudo. Soa um tanto bobo para uma jornalista, mas é a verdade. E na minha vontade de assistir a um filme clichê, me deparei, mais uma vez, com Uma Manhã Gloriosa.

Para os mais experientes no mundo jornalístico, esse filme pode parecer só mais um besteirol entre tantos outros lançados no cinema. Para mim, recém-formada, sonhadora e que ainda acredita na carreira, é um ótimo filme sobre zona de conforto, mudança, vontade de fazer dar certo, coragem, decepção e busca por um sonho.

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(para quem não assistiu ao filme, contém spoilers)

Becky Fuller (Rachel McAdams) uma novata e talentosa produtora que sempre sonhou em trabalhar no Today, na rede NBC, é inesperadamente despedida de seu atual emprego em New Jersey, já que o canal precisa de um produtor com mais experiência e obviamente, cortar gastos.

Entre entrega de currículos, e-mails e telefonemas, finalmente a jornalista consegue um novo emprego na IBS em New York, no programa matinal Daybreak. O que a moça não imaginava era que o programa precisaria de mais do que alguns simples ajustes para se tornar bem-sucedido e alcançar números aceitáveis de audiência.

Um de seus maiores problemas, contudo, seria controlar seus âncoras, Colleen Peck (Diane Keaton) com seu bom humor e sarcasmo, e Mike Pomeroy (Harrison Ford) rabugento, cheio de si mesmo e resistente a mudanças.

O filme vai passando e, como todo bom clichê, os problemas dos personagens principais vão aparecendo, se resolvendo e por fim, em meio a matérias grandiosas e um belo furo de reportagem, Becky consegue levantar a audiência do programa e mais, fazer com que todos os envolvidos na produção voltassem a ter confiança em si mesmos e no trabalho.

Ao final, o sonho maior, aquele que Becky tinha desde os 8 anos de idade, se realiza e ela é convidada a trabalhar no Today. Aí é que o clichê fica ainda mais evidente: Becky recusa o tão sonhado emprego para continuar com a nova família que formou no Daybreak. Achei bem bacana, admito.

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Minha intenção não é dar um resumo detalhado da história. É mostrar como o filme, apesar de simples e sem grandes complexidades, revela de forma despretensiosa como esse mundo do jornalismo é caótico, disputado e incoerente, muitas vezes. E como, apesar de tudo, Becky Fuller não desiste de fazer dar certo e de fazer o que sonha em fazer.

Muitas vezes recebemos um belo e categórico não. Em telefonemas, em e-mails, em entrevistas. Não de pessoas, de chefes. É normal. E ninguém pode ser culpado por isso. Acontece muito no mercado de trabalho jornalístico e creio que em muitas outras profissões. Não para ideias novas, não para contratação de alguém novo, não para a produção de grandes matérias, não para isso, não para aquilo, não, simplesmente. É muito não para o meu gosto. E isso serve para todas as outras profissões e se encaixa em muitas outras situações cotidianas. Não é exclusividade do jornalismo.

Sempre fui uma sonhadora. Acredito nas coisas boas, nas pessoas boas, no jornalismo que possibilita construir um mundo melhor. E já me decepcionei muito por ser assim. Com pessoas, com a profissão, com o mundo. Acontece. E sempre irão acontecer coisas que farão você se decepcionar, desistir dos sonhos e questionar o porquê de tudo ser como é. Sempre acontece comigo. O que aprendi nesses últimos tempos é que, mesmo na decepção, não podemos parar de sonhar e acreditar que um dia possa dar certo, se não de um jeito, de outro.

Todo mundo deve ter um sonho. Nem grande, nem pequeno. Apenas aquele sonho. Quantos nãos você já recebeu na vida? Quantas vezes você já tentou fazer dar certo? Quantas vezes você já tentou fazer dar certo de uma forma diferente daquela que já havia feito?

Como eu disse, adoro histórias clichês e filmes com finais clichês. Esse texto mesmo é bem clichê. Mas, com certeza, muita gente irá se identificar e, quem sabe, até assistir ao filme e encarar as coisas com outro olhar.


Rafaela Lorenzon

Jornalista. Curte viagens, música eletrônica e os livros da Agatha Christie. Adora (quase) todo tipo de série, mas tem uma paixão incontrolável por Grey's Anatomy e The O.C. Acredita que o que vale são as experiências e não as coisas materiais. Economiza um monte pra viajar e contar as histórias do mundo. Está trabalhando nisso....
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