cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Como me tornei estúpido

"Você sabe o que há para fazer na margem do rio?
Ajoelhar-se ou passear, ah!
Passeie.
Passeie, Tony! Ah, Passeie!"


como-me-tornei-estupido-tete.jpg

O livro “Como me tornei estúpido”, do francês Martin Page, publicado em 2001, narra a história de Antoine, um jovem de 25 anos, que seria uma espécie de Príncipe Míchkin vegetariano ou Quixote da pós-modernidade. Por sua constante inadequação na sociedade “Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez”, ele acreditava que a inteligência apenas levava o homem a infelicidade, no entanto parecer-se inteligente era muito mais proveitoso em nossa sociedade. Havia compreendido que o importante é “parecer ser”, já “ser” é desgastante e cruel; ideia que nos lembra do conto sobre o medalhão de Machado de Assis e o filme “A doce vida” de Fellini.

Burocratas, artistas, publicitários, jornalistas, uma sociedade decadente; mergulhada no cinismo que Antoine desejava fazer parte. A solidão, a inadequação, o estrangeirismo, foi o preço a ser pago por Antoine ter se olhado no espelho, ter amordaçado suas máscaras, esmiuçado seu próprio ego. Enxergou o quanto era embebido de características pouco agradáveis, enxergou o quanto nossa sociedade era cercada pela inveja, e pelo cinismo, uma sociedade monstruosa, horrenda, corrupta, onde camuflamos nossos pecados com as máscaras das novelas. Deixamos de ser o telespectador das novelas, para sermos assistido por elas.

Por toda a solidão e sofrimento que a inteligência lhe trouxe, Antoine decide ser estúpido, porque os estúpidos são felizes e não percebem o sofrimento do mundo, como já pensara schopenhauer. Estúpido, que vem da palavra latina stupidus , significa espantado, atônito por algo estupendo; erudito e estúpido que possuem a mesma raiz, demonstra a paralisia, a incapacidade mental que Antoine gostaria de ter, ele gostaria de atingir o estado duradouro da estupefação; um estúpido, um medíocre, era isso que ele queria ser. Um atônito dentro da caverna platônica.

Martin Page nos apresenta o enredo de forma cômica, exagerada, e ao mesmo tempo trágica, como se todo esse montante de acontecimentos que chamamos de vida se equilibrasse na comicidade e na tragédia. O plano do nosso herói, ou somente mais um indivíduo qualquer, tem início com a tentativa de ser um alcoólatra, acredita que com esse vício ganharia uma identidade, pois a doença do alcoolismo era digna de reconhecimento, e a dele, a inteligência, não era nem mesmo merecedora de diagnóstico. O cômico é que Antoine mergulha nos livros e começa a estudar a história do álcool e das bebidas para se tornar um bom alcoólatra, algo que se aprende bebendo. Com apenas metade de um copo de cerveja, Antoine desaba e entra em coma alcoólico. A segunda tentativa de se tornar um estúpido seria para ele a morte, o suicídio que grandes ídolos como Sêneca e hemingway também fizeram uso, o que o leva então a assistir reuniões de um grupo que ensinava técnicas de como ter um suicídio bem sucedido. Um grupo que queria conquistar o único momento de igualdade, a única certeza que há na vida da espécie humana.

Se desejava ser estúpido, morrer não seria a solução, pois o medo da morte guia os padrões sociais da vida moderna, a juventude é desejada em contrapartida ao envelhecimento uma vez que nos lembra o destino de todos nós; é na velhice que percebemos o quanto desperdiçamos um tempo único e que seu regresso é impossível, é na velhice que o tempo nos parece mais breve, e o relógio um déspota nada muito esclarecido, é na velhice que desejamos o retorno aos tempos de outrora. Já que não somos nenhum Benjamin Button, amadurecendo a mente enquanto o corpo rejuvenesce, travamos uma luta contra o envelhecimento de nossos corpos. Mas a única certeza que teremos é de que a morte se aproxima sempre, como já dizia Baudrillard, “A revolução contemporânea é a da incerteza”.

42cae499-b2e5-480c-9e63-f9bbb6bc8bf1martinpage.JPG Martin Page, na foto acima, é um dos autores franceses da nova geração mais traduzidos para países estrangeiros.

Antoine, descontente ainda com sua situação, procura um médico para que possa ser feito nele uma lobotomia, portanto, a terceira tentativa de ser tornar estúpido. No entanto, não é qualquer médico que é procurado, é um pediatra, o pediatra que lhe acompanhou por toda a infância e continua lhe acompanhando em sua fase adulta, Antoine se recusa a confiar em outro médico, ou se recusa abandonar os tempos da infância, ou até mesmo, Antoine prefere as relações médicas duradouras. Diante da proposta espalhafatosa, o médico se recusa a fazer aquele tipo de cirurgia, e tomando como princípio que Antoine está com depressão receita um remédio chamado Felizac, seja ou não uma paródia do Prozac (Fluoxetina), o medicamente lhe deixará feliz e meio abobado. Há uma pobreza no diagnóstico do pediatra, que já conhece Antoine e seu espírito deslocado, dentre tantos diagnósticos de virose, a depressão se tornou o mal do século. O Felizac é aceito como tentativa de se tornar estúpido, e para quem desejava uma lobotomia, conseguiu uma contemporânea, dado que a moda é lobotomizar quimicamente. Ser feliz é uma obrigatoriedade, e para ser feliz é preciso ser estúpido.

Antoine, com seu uso diário de Felizac, se transforma em outra pessoa, consegue um emprego em uma agência de ações e se torna um indivíduo extremamente bem sucedido financeiramente, abandona sua preocupação com seus antigos amigos e com o trabalho escravo, seu guarda-roupa e sua geladeira são lotados de coisas caras e socialmente aceitas, e passa a frequentar até mesmo um Mcdonalds. Antoine não se suporta, ele, então, se aliena com suas doses diárias de Felizac e vida estúpida para ser feliz.

Mais uma vez há uma dose de ironia de Martin Page na escolha do trabalho de Antoine, uma agência de ações, um símbolo do que se é instável e virtual. Antoine deixa de ser o telespectador, para se tornar a novela.

Após uma visita de um fantasma, e um sequestro por seus amigos que lhe proporciona um ritual, como se fosse uma iniciação, Antoine abandona o seu antigo projeto de ser estúpido, pois havia se tornado demasiado estúpido, e retorna a ser quem ele era. Antoine volta a ser o vegetariano, despreocupado com suas vestimentas, e apaixonado pelo conhecimento; retorna às antigas companhias e ao seu antigo estilo de vida. E a conclusão da história se dá, quando ele encontra uma garota, que através de uma breve conversa percebe que é um espírito de sua mesma espécie.

O final desta história é simplório e já é esperado, o final da história é um grande clichê. Ao breve olhar despercebido o final pode nos parecer uma mediocridade, e de fato é, tal qual a vida, que em seu final não guarda segredo algum, dos reis aos servos é sempre o mesmo clichê; a morte. Da grande e longa linha tênue da vida pouco importa o final, o meio ou o que fazemos dela que nos garante o sentido primordial.

Antoine, que tinha como ambição se tornar estúpido, agora passa a assombrar a cidade com sua nova companheira, aquela que provou a ele que sempre há alguém como você. Antoine nos mostra que é preciso ser quem queremos ser, que é preciso antes de tudo nos olharmos no espelho e enxergarmos o quão horrendo somos. É preciso abandonar a falsa realidade e habitarmos de fato a realidade de nossas vidas. Não somos formigas, não somos novelas, não somos telespectadores da vida alheia, somos antes de tudo, telespectadores de nós mesmo.

No final, não há medidas drásticas, há apenas o indescritível prazer de ser quem somos.

Mario Quintana que o diga, ou talvez não diga nada... Ou talvez nos lembre da estupidez diária.

“Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”

comment-je-suis-devenu-stupide.jpg


Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Raphael F. Lopez