cotidiano literário

Pensamentos e reflexões sobre a vida e a arte

Clare Neumann

Proto jornalista, escritora, observadora e sobrevivente do mundo moderno. Amo filmes de qualidade e descobri a minha paixão pelo jornalismo trabalhando com isso. Meu primeiro livro saiu em agosto de 2016 pela Editora Modo e não sei o que faria se não pudesse escrever.

Mad Max: Estrada da Fúria e as estradas pelas quais nós temos que trilhar

Mad Max: Estrada da Fúria pode parecer à primeira vista apenas um filme de ação como muitos que são lançados todo ano, mas ao analisa-lo nota-se que ele aborda temas muito atuais e instigantes, que interessam a qualquer um que tenha que lidar com os problemas contemporâneos. Este artigo expõe o que há de humano e relacionável em um filme que não depende apenas da ação, mas também de humanidade.


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O filme Mad Max: Estrada da Fúria é um filme que estreou em 2015 e muitas pessoas do público em geral daquele ano não faziam ideia do porquê de uma continuação de filmes dos anos 1980 só estar estreando mais de 30 anos depois. Muitos dizem que o filme ficou no “inferno do desenvolvimento”, que é o que acontece quando um filme tem roteiro, tem diretor, tem estúdio, mas algo o impede de ir para frente e realmente começar a ser produzido. E talvez este tenha sido um dos motivos, mas eu sinto que além deste motivo houve um igualmente importante: o timing. É um fato amplamente conhecido pela sociedade atual que a água que nós usamos todos os dias não vai durar para sempre. E Estrada da Fúria explora muito bem este tema, reciclando a distopia que já fora usada nos filmes anteriores da franquia, por mais que os primeiros filmes tenham sido lançados no final da década de 1970 e meados de 80. É o suficiente para dar um motivo para o cenário pós-apocalíptico dos filmes, e de quebra ainda mostra à sua audiência que sim, este é um problema real que tem que ser resolvido agora, por todos nós. Por isso o timing foi importante em um filme como este. Mas ele consegue não transmitir esta mensagem de uma forma que pareça tão expressamente assim com um alerta. O aviso está lá para todos verem e entenderem, mas o filme consegue não depender apenas disso. Afinal, o personagem título não tem como missão salvar o mundo. Ele quer sobreviver e se redimir. E este é um dos temas principais da trama.

mad-max-fury-road-image-tom-hardy-5.jpg De um modo o filme mostra a busca pela redenção de muitos jeitos. Max quer ser redimido pelo que fez ou deixou de fazer no passado para ajudar outras pessoas. Furiosa quer ser redimida por não ter feito o bastante por outras mulheres que, como ela, foram removidas dos seus lares a força e mantidas presas por um maníaco. O mesmo maníaco que, aliás, é o déspota que controla a distribuição de água no lugar que o filme mostra. Esta busca pela redenção é uma das fagulhas que fazem o filme conseguir se aproximar mais intimamente do seu público, que fazem os seus personagens serem mais reais e que fazem com que nós nos importamos com eles, com as situações em que eles estão. Pois por mais que redenção não seja uma busca de todos nós, ver o próximo (mesmo que o próximo esteja em uma tela) buscando este objetivo com tanta coragem e insistência é algo inspirador. É uma coisa nos faz questionar sobre os nossos próprios objetivos de vida e nos faz sentir que podemos conseguir alcança-los no final de muita luta.

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No filme a personagem de Charlize Theron, Imperatriz Furiosa, não busca a redenção apenas pelas mulheres que foram raptadas, mas também por não ter conseguido voltar ao seu lugar de origem mais cedo. O público então aprende que ela cresceu em uma comunidade matriarcal, e foi criada por várias “mães”. Isso é outra coisa que o filme inova e faz sentido que tenha sido trazido à tona agora, em um tempo em que a luta feminista está tão acesa. Mais uma vez, o filme deve parte de seu sucesso que foi de certo modo inesperado ao timing. Não creio que ele teria feito tanto sucesso, considerando as condições de sua produção, em uma época diferente. Ele mostra a luta feminista também ao mostrar mulheres tomando as rédeas de suas próprias vidas ao conseguirem fugir do vilão que as tinha presas e as usava apenas para que elas tivessem os filhos dele. Isso fala muito alto a qualquer mulher que já esteve em uma relação abusiva com um homem, seja ele um parceiro, parente, chefe, professor, ou qualquer outra relação de poder que esteja desequilibrada. O filme mostra que é possível sair de relações assim e mais uma vez não faz isso de modo que pareça um filme de livro de autoajuda.

De um modo bastante característico e único, ele consegue compreender todos estes temas e mais, com o tema mais significativo sendo o retorno ao lar. Isso é algo que pode atingir todo tipo de pessoa, pois evoca a questão: a que lugar você pertence? Esta é uma questão que é relacionada também à redenção, pois permite que no “retorno ao lar” a pessoa possa se redimir dos seus atos passados. Mas também abre a opção para a descoberta de um novo lar, como acontece no filme com o personagem de Tom Hardy, o protagonista, que é essencialmente um nômade. Então o lar no caso é o lugar onde o indivíduo se sente confortável para ser ele mesmo. E esta é a alma do filme depois de tantas sequências de ação ininterrupta e caos: no fundo de todos os outros temas – que são igualmente importantes – a descoberta do lar é a que verdadeiramente move as personagens do filme. E é um espelho para todos nós.

Por que um filme tão diferente dos outros filmes do circuito comum de cinema é tão relacionável? Porque no fundo fala sobre questões profundamente humanas, com as quais nós temos que lidar durante boa parte das nossas vidas, principalmente no contexto atual. Sim, a crise hídrica, os direitos iguais para ambos os gêneros, a procura pela redenção pelos erros passados de comportamento, a busca incansável por aquele lugar onde podemos finalmente chamar de lar, ser nós mesmos e saber que aquele é o nosso lugar, tudo isso caracteriza alguns dos problemas que a humanidade enfrenta nos dias atuais. Essas são questões com as quais qualquer pessoa que viva hoje pode se identificar. E existe um bom número de pessoas que fazem o possível para contornar problemas que são mostrados no filme, de qualquer jeito possível. Talvez esta vontade de ser uma pessoa melhor para com o mundo e para com si mesmo seja a fúria do título, pois esta exaltação é o que nos mantém em movimento, sem nunca parar. E essa é uma das maiores razões do tamanho do sucesso inesperado de Mad Max Estrada da Fúria: todos nós também estamos percorrendo por esta estrada.


Clare Neumann

Proto jornalista, escritora, observadora e sobrevivente do mundo moderno. Amo filmes de qualidade e descobri a minha paixão pelo jornalismo trabalhando com isso. Meu primeiro livro saiu em agosto de 2016 pela Editora Modo e não sei o que faria se não pudesse escrever..
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