cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

O discreto charme de todos nós

Quando um clássico do cinema nos representa em seu desfecho, é preciso assistir, é preciso ler, é preciso refletir. Mesmo que haja a representação de tempos de outrora, haverá sempre uma atemporalidade, a imortalidade de nossos elementos mais essenciais, se é que não seja tudo fluido. Em "O discreto charme da burguesia", há nas entrelinhas, um verdadeiro discreto charme de todos nós.


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Diante do clássico de Luis Buñuel de 1972, “O Discreto Charme da Burguesia”, percebemos uma dura crítica a essa classe social que passou de poucos habitantes dos burgos medievais, para construtores de todo um sistema político e econômico que ganhou proporções mundiais. Aliaram-se com os monarcas absolutistas para fundarem os primeiros Estados-Nações da Europa, ou seja, derrubaram um modo de produção que não lhes dava espaço de enriquecimento. Posteriormente, quando essas mesmas monarquias absolutistas já não mais representava uma motivação para o lucro, a burguesia abraçou as ideias iluministas, o cientificismo e derrubaram mais uma vez o status quo, transformando radicalmente a história. Os habitantes dos burgos não só mudou toda a economia e política, mas inseriu comportamentos e estilos de vida, como por exemplo, a tão vangloriada privacidade.

Os personagens do filme, seis amigos burgueses e um diplomata da embaixada de uma república fictícia latino americana, tentam em todo o filme jantarem juntos. Com cenas desconexas em uma mistura de sonho e realidade, a vontade dos amigos nunca se concretiza e todos os jantares são interrompidos. Os diálogos entre as personagens são frívolos e pouco substanciais; de caviares, à afirmação de que um nazista prisioneiro de guerra era um homem de muita classe. Amigos esses que mantém essa relação por pura conveniência, percebemos isso na cena em que Mr. Thevenot chega à casa de Rafael Acosta para convidá-lo a um jantar e encontra no quarto do amigo sua própria esposa; diante daquela eminência de traição a calma não é perdida, e o Mr. Thevenot nos dá a sensação de que tudo aquilo esta dentro da normalidade.

Apesar de este filme ser da década de 70, ele não deixa de ser atual em seu maravilhoso debate, quando, por exemplo, traz a clara hipocrisia humana sobre as drogas. Em um jantar interrompido por alguns militares, que passam a fazer parte do evento, surge entre eles alguns fazendo uso de maconha, que levanta ali o assunto sobre o entorpecente. Um dos burgueses vai logo dizendo que abomina as drogas, o que nos deixa claro que ele nega que o copo de bebida que consumia e que consome por todo o filme seja uma droga da mesma forma. No entanto, a resposta do militar contrapõe a ideia dizendo que a maconha não é uma droga; Portanto, o que é socialmente aceito pela burguesia deixa de ser taxado como droga, nome bastante pejorativo. Podemos perceber que há a clara negação da necessidade que todos tem ali de se alienarem – o que é uma droga alienante é somente aquilo não usado, o álcool e a maconha para o militar são outras substâncias – e fugirem da realidade frívola e recheada por todos os lados de convenções massacrantes. A sociedade ocidental, embasada no racionalismo, se constrói como uma ode a razão clara e sã, tornando patológico tudo àquilo que vem de outros meios mais subjetivos.

charme-discret-bourgeoisie-10-g.jpg E se fossemos sinceros e disséssemos o que realmente queremos dizer?

Não podemos deixar de lado o fato de como a violência está, o tempo todo, presente no filme, como nos sonhos do soldado na cafeteria, em que ele descreve o assassinato encomendado por sua mãe já morta, ou no tráfico de cocaína entre o diplomata e os burgueses. A violência que todos querem esconder, que acontece sempre no vizinho, está presente também nas entrelinhas e na própria identidade do ser, algo demonstrado quando o coronel e o diplomata resolvem serem sinceros um com o outro, e dizerem sem polidez tudo aquilo que sempre quiseram dizer, tendo como desfecho o assassinato do coronel. Luis Buñuel torna a violência uma própria identidade do ser, algo intrínseco a natureza, ganhando um sentido para a vida pacata com os atos violentos; algo mostrado por Hobbes, Freud, e mais recentemente no excelente filme argentino, Relatos Selvagens de Damián Szifron.

Nem mesmo a igreja foi deixada de lado pelo diretor, em uma ótima metáfora de toda a instituição cristã. O padre Dufour interpretado por Julien Bertheau , pede à Henri Senechal para que pudesse ser jardineiro de sua casa, o que poderia representar a própria instituição cristã curvando-se para a burguesia e servindo-a, desistindo da defesa do antigo regime para aliar-se e servir a nova classe detentora de poderes políticos. A mudança da igreja é sempre ressaltada pelo padre quando justifica aquela sua vontade.

O que é mais interessante na história do líder religioso Dufour, é quando o mesmo se vê diante do assassino dos seus pais, já enfermo e beirando a morte, no entanto, ele foi levado até aquele leito para perdoar os pecados do doente; surge uma grande dualidade diante dele, perdoar aquele enfermo pecador como padre, e perdoar o assassino de seus pais como homem detentor de ódio e raiva. Dufour perdoa o doente, rezando ali em seu leito, e depois ao se deparar com uma arma,assassina o algoz da morte de seus pais, ou seja, despindo-se de todos os papeis sociais e deixando sua natureza violenta transparecer.

large_discreet_charm_of_the_bourgeoisie_blu-ray_06-1.jpg Não há troféu, nem linha de chegada... Somente há estrada, um pequeno charme de todos nós.

O discreto charme da burguesia é um filme de conteúdo bastante atual, que ultrapassa em nossos tempos barreiras de classe social. O vazio retrato da burguesia, onde os seis amigos caminham de lugar nenhum para lugar algum, pode ser reconhecido como uma verdadeira paródia de todos nós, filhos de tempos bastante incertos. Tempos de uma justiça ainda amordaçada pelos poderosos e de uma sociedade de laços débeis, assim como mostra Bauman, ao retratar o homem pós-moderno; individuo descrente da racionalidade e da religião, perdidos sobre o seu próprio ser, que se equilibra na fina ponte entre a benevolência e a perversidade; o que separa ambos é somente um passo, um estopim. Sem querer ser anacrônico, aos olhares do século XXI, há, no filme, um retrato do discreto charme de todos nós.


Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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