cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

O operário: Quando a culpa é maior que a vida

Sartre dizia que somos condenados à liberdade, no entanto, o peso da responsabilidade de nossas escolhas pode se tornar insustentável.


Thumbnail image for 413f8b1e85c1184ea9df6daa4320dbf2.jpg

O Operário, filme estrelado de forma espetacular por Christian Bale e dirigido por Brad Anderson, pode ser descrito por apenas uma palavra: Angústia. Sentimos o cansaço e o sofrimento que Trevor (Personagem interpretado por Bale) sente, diante de sua magreza excessiva e cadavérica. O filme é um suspense psicológico, extremamente perturbante, contando com a dedicação e a atuação de Christian Bale, temos uma verdadeira homenagem ao escritor russo Dostoiévski, pois há diversas referências ao autor durante o filme. O cenário é a maior parte do tempo escuro, nebuloso, chuvoso, uma característica que encontramos também no filme ‘A ilha do medo’. Obviamente, toda essa construção misteriosa se dá para causar a sensação de mistério, como se estivéssemos adentrando um ambiente desconhecido, ou seja, a mente da personagem.

No início já temos Trevor olhando algo de uma janela, extremamente magro e machucado, ele enrola um corpo em um tapete e o leva até em um local distante para se desfazer daquilo. É nesse momento que um indivíduo aponta uma lanterna para a face de Trevor e faz a pergunta que será respondida durante todo o filme: Who are you? (Quem é você). Assim como em ‘Ilha do Medo’ temos a simbologia do farol, aqui temos a lanterna trazendo a luz que irá iluminar as partes mais obscuras da mente da personagem.

Trevor Reznik possui a companhia de sua amante Stevie, uma prostituta, a quem confessa que não dorme há um ano, no entanto é um homem extremamente solitário. Ouvimos várias vezes de Stevie, que se Trevor fosse mais magro ele não existiria. Aqui temos a primeira relação com o livro crime e castigo de Dostoiévski, Stevie é uma prostituta, assim como Sônia. A ligação com o autor russo se encontra também nas vezes em que Trevor aparece caindo de sono em sua casa enquanto lia o livro ‘O Idiota’, escrito por Dostoiévski.

Outro ponto crucial no filme são as idas de Trevor ao aeroporto durante a madrugada, onde senta em uma lanchonete e conversa com a garçonete, no entanto, o filme foca no relógio que sempre para quando é 1:30, e os segundos ficam alternando entre o número 1 e 2. Nesse momento percebemos que a realidade mescla com a fantasia, e que estamos diante de um surto psicótico.

Trevor é operário em uma empresa e, em um dia de trabalho após uma discussão com seu patrão, ele sai para fumar e conhece um suposto funcionário novo, esse mesmo funcionário que o atrapalhará fazendo-o a provocar um acidente com o seu companheiro de serviço, Miller, levando-o a perder o braço esquerdo. A partir desse momento Trevor começa a achar que está sendo perseguido, seja pelos seus amigos de trabalho que já não o querem mais ali, ou por esse suposto funcionário novo chamado Ivan.

Thumbnail image for the-machinist-images-the-machinist-7680829-956-406.jpg

Durante a insônia, vemos Trevor sendo extremamente compulsivo, lavando a mão com alvejante, como se quisesse retirar de si uma sujeira que o perturba, ou até mesmo esfregando o piso com uma escova de dente.

A história de Trevor será revelada apenas no final do filme, e ela é necessária para entender toda a trama. Quando dirigia seu carro Pontiac, Trevor se distraiu com o acendedor de cigarro e atropelou uma criança levando-a a morte; desesperado ele foge do local. É esse acontecimento que causa em Trevor todo o seu surto psicótico que perseguirá por todo o filme. Ele fez uma escolha, agora é cobrada a responsabilidade por ela.

O fato de ter matado uma pessoa é pesado demais para ele suportar, portanto prefere fugir a aceitar a realidade, é por isso que toda vez que ocorre um evento estressante surge a presença de Ivan. Quando ele discute com seu patrão, ou quando ele discute com Miller, Ivan surge como um objeto de uma fantasia. Toda vez que há um momento estressante, Trevor tem surtos psicóticos. Ivan é o próprio Trevor, é a figura que o leva a perseguição da culpa.

Lidamos de formas diferentes diante de algo que nós mesmos nos condenamos, a culpa pode nos levar próximos da loucura. No livro Crime e Castigo, a personagem Raskolnikov também não suporta a culpa de ter assassinado uma pessoa, passa longas noites sem dormir, sendo atormentado por surtos em que se flagela, e só encontra a paz e a tranquilidade quando confessa o crime a polícia e se entrega. Da mesma forma acontece com Trevor, temos a belíssima cena dele entrando em uma cela, fechando os olhos e adormecendo, depois de 1 ano sem dormir, sofrendo os surtos da culpa de ter sido o algoz, a prisão lhe é uma redenção, onde será punido e poderá retornar a vida como era antes. Como ele mesmo diz no filme, “Uma pequena culpa pode ser duradoura”.

Trevor Reznik se condena por todo o filme criando punições durante os seus surtos, podemos perceber isso na cena em que adentra o brinquedo de terror, e vê um indivíduo enforcado onde próximo a ele há uma placa escrito culpado; há uma referência a esse evento quando Stevie recebe Trevor todo machucado de um atropelamento que ele sofre pela sua própria vontade (aqui há novamente a auto punição, mesmo que inconsciente), e diz que os motoristas que atropelam e fogem deveriam ser enforcados.

OOp1.jpg

A epilepsia do garoto atropelado por Trevor é novamente uma menção a Dostoiévski, que era epiléptico, e ao próprio personagem principal do livro O idiota, que também sofria daquela doença. Outra referência ao escritor russo é o nome Ivan, que é um personagem do livro Irmãos Karamazov. Neste livro há um trecho extremamente importante para compreender a dor de Trevor.

“ele (Ivan Fiodorovitch Karamazov) declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural, mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parênteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem, mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situação”.

Apesar de ser livre e responsável por suas escolhas, como conclui Ivan do livro, Trevor não suporta as consequências de seus atos, não suporta a culpa que ele mesmo lhe impõe, não há aqui a presença de um Deus o punindo, mas ele mesmo, como senhor de um ser cuja moral tudo é permitido.

Podemos também citar a necessidade que Trevor possui de um indivíduo que o auxilie, isso é,demonstrado nas várias menções que faz a sua mãe, ou seja, alguém que lhe ajude a carregar o fardo da culpa. Raskolnikov também não suportou carregar a culpa sozinho, é por isso que na prisão se entrega à religião. O filme e o livro nos traz a indagação, até que ponto suportamos a liberdade e a responsabilidade por nossas escolhas? As longas cenas em que ele se vê distorcido, ou até mesmo as cenas em tuneis e esgotos, demonstra que o filme é uma longa viagem na mente de Trevor, uma mente que surta a todo tempo, onde os surtos psicóticos se tornam uma forma de proteção a ele mesmo. O operário é um filme daqueles que se pode considerar como raridade no cinema atual, um excelente suspense que nos conta e nos mostra um pouco sobre nós mesmos.

“A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais. Mente que vais acabar atingindo a verdade.” Esse pequeno trecho de Crime e Castigo resume de forma sublime o filme O Operário e o drama de Trevor Reznik, um homem que tentou mentir para si mesmo, mas acabou chegando à verdade.

c58a6046c22397f4967ad0d585655ed9.gif


Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
Saiba como escrever na obvious.
version 16/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Raphael F. Lopez