cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Ainda há o que se aprender

"Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
(...)
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram"


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“Como estou contente de ter partido! Ah, meu amigo, o que é o coração humano! Deixar-te, a ti que eu tanto amo, de quem eu era inseparável, e estar contente”. Dessa forma Johann Wolfgang Goethe inicia um dos seus livros mais lindos, e com toda certeza um dos mais poéticos e brilhantes de toda a literatura universal; “Os sofrimentos do jovem Werther”, escrito em 1774, é uma análise profunda da vida humana, da nossa condição existencial. Autor de tantos outros clássicos, como “Fausto”, Goethe dizia que todas as coisas do mundo são metáforas, cultivou um espírito simples de uma vida bucólica; como demonstra através de Werther, que apesar de todos os altos montes que o ser humano poderia chegar, não haveria nada como colher o seu próprio repolho, de seu próprio quintal, vindo de seu próprio trabalho, porque nós adultos somos como crianças chorosas por chocolate.

“Guilherme , o que é o mundo para o nosso coração sem amor? O mesmo que uma lanterna mágica sem luz”. Werther acreditava profundamente no amor como elemento primordial ao sentido da vida, e esse amor, essa busca longínqua que o leva a morte. Para esse homem, a condição humana era bastante apequenada, não havia finalidade maior, além do amor. Ele era um homem de alma imensa, indignado com o mundo em que vivia, crítico voraz da sociedade, encontrou seu alento no olhar feminino, no entanto, diante do amor improvável (deixo ao leitor descobrir os motivos) Werther sucumbe, pois para Goethe, não importa quantas coroas, quantos louros venham à honrar um homem, ele sempre será humano.

Gatsby, personagem da também belíssima obra de Francis Scott Fitzgerald (O grande Gatsby), possuía o seu pequeno ponto verde, luminoso, em que todas as noites reservava para admirar. Subia no cais de sua grande mansão e admirava aquele pequeno ponto de luz. Fitzgerald, um jovem americano, demonstrou o vazio do ser humano, tal qual Goethe, aquele homem que bombardeava, empunhava armas durante a grande guerra mundial, aquele mesmo homem que amava o “american way of life”. Gatsby, um homem pobre, que ainda na pobreza conhece a mulher que lhe dará sentido a vida, projeta e constrói sua vida buscando sempre aquela mulher por quem havia se apaixonado. Enriquece, e constrói uma mansão do outro lado do rio em que ela morava, portanto todas as noites,subia no cais e admirava o ponto luminoso que deu sentido a sua vida.

A vida das aparências, do cinismo e da hipocrisia é a que Fitzgerald tece críticas ácidas. Gatsby é um homem que ninguém sabe o passado, mas que todos frequentam sua casa. Na verdade ninguém conhecia aquele Gatsby morador de uma mansão, rico, que promovia festas, pois ele era um homem feito de passado. “Gatsby acreditava na luz verde...no futuro orgástico que, ano após ano, costuma recuar diante de nós. Ontem fomos iludidos, mas não importa – amanhã correremos mais rápido, esticando nossos braços mais além… E numa bela manhã…”

No filme de Fellini, Amarcord, há cenas desconexas, pessoas falando alto, algumas rindo, outras sofrendo, e tudo que você encontra na obra é somente a vida que encontramos todos os dias, e que muitas vezes nem percebemos. Amarcord assim como Fitzgerald expressa pessoas vivendo seus cotidianos, buscando seus paraísos, compondo o significado de suas existências, que para Werther era o amor. É insuportável viver sem sentido, porque a leveza é insustentável, como dizia Kundera.

O que Goethe, Fitzgerald, Kundera, e tantos outros clássicos da literatura, como Dante e Cervantes, ou Tolstoi, tem a nos ensinar?

Eles nos ensinam a partir, como Goethe iniciou “Os sofrimentos do jovem Werther”; A partir dos locais comuns, a buscar o que nosso coração anseia, e o que nossa condição humana persiste em nos negar. Como Werther, falo de alçar voos com nossa alma, atravessar os limites de nossa imaginação, abandonar o nosso cinismo de cada dia e perceber o quanto somos pequenos, e tal como crianças clamando por doces para aliviar seus desejos. Haverá sempre a dúvida, e a certeza de que é preciso ler mais, conhecer mais com os grandes nomes da literatura, porque quanto mais sabemos, mais nos aproximamos de Werther, homem de alma simples, reconhecedor do quanto ainda era medíocre perto do mundo de tantos segredos.

Somos enganados todos os dias, noite após noite, pois como gostava de dizer Goethe, as coisas do mundo são metáforas; e elas estão por aí, para serem desvendadas, pois não importa o quanto sejamos enganados, sempre haverá aquilo que nos moverá. O nosso pequeno ponto luminoso, sendo admirado de nosso cais, estará lá, esticaremos os braços, os dedos, para alcançá-lo, para alcançar a beleza, como dizia o personagem de Dostoiévski, Michkin, “a beleza salvará o mundo”.

Em Old Saint Mary's Catholic Church Cemetery, Rockville, Maryland no Estados Unidos, encontra-se enterrado Fitzgerald, e em sua lápide está cravado, “E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado”.

E... a vida?

A vida,

Persiste,

Prossegue,

E cessa,

Como uma bela,

Sinfonia de piano.

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Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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