crônicas carnívoras

para almas vegetarianas

Marco Antonio Beck

Como disse o velho Tim Leary, confie no seu sistema nervoso de dois bilhões de anos, confie nos seus companheiros de jornada. Eu confio.

A grande merda asséptica

Tem vida? Isola! Tem corpo, cheiro, gosto? Isola! Tem suor, sangue, lágrima, saliva, fluidos, gosma? Isola!


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A coisa me incomoda há tempos mas eu não achava o fio da meada para escrever sobre. Achei faz uns dias, flanando no Google Street com o celular, quando fui parar em Paris sem sair da mesa do café e resolvi visitar o Père Lachaise.

O Père Lachaise – ou Padre Lachaise – é o cemitério mais famoso do mundo. Foi inaugurado em 1804, ocupa uma área de 44 hectares na periferia de Paris e o nome é uma homenagem ao padre François d’Aix de La Chaise, confessor do rei Luís XIV. Entre outras celebridades moram ali Frédéric Chopin, Honoré de Balzac, Sarah Bernhardt, Maria Callas, Amedeo Modigliani, Marcel Proust, Edith Piaf, Isadora Duncan, Oscar Wilde, Allan Kardec e Jim Morrison.

Como não tem Google Street dentro do cemitério, fui teclando na busca o nome dos moradores para conhecer seus túmulos. Uns mais pomposos, outros menos, alguns despercebidos entre tumbas anônimas, de repente me deparo com o de Oscar Wilde. Já tinha visto fotos do memorial e para mim é dos mais bonitos – um enorme anjo esculpido em estilo modernista, as asas estendidas parecendo despegar-se dum bloco de pedra, o nome “Oscar Wilde” entalhado abaixo em maiúsculas.

E uma parede de vidro. O túmulo limpíssimo atrás de uma vitrina.

Levei um susto.

E os beijos?! Cadê todos os beijos?!

Se você não conhece a história, eu conto; se conhece pode pular o próximo parágrafo.

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Oscar Wilde nasceu em 1854 na Irlanda e foi um dos mais notáveis escritores de uma época notável: o final do século 19. Abandonando os estudos em Oxford, onde já era reconhecido pela genialidade literária, mergulhou na boemia de Londres e lançou o Esteticismo, movimento que opunha a estética do belo ao automatismo da emergente sociedade industrial. Excêntrico e homossexual num ambiente dominado pelo moralismo vitoriano, casou-se com a filha de um advogado e foi morar em Chelsea, bairro dos artistas, onde escreveu vários clássicos da dramaturgia britânica e seu único romance, “O Retrato de Dorian Gray”. Rico e famoso, adotou um comportamento cada vez mais extravagante até ser condenado por imoralidade a dois anos de trabalhos forçados, o que devastou sua saúde, reputação e economias. Ao sair da cadeia, paupérrimo e doente, mudou-se para Paris, onde morreu a 30 de outubro de 1900 consumido pela sífilis e a bebida. Seu talento e rebeldia, bem como a prisão e a morte trágica, o converteram num ícone do chamado romantismo fin du siècle – e quando seu corpo foi trasladado do cemitério de Bagneux ao Père Lachaise, a tumba transformou-se em local de peregrinação para um exército crescente de fãs. Na década de 1990 o memorial começou a receber beijos de admiradores apaixonados, especialmente mulheres, e não tardou a ficar coberto de boquinhas vermelhas de batom.

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Então fui pesquisar e descobri que o muro de vidro que cerca o túmulo foi instalado em 2011 para protegê-lo dos beijos, porque a gordura presente no batom penetra na pedra e cada limpeza a torna mais porosa, aumentando o desgaste do monumento.

Ah, perfeito, agora entendi, faz o maior sentido. Só que.

Só que, com licença, eu sou contra o vidro – e tenho certeza que Wilde também seria. A sensação é de que, em nome de uma assepsia fácil e utilitária, o encarceraram pela segunda vez. Pior: ao impedir que seus amantes toquem e beijem o memorial, aquela parede de vidro não aprisiona apenas a ele, aprisiona a nós.

E daí chego à tal coisa que me incomoda há tempos: a assepsia fácil e utilitária está cada vez mais em toda parte e em tudo.

Antes eu abria a janela do carro girando uma manivela. Agora é só pressionar um botãozinho e o vidro sobe ou desce. Asséptico, fácil e utilitário.

Antes se andava na rua para fazer compras, ir ao cinema ou comer naquele restaurante, tinha frio e calor, chuva e sol, e rezava-se por uma vaga para estacionar no meio-fio. Agora é só entrar no Shopping e está tudo lá: a loja, o filme, o restaurante, o estacionamento, não tem frio ou calor, chuva ou sol. Asséptico, fácil e utilitário.

Antes caçava-se como o jovem Leônidas caçou aquele lobo no filme “300”, lança na mão, adrenalina a mil, chances iguais para os dois lados. Agora um idoso alquebrado mata um elefante com um rifle de mira telescópica, a 100 metros de distância, como fez o ex-rei espanhol Juan Carlos, à época presidente de uma das mais respeitadas entidades internacionais de defesa do meio ambiente, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF). Asséptico, fácil e utilitário.

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Antes a guerra era corpo-a-corpo, tacape contra tacape, espada contra espada ou – vá lá! – trincheira contra trincheira, e você olhava nos olhos do inimigo na hora do vamos-ver. Agora um nerd sentado num bunker da CIA, segurando um joystick, conduz um drone carregado de bombas até o QG do inimigo, erra o alvo, destrói um hospital lotado e a gente assiste à cena na TV como se fosse um videogame. Asséptico, fácil e utilitário.

Antes conversávamos cara a cara e se interagia com a vida usando os cinco sentidos. Agora conversamos pelo Whatsapp, o olho nas curtidas do Facebook, os ouvidos entupidos pelos fones, os dedos deslizando na telinha azulada, a boca aberta – e os netos dos nossos filhos nem chegarão a saber que houve outra coisa que não isso. Asséptico, fácil e utilitário.

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Sim, eu sei que alguém levantar-se-á (assim mesmo, com mesóclise) e dir-me-á (idem) que não passo de um romântico fin du siècle tentando opor a estética do belo ao automatismo da sociedade industrial e que a Pós-Modernidade exige toda essa assepsia porque senão...

Independente do argumento que se rabisque após o “senão...”, o fato sociológico é que tudo está se transformando num túmulo envidraçado de Wilde. A pergunta que me faço é: por quê?

Será que é para não sentir?

Será que é para não sentir o outro?

Será que é para não sentir o outro porque eu tenho medo?

Será que é para não sentir o outro porque eu tenho medo que o outro se aproxime?

Será que é para não sentir o outro porque eu tenho medo que o outro se aproxime e me toque?

Será que é para não sentir o outro porque eu tenho medo que o outro se aproxime e me toque e cubra-me de beijinhos de batom?

Ou será que o medo maior, o medo verdadeiro, o MEDÃO, é de eu mesmo me aproximar da vida real e tocá-la e cobri-la de beijinhos de batom?

E daí, para não sentir esse medo de sentir, preferimos deixar que a grande merda asséptica nos soterre, nos separe, nos segregue num apartheid fácil e utilitário.

.......

Mas não sou ninguém para apontar o dedo.

Acabo de me dar conta que o Google Street que me levou ao Père Lachaise no início desta crônica não passa de outra merda asséptica. Nele, é sempre dia na minha rua, o sol não muda de lugar, o ônibus amarelo jamais chega no ponto e aquele senhor de terno azul nunca alcançará a calçada em frente.

Envidraçados. O Oscar, eu e você.


Marco Antonio Beck

Como disse o velho Tim Leary, confie no seu sistema nervoso de dois bilhões de anos, confie nos seus companheiros de jornada. Eu confio..
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