cotidiano literário

Pensamentos e reflexões sobre a vida e a arte

Clare Neumann

Proto jornalista, escritora, observadora e sobrevivente do mundo moderno. Amo filmes de qualidade e descobri a minha paixão pelo jornalismo trabalhando com isso. Meu primeiro livro saiu em agosto de 2016 pela Editora Modo e não sei o que faria se não pudesse escrever.

A Duplicidade da Jornada do Herói de Clube da Luta

A teoria da jornada do herói, escrita por Joseph Campbell, pode ser usada na maioria das narrativas existentes e é maleável. Mas quão maleável ela é? Todos que já viram o filme 'Clube da Luta' sabem o quanto ele é baseado em divisões. Esta análise da jornada do herói do filme Clube da Luta explora estas divisões e vai um pouco mais além.


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O filme “Clube da Luta” é uma adaptação do livro de mesmo nome que foi escrito por Chuck Palahniuk. Algumas pessoas podem lembrar do filme por causa da popularidade que ele ganhou ao longo dos anos pelo seu fator de choque. Uso esta expressão por que este filme é um caso típico de “ame-o ou odeie-o”, recebendo reações bastante polarizadas das pessoas que o assistiram. E recebendo também diversas análises, com teorias sobre a trama, estudos, verdadeiros dessecamentos de todas as cenas, falas, e acontecimentos do filme. E também há as análises da jornada do herói, a teoria proposta por Joseph Campbell que permeia boa parte das narrativas atualmente. Clube da Luta segue as etapas da Jornada do Herói, mas, como não poderia deixar de ser, de um jeito não tradicional. E existem muitas análises do tipo pela internet, tanto em português quanto em inglês, e são todas fáceis de encontrar. Mas para mim, sempre pareceu que havia algo faltando nestas análises, pois todas as que eu encontrei pareceram simplistas demais. Foi então que eu decidi fazer a minha própria análise da jornada do herói presente em Clube da Luta.

Pois então eu li O Herói de Mil Faces, livro onde Joseph Campbell apresenta a teoria de que grande parte das narrativas segue um padrão de características onde o herói passa sempre por uma jornada de mudança. Depois de ter lido o livro assisti novamente ao filme, pontuando quais cenas e momentos eram compatíveis com cada um dos dezesseis estágios da jornada do herói, do começo ao fim. E durante as várias vezes que eu assisti Clube da Luta para fazer esta análise, eu fui notando algo que pode ter sido intencional, mas pode também não ter sido. Mas se foi, pode ser mais uma prova da genialidade do roteirista e do diretor. E é neste ponto onde eu devo avisar que, se você que está lendo agora nunca viu o filme Clube da Luta, feche a janela e vá ver o filme, pois aqui vão ter spoilers dele.

Fazendo a análise, lentamente um padrão no filme começou a ficar claro. A grande revelação do filme é que o protagonista tem uma identidade dividida em duas, devido a um desejo subconsciente de mudar a sua vida monótona e rotineira. Tendo um emprego maçante de escritório, o primeiro sinal de que algo naquela situação estava errado apareceu na forma da insônia que o narrador sofre no começo do filme, mas mesmo isso não foi o suficiente para que o personagem realmente decidisse fazer alguma mudança. E então Tyler aparece.

Mas tudo isso foi apenas para dar um contexto do filme e te lembrar dos acontecimentos. Agora, a teoria que eu vou apresentar surgiu a partir do momento em que eu notei o golpe de mestre: assim como o protagonista, o filme também é dividido. Do começo até um pouco depois da metade, nós podemos ver uma história sobre alguém que é infeliz no trabalho, mas encontra paz com os grupos de ajuda que começa a frequentar. A partir da segunda metade começa uma história totalmente diferente, tão diferente que se torna quase independente da primeira metade. Pode parecer confuso e um pouco ‘viajador’, mas com a análise da jornada do herói do filme fica mais claro. Segue-se então a minha teoria.

O Chamado da Aventura

Eu considero uma das faces deste chamado como sendo a insônia que o protagonista sofre desde o começo do filme. Ela age na narrativa como um processo no qual o narrador chega a agir para se livrar dela, o que pode ser mostrado em uma cena em particular: quando em um dos encontros de terapia que ele frequenta, o narrador entra em uma meditação na qual ele vê um pinguim que o chama para “deslizar” e relaxar. Deslizar dentro da aventura que vai começar.

Seguindo a duplicidade da jornada, o outro lado deste chamado é quando o narrador conhece Tyler Durden pela primeira vez e logo em seguida descobre que enquanto estava viajando a negócios o seu apartamento explodiu junto com todos os seus pertences. Como que para ilustrar esta duplicidade, quando ele volta ao prédio e vê os destroços das suas coisas, um dos destroços é da sua mesa de yin-yang. Como se ilustrasse que o equilíbrio aparente onde o narrador se escondia estava destruído.

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A Recusa do Chamado

De acordo com Campbell, na recusa do chamado “Aprisionado pelo tédio, pelo trabalho duro ou pela "cultura", o sujeito perde o poder da ação afirmativa dotada de significado e se transforma numa vítima a ser salva. Seu mundo florescente torna-se um deserto cheio de pedras e sua vida dá uma impressão de falta de sentido.”. É exatamente deste modo que está a vida do narrador neste ponto do filme, e ele está tão perdido que começa a agir de maneira imprevisível. A recusa do chamado é basicamente o herói se recusando a renunciar à sua vida normal e confortável.

A primeira recusa ao chamado acontece então quando depois que ele fez a primeira das coisas que não faria normalmente: sem ter a quem chamar, mas só tendo o cartão que tinha recebido de Tyler no seu primeiro encontro acidental, ele liga para o homem depois que descobre sobre a explosão. Conta a sua situação e Tyler oferece a sua própria casa para servir como lugar onde o narrador pudesse ficar, mas logo depois recebe a primeira recusa, por mais que seja breve. Depois de insistência de Tyler, o narrador aceita.

A segunda recusa acontece depois da primeira metade do filme, quando Jack percebe a verdade entre os dois e se recusa a deixar que Tyler continuasse os seus planos do projeto. Deste modo, Jack mais uma vez se recusa a deixar o mundo comum quando tenta de tudo para interromper esta evolução.

O Auxílio Sobrenatural

Segundo a teoria, o auxílio sobrenatural aparece como uma figura protetora que dá ao herói algo que vá o ajudar futuramente na sua jornada. Eu mantive em mente que este não é um filme comum, então a jornada também não seria completamente compatível com o que Campbell propõe. Mas foi aí que eu percebi como a teoria consegue ser aplicada até mesmo em narrativas modernas.

Por isso, eu vi então que o primeiro auxílio aparece na forma do personagem de Meat Loaf, o Bob.

Bob é quem aparece na vida do narrador por causa dos grupos de ajuda e, mesmo sem querer, acaba agindo como este estágio da jornada quando se torna a razão de Jack conseguir dormir novamente. Como a primeira metade do filme é contada como um filme quase normal, faz sentido que a ajuda sobrenatural surja na forma de Bob.

Já na segunda metade, que é mais focada no clube e no relacionamento entre Jack e Tyler, eu tive alguma dificuldade em encontrar esta ajuda sobrenatural, pois quase não apareceram personagens novos que tiveram este papel de “ancião sábio” na jornada de Jack.

E foi então que a resposta veio até mim quase como um soco vindo de um dos participantes do clube, por tão óbvia que era. O auxílio sobrenatural na segunda metade é o próprio Tyler Durden, não apenas pela revelação de que ele é uma personificação imaginária do próprio id do narrador, mas também pela insistência dele para que Jack percebesse a verdade sobre os dois. Afinal, é Tyler que motiva Jack a perceber que os dois são na verdade um só.

Não tem ajuda mais sobrenatural do que uma manifestação imaginária do seu próprio id que força uma iluminação da consciência.

A Passagem pelo Primeiro Limiar

O herói de Clube da Luta com certeza passa por muitos destes limiares do qual Campbell fala, e a cada novo limiar, mais o herói aprende e evolui como personagem. Deste modo, a primeira metade do filme mostra muitos destes limiares, mas o que realmente aparece como sendo um ponto de mudança do narrador é quando ele e Tyler brigam fisicamente pela primeira vez, apenas para brigar e aliviar as frustrações. Neste momento, a sua jornada não tem mais volta, pois o seu auto-descobrimento começa oficialmente aí. Como disse Campbell, “A pessoa comum está mais do que contente, tem até orgulho, em permanecer no interior dos limites indicados, e a crença popular lhe dá todas as razões para temer tanto o primeiro passo na direção do inexplorado.”. Assim, a sua primeira reação é recusar a proposta aparentemente insana de Tyler.

Outro ponto desta primeira metade que eu considero como sendo a passagem pelo segundo limiar acontece quando Jack, já instalado da casa de Tyler, é forçado pelo outro homem a ganhar uma cicatriz na mão por ácido sulfúrico. Tyler causa esta cicatriz para fazer com que Jack se libertasse um pouco mais da sua antiga vida comum e continuar a jornada, aprendendo (à força) que não poderia voltar à vida anterior. Na segunda metade do filme, a passagem pelo primeiro limiar ocorre depois que Jack, agora já acostumado com a nova vida e percebendo que o Clube da Luta havia evoluído para algo que ele não podia mais controlar, pede a Tyler que ele interrompa os planos de destruição e caos. Mais uma vez, Jack tenta voltar para o mundo comum e à normalidade, e Tyler não pode permitir isso. Por esta razão ele desaparece, deixando Jack sozinho para lidar com as consequências e o forçando a agir mais uma vez, continuando a jornada. Com efeito, é só por que Jack sai à procura de Tyler que, sem saber conscientemente, ele cria mais clubes pelo país.

O Ventre da Baleia

O herói passou pelos limiares e acabou no ‘ventre da baleia’. A ideia principal desta etapa é que alguma parte do herói “morra” para que ele possa continuar evoluindo.

Na primeira metade isso acontece quando Jack passa a conviver com Tyler na casa em que o outro vive. Pois é naquela casa em que Jack passa por algumas das suas maiores transformações, e começa a ativamente ser chamado pelo nome ‘Jack’ na narrativa, simbolizando a morte de parte dele mesmo. Na segunda metade do filme, por mais que nela aconteçam muitas transformações no personagem, a maior delas com certeza ocorre no final, quando Jack, já compreendendo o seu relacionamento com Tyler, literalmente se mata para aniquilar a porção da sua própria consciência que está dissociada.

Depois que isso acontece, a jornada do herói do filme se unifica, parcialmente porque a história termina sem mostrar evidências de como será o futuro de Marla e Jack após o seu reencontro. Pois só porque Jack aniquilou parte da sua própria consciência, não significa que ele tem segurança sobre o futuro nem que atingiu a ‘grande sintonia’ descrita por Campbell. No final, o herói continua tão estilhaçado quanto sempre esteve, como um retrato do homem moderno.


Clare Neumann

Proto jornalista, escritora, observadora e sobrevivente do mundo moderno. Amo filmes de qualidade e descobri a minha paixão pelo jornalismo trabalhando com isso. Meu primeiro livro saiu em agosto de 2016 pela Editora Modo e não sei o que faria se não pudesse escrever..
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