cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

O que é a vida?

"Quem gosta de abismos tem que ter asas!". E responder 'o que é a vida', é um verdadeiro abismo.


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Quinze anos de provocações no ar, caminhando no incerto, idolatrando a dúvida, Antônio Abujamra pode não ter sido uma janela aberta para o mundo, mas foi com certeza, um periscópio no oceano do social. O ator e jornalista, sempre perguntava ao final de toda entrevista, "o que é a vida?". Essa pergunta que permeia toda a história da humanidade, sempre foi respondida de formas diferentes, por cada entrevistado que sentou naquela cadeira.

No programa Provocações de número 690, André Abujamra, filho do apresentador, foi questionado pela tradicional pergunta do final da entrevista:

_”André, o que é a vida?".

_"A vida, papai, é uma causa perdida. E eu acredito no que você me disse desde pequeno, hoje"

_"André, o que é a vida?", insiste Antônio Abujamra.

_"A vida é o amor que eu sinto pelos meus filhos e por você."

_"André, o que é a vida?" pergunta pela terceira vez o pai.

_"A vida é uma causa perdida" responde André, antes de abraçar Abujamra, o pai.

size_810_16_9_antonio-abujamra.jpg Antônio Abujamra

O escritor Argelino Albert Camus, diz que no momento que o ser humano se torna consciente, ou melhor, lúcido, o sentimento daquilo que é chamado por ele de absurdo vem à tona. “Logo que o pensamento reflete sobre si próprio, o que primeiro descobre é uma contradição” (Albert Camus), pois o homem tenta compreender o nosso percurso e encontra o incompreensível. Fazendo uma crítica à alguns autores existencialistas como Kierkegaard, Camus diz que o absurdo, sendo o estado metafísico do ser humano consciente, não conduz a Deus; para ele, negar a existência de Deus está além dos limites da razão humana,mas é primordial negar a existência de uma criatura que coaduna com o mal em nome de uma harmonia superior.

Antônio Damásio, neurocientista português, ao perguntarem sobre o que ele achava da existência de Deus, concluiu: “Acho improvável que a neurociência consiga, um dia, apresentar razões para que as pessoas tenham ou deixem de ter fé numa inteligência superior. (...) Mas a ciência não tem como concluir que o Criador existe ou deixa de existir. A fé e a origem do universo não são problemas científicos passageiros. Mesmo assim, o conhecimento da mente pode mudar a forma como nos relacionamos com a vida. As pessoas tendem a aceitar a morte em função da complexidade do universo. Acho que deveria ser o contrário: constatando como a vida é frágil, podemos dar mais importância a ela e trabalhar para que seja a melhor possível enquanto dure” (Antonio Damásio).

Apesar da falta de sentido da vida, Camus não destrói o amor por ela, já que o amor pela vida advém da escolha de um valor, ou seja, na criação de um sentido. Portanto, quando refletimos sobre a questão que para ele é a única filosoficamente séria, o suicídio, e escolhemos viver, o niilismo não se completa. “Eu vivo, mesmo a despeito da lógica. Não creio na ordem universal, pois seja; mas amo os brotos tenros na primavera, o céu azul, amo certas pessoas, sem saber por quê”, o pequeno trecho da fala de um dos personagens do livro ‘Irmãos Karamazov’ de Dostoiévski, ilustra bem o processo de conclusão do absurdo que é a rejeição do suicídio.

Para o dramaturgo Argelino, os motivos do desespero humano residem na beleza da vida terrena, uma vida em que a morte aparece como o único fim, inquestionável. Portanto, perceber esse crucial segredo é começar a viver. “Deste trágico cara a cara com o que nos mata, a vida deverá renascer. Ela será tanto melhor vivida quanto mais nos recordamos de que não tem sentido” (Albert Camus). A exigência revoltada, que é exigência de quem ama, opta por fazer da vida a continuidade eterna das reticências... Aí vive toda a grandeza humana, de crer no mundo e recomeçar, mesmo diante de seu destino fadado ao fim.

Como dizia Hannah Arendt, “O milagre da liberdade está inserido nesse poder de iniciar, que, por sua vez, está inserido no fato de que todo homem, ao nascer, ao aparecer em um mundo que estava aí antes dele e que continuará a ser depois dele, é, ele mesmo, um novo início”.

albert-camus-a-felicidade-da-vida.html.jpg Albert Camus

Somos seres dotados de uma mente consciente, fruto de mecanismos evolutivos de 2 a 3 bilhões de anos atrás, de tamanha fatalidade e casualidade que nos remete à perecibilidade da vida. Essa, assim como a consciência, emerge de forma tão espontânea que chega-nos a parecer trivial. Antonio Damásio reconhece que sem nossa mente consciente não teríamos desenvolvido até mesmo cultura. Consciência essa que respeita a evolução tanto quanto a mínima parte de nosso organismo, é por essa contingência da própria consciência em relação a natureza que ele valoriza a vida como construção, como o eterno esforço do ser em se lapidar, e edificar-se por todo o porvir . Valorar a vida, eis aí o amor a vida.

“Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida” (Albert Camus).


Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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