Thomaz Henrique Barbosa

Tenho um punhado de diplomas, ganhei um sem número de prêmios e minha renda mensal é uma pequena fortuna. Nada disso me define ou diz se estou certo. Esqueça os títulos, explore o texto.
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Vegano é chato pra chuchu!

Você já reparou que, para o vegano, não basta se abster da carne, é preciso incomodar àqueles que comem? Como religiosos batendo a sua porta domingo de manhã, querem te convencer de suas convicções. Eis aqui um paralelo entre eles, e a literatura.


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Sábado de carnaval resolvi dar uma corrida no Parque Vicentina Arranha. Um ou outro me sacaneou: vai sumir, vai sumir. Mandei-os passear. Evidente que não quero emagrecer, a ideia é readquirir condicionamento físico.

Explico. Dias antes, ao bater uma bola, agüentei pouquíssimo tempo antes de esgotar. Coisa que não me acontecia quando eu tinha 18 anos e enfiava a carretilha nos marcadores, como um Zidane bêbado. O pior foi a pontada no peito. Não, meu amigo. Quem dera fosse o amor batendo na aorta, conforme disse Carlos, o poeta. Era o bacon de toda santa quinta-feira, do super hamburgão do trailler perto de casa (só os idiotas comem no McDonalds; mais idiotas ainda os que se ofendem com esta afirmativa).

Eis que na lembrança salivante do bacon, me aparece um grupo de quatro corredores. Ultrapassaram-me numa velocidade rítmica o suficiente para me estenderem um folheto. Era uma moça bonita e magra, com o cabelo loiro e liso, exceto por um cacho de dread. Sua boca era de um vermelho pálido e arroxeado. Tinha olheiras sutilmente escuras em torno de olhos fundos e saltados, se é que isso é possível, e um piercing de argola no nariz.

Quando despontaram na frente, li nas costas: “Salvem os animais! Coma soja”, e tudo fez sentido. Sem cessar a corrida, dei uma olhada no panfleto. Condenava o assassinato… de animais. Dizia um sem número de argumentos para, no verso, arrematar com uma deliciosa receita vegetariana.

Não demorou muito, eles me davam mais uma volta (disse que estou fora de forma, não disse?). Lá estava a moça, ao meu lado, com sua beleza neurastênica. — Leu? Gostou?, perguntou, encarando. — Gostei — Menti, no impulso, não sei porque. A se ver pelo fôlego, talvez ela tenha feito a escolha certa.

Seus amigos seguiram, mas ela me acompanhou, conversando. Contou que não comia carne há 3 anos. Senti fome só de pensar nisso. Logo comentei que adorava carne e tudo mais, mas ela persistia, como uma testemunha de Jeová da música do Marcos e Belutti. Simpático e tolerante como só um homem é capaz de ser quando se trata de mulher bonita, admiti ouvi-la até pararmos de correr.

Foi quando fomos tomar água e uma barata surgiu entre nós. Ela gritou, contida, se afastando. Fiz menção de esmagar o inseto. Bastou para que gritasse mais alto: — Não mata! Não mata! — Nem teria tempo. A barata correu, assustadíssima (com o grito, suponho).

— Você é capaz de matar um ser vivo?

— Era uma barata.

— Tadinha! Exclamou, corando de forma inédita até então.

Senti uma estranha sensação de euforia. A menina era completamente estranha, mas exercia um certo fascínio sobre mim. A situação parecia a de um Gregor Samsa às avessas. Faltou veganismo na vida do Kafka.

Embalado em ideias literárias, pensei o que teria acontecido se o grito não fosse dado a tempo e a barata tivesse jazido sob meu tênis anti impacto. De repente a imaginei como a personagem de Clarice Lispector, comungando a barata morta num misto de culpa e delírio.

Senti enorme asco. De uma hora para outra, meu fascínio por aquela menina se esvaiu. Ela continuou me dizendo coisas, mas meu humor tinha se alterado completamente e tudo que queria era deixá-la. Convenhamos: Vegano é chato pra cachorro! Quer dizer, deixemos os cachorros aos chineses. Vegano é chato pra chuchu!

Por fim, consegui desvencilhar-me. Para recuperar a energia perdida na corrida, resolvi tomar uma cerveja bem gelada no Disk, ali em frente. Não resisti e tive que almoçar uma saborosa costela de porco. Sei que você lerá isto, então, desculpe, meu anjo. Volte quando eu terminar de ler A Revolução dos Bichos.


Thomaz Henrique Barbosa

Tenho um punhado de diplomas, ganhei um sem número de prêmios e minha renda mensal é uma pequena fortuna. Nada disso me define ou diz se estou certo. Esqueça os títulos, explore o texto. https://www.facebook.com/thomazhb/.
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